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Analista: mundo sai da crise gerada pela pandemia e entra em outra com a suspensão do Nord Stream 2

© AFP 2022 / Odd AndersenPlaca de trânsito direcionando o tráfego para a entrada da instalação de desembarque da linha de gás Nord Stream 2 em Lubmin, nordeste da Alemanha
Placa de trânsito direcionando o tráfego para a entrada da instalação de desembarque da linha de gás Nord Stream 2 em Lubmin, nordeste da Alemanha - Sputnik Brasil, 1920, 24.02.2022
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Erguido para suprir as futuras demandas energéticas da Alemanha, o Nord Stream 2 sempre foi uma questão polêmica entre vizinhos e aliados de Berlim. Agora, quando finalmente ficou pronto, sua certificação foi suspensa devido à crise ucraniana. A Sputnik Brasil ouviu especialista para saber se o governo de Olaf Scholz voltará atrás em sua decisão.
O Nord Stream 2 (Corrente do Norte 2) estava projetado para ser construído em 2011 e começar a funcionar no final 2012, no entanto, em meio às ameaças de sanções norte-americanas e às tensões geopolíticas, só saiu do papel dez anos depois.
Sendo assim, o gasoduto – que liga a Alemanha à Rússia e tem uma capacidade para transportar 55 mil milhões de metros cúbicos de gás anualmente – só começou a ser erguido em maio de 2018, sendo concluído no final de 2021.
Agora, quando estava finalmente para ser certificado e começar sua operação, na terça-feira (22), Berlim resolveu suspender o processo de certificação depois que Moscou reconheceu as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk na segunda-feira (21).
"O governo alemão também congelou o Nord Stream 2 a partir de agora. Nós sempre dissemos que o gasoduto estava em jogo. A Rússia agora violou tudo o que eles estavam prometendo quando diziam que estavam voltando para a mesa de diálogos, e agora eles têm que sentir as consequências também em relação ao Nord Stream 2", disse a ministra das Relações Exteriores alemã, Annalena Baerbock.
Mesmo com a suspensão, neste momento a Alemanha está perante um grande dilema, uma vez que tanto Berlim como muitos países da União Europeia dependem em larga escala do gás russo. Em 2020, 45% do gás natural importado pela UE era exportado pela Rússia, segundo o Diário de Notícias.
O pesquisador em economia internacional da UFF, Jonuel Gonçalves, entrevistado pela Sputnik Brasil, explica que o projeto Nord Stream 2 duplicaria a capacidade de exportação russa de gás para Alemanha e transformaria Berlim em centro de distribuição de gás ao conjunto europeu. Entretanto, com a paralização da certificação, esses objetivos ficam suspensos.
Além das metas interrompidas, há também um grande desgaste financeiro a partir do momento que o gasoduto custou cerca de € 10 bilhões (R$ 60 bilhões), pagos, em sua maior parte pelo governo russo através da Gazprom, mas também por parceiros europeus.
"São prejuízo em dois níveis: o fluxo de gás vai ser muito menor e a recuperação do capital investido vai demorar muito mais tempo para acontecer", analisa o pesquisador.
Na visão de Gonçalves, a crise ucraniana não impactou a decisão alemã visto que a certificação já estava suspensa pela agência reguladora da Alemanha, no entanto, "a sensação que se tem é que Berlim quis fazer um gesto de apoio aos EUA e interrompeu o processo".
© Foto / Anton VaganovTrabalhadores em canteiro de obras do gasoduto Nord Stream 2, próximo à cidade de Kingisepp, região de Leningrado, Rússia (foto da arquivo)
Trabalhadores em canteiro de obras do gasoduto Nord Stream 2, próximo à cidade de Kingisepp, região de Leningrado, Rússia (foto da arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 24.02.2022
Trabalhadores em canteiro de obras do gasoduto Nord Stream 2, próximo à cidade de Kingisepp, região de Leningrado, Rússia (foto da arquivo)
De fato, o projeto do Nord Stream 2 tem propósito comercial, segundo Gonçalves, especialmente "após os acordos mundiais obrigatórios [em 2021] para redução do consumo de carvão", contudo, quando há um contrato dessa magnitude, consequentemente "há implicações políticas e pode ser um instrumento de pressão".

"A médio prazo, a Europa pode substituir o gás russo com importações via marítima [por exemplo da Líbia] ou com uma eventual reativação do gasoduto da Argélia e do Marrocos para Espanha e, em seguida, sua extensão até a França e a Alemanha. Só que isso demora anos para fazer e a solução tinha que ser imediata. O mundo em geral está saindo de uma crise criada pela pandemia e entrando em uma outra", aponta.

