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    O apoio da Turquia ao Azerbaijão rompeu a balança de poder no Cáucaso do Sul e resultou no pior confronto militar entre as partes em 30 anos. A Sputnik explica quais são os interesses da Turquia nesse conflito.

    O conflito entre Azerbaijão e Armênia pela região de Nagorno-Karabakh é tema da agenda internacional há muitos anos. Mas o apoio militar declarado da Turquia ao Azerbaijão rompeu a frágil balança de poder na região, resultando na escalada militar mais grave em 30 anos.

    Por que a Turquia apoia o Azerbaijão na guerra e quais seus interesses nesse conflito?

    A Sputnik Brasil conversou com o professor do Instituto de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO, na sigla em russo) Sergei Druzhilovsky para entender quais as intenções turcas na região.

    O conflito

    A região de Nagorno-Karabakh está localizada na região do sul do Cáucaso, entre a Armênia e o Azerbaijão, país rico em petróleo.

    A região é reconhecida internacionalmente como parte do território azeri, enquanto a população de Nagorno-Karabakh é majoritariamente armênia.

    Entre 1988 e 1994, Armênia e Azerbaijão se envolveram em conflito armado, pelo controle da região, no qual cerca de 30 mil pessoas perderam suas vidas.

    A Armênia defende a independência de Nagorno-Karabakh, que mantém laços político-militares estreitos com Erevan. O Azerbaijão, por sua vez, defende que a região deve fazer parte de seu território nacional.

    A Rússia é o principal ator internacional na região. Moscou tem uma base militar e um tratado de defesa mútua com a Armênia, mas mantém relações próximas com Baku, posicionando-se como negociador-chave do conflito.

    No entanto, a recente intensificação do apoio turco ao Azerbaijão no conflito parece ter quebrado a balança de poder regional arquitetada por Moscou.

    "O interesse da Turquia é posicionar-se como líder regional", disse Sergei Druzhilovsky à Sputnik Brasil.

    Para ele, Ancara quer "fortalecer a posição turca na região do Cáucaso, em detrimento da influência russa nas repúblicas da região".

    Armênia e Turquia têm relações muito ruins: Erevan acusa Ancara de ter cometido genocídio contra a população Armênia entre os anos de 1915 e 1923.

    Por outro lado, Turquia e Azerbaijão tem laços histórico-culturais bastante próximos.

    "Todos devem saber que as relações entre a Turquia e o Azerbaijão são as de dois países, mas um só povo", disse o ministro da Defesa da Turquia, Hulusi Akar, após reunião com o presidente azeri, Ilham Aliev.

    Pedestres passam por cartaz em que está escrito Turquia e Azerbaijão: dois Estados, uma nação, em Ancara, Turquia, 8 de outubro de 2020
    © AP Photo / Burhan Ozbilici
    Pedestres passam por cartaz em que está escrito "Turquia e Azerbaijão: dois Estados, uma nação", em Ancara, Turquia, 8 de outubro de 2020

    "Fornecendo apoio na questão de Nagorno-Karabakh, a Turquia quer colocar o Azerbaijão definitivamente sob sua influência", disse Druzhilovsky.

    Guerra em vários fronts

    O governo de Erdogan vem fortalecendo a presença militar turca em todo o mundo árabe.

    A Turquia consolida sua presença militar no norte da Síria, faz incursões regulares no território iraquiano para combater forças curdas e interveio militarmente na guerra civil na Líbia.

    Ancara também está no centro de tensões com seus vizinhos no Mediterrâneo – em particular com a Grécia – pela exploração de hidrocarbonetos na região.

    No entanto, não está claro se a Turquia tem fôlego para administrar tantos conflitos ao mesmo tempo.

    "Existe risco de uma extensão demasiada, mas precisamos considerar que, ao conduzir essas operações militares, o governo turco mobiliza a população para apoiá-las", disse o especialista.

    Segundo ele, essa mobilização é conveniente, uma vez que "desvia a atenção da população da situação econômica do país, que se deteriora a olhos vistos".

    Manifestantes demonstram apoio ao Azerbaijão, em Istambul, Turquia, 4 de outubro de 2020
    © AP Photo / Emrah Gurel
    Manifestantes fazem ato em apoio ao Azerbaijão, em Istambul, Turquia, 4 de outubro de 2020

    Para Druzhilovsky, a Turquia procura reestabelecer a influência sob as regiões que até 1918 estavam sob domínio do Império Otomano, que tinha capital em Istambul.

    "Este não é o primeiro ano no qual o país adota a doutrina 'neo-otomana' em sua política externa", disse o especialista.

    No seu auge, o Império Otomano se estendia do litoral da Argélia moderna até Baku, atual capital do Azerbaijão.

    Turquia e Rússia

    A Rússia solicitou à Turquia que apoie o cessar-fogo entre Armênia e Azerbaijão.

    "Pedimos a todas as partes, especialmente aos parceiros como a Turquia, para fazerem o que puderem por um cessar-fogo", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em 29 de setembro.

    "As relações entre Ancara e Moscou, sem dúvida, vão se deteriorar se a Turquia não considerar o pedido russo ", disse Druzhilovsky.

    A declaração do Kremlin veio após o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, declarar publicamente seu apoio ao Azerbaijão, dizendo que a Armênia deveria pôr fim à "ocupação" da região de Nagorno-Karabakh.

    Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (à esquerda) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em conferência de imprensa após encontro em outubro de 2019
    © Sputnik / Aleksei Druzhinin
    Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan (à esquerda) e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em conferência de imprensa após encontro em outubro de 2019