Porém, o pesquisador elucida que atualmente o gasoduto da Argélia está cortado por conflitos, e neste momento o grande fornecedor de gás para Espanha e Portugal é a Nigéria. Atrás da Nigéria, o gás também vem de uma parte dos EUA e de Trinidad e Tobago.
"Em meio a essa crise, os países menos afetados por falta de gás são Portugal, Espanha, Chipre e Malta, mas o que sofrerão mais será a própria Alemanha, Hungria, o norte da Itália […] e a França de forma marginal. O fato é, afetando a economia alemã, atinge-se todo o conjunto da União Europeia porque é o carro-chefe."
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O pesquisador sinaliza que a suspensão da certificação também pode abalar a economia russa se durar muito tempo, uma vez que "Moscou pode não conseguir substituir o mercado europeu".

"A economia russa depende bastante do gás, e a redução de 40% a 50% nas exportações afeta profundamente sua economia, sobretudo se o fundo de reservas russos – que é um dos mais importantes do mundo – for utilizado para defender o rublo que está em depreciação com essa crise […], ao mesmo tempo há a dependência europeia, a questão que se coloca aqui é quem vai resistir mais tempo a esse braço de ferro."

Gonçalves também ressalta que o objetivo russo na Ucrânia tem finalidades militares e políticas, e não tem relação com uma resposta à Alemanha após a interrupção do procedimento de certificação do gasoduto.
© REUTERS / Mídia AssociadaO chanceler alemão Olaf Scholz posa para a mídia após a gravação de um discurso de televisão na chancelaria alemã, Berlim, Alemanha 24 de fevereiro de 2022
O chanceler alemão Olaf Scholz posa para a mídia após a gravação de um discurso de televisão na chancelaria alemã, Berlim, Alemanha 24 de fevereiro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 24.02.2022
O chanceler alemão Olaf Scholz posa para a mídia após a gravação de um discurso de televisão na chancelaria alemã, Berlim, Alemanha 24 de fevereiro de 2022
Se Olaf Scholz, chanceler alemão, pode receber pressão por parte de outros países europeus para voltar atrás em sua decisão, o pesquisador acredita que não, enfatizando que a reação pode ser até contrária, já que "mesmo com uma vontade de reabrir o Nord Stream 2, ele pode não conseguir, pois enfrentará a pressão dos EUA, depois a dos Países Bálticos – que até se opuseram à construção – e também a da Hungria".
"A partir do momento que em uma crise dessas você toma uma posição, o recuo implica alguma contrapartida. Então ou a situação se modifica na Ucrânia e entra a liberação do gasoduto ou não há e o projeto ficará parado por muito tempo."
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Brasil como opção

De acordo com Gonçalves, ao longo de sua pesquisa intitulada "Economia e poder no Atlântico Sul", é observado que a crise no Leste Europeu aumentará a importância econômica do Atlântico Sul, e que "daqui a alguns anos pode ser possível ver o Brasil exportando gás para Europa".
"Há pouco tempo decorreu um seminário no BNDES no qual foi levantada a hipótese de o Brasil duplicar a produção de gás liquefeito. Atualmente, o país tem um déficit de dez milhões de metros cúbicos de gás por dia, mas se duplicar, o Brasil pode não só abastecer seu mercado interno como pode exportar, mas isso vai depender da condução da economia brasileira."
© Folhapress / Luis Carlos MarauskasTubulações que trazem o gás do gasoduto Brasil-Bolívia, em Itatiba, interior de São Paulo
Tubulações que trazem o gás do gasoduto Brasil-Bolívia, em Itatiba, interior de São Paulo - Sputnik Brasil, 1920, 24.02.2022
Tubulações que trazem o gás do gasoduto Brasil-Bolívia, em Itatiba, interior de São Paulo
A União Europeia (UE) necessita fortemente das importações de gás natural, que é o segundo combustível mais utilizado em seus 27 Estados-membros, sendo a Rússia seu maior exportador.
Justamente por essa importância, os EUA e países europeus que não apoiam o projeto enxergam em seu funcionamento o aumento da dependência europeia em relação a Moscou.
Entretanto, mesmo com a oposição à sua operação por parte de algumas nações europeias, quem bate mais forte para que ele não opere é Washington. Em meados de janeiro, o Senado norte-americano rejeitou o projeto de lei para sancionar o Nord Stream 2, e ontem (23), por conta da crise ucraniana, o governo Biden lançou um conjunto de sanções ao gasoduto russo.
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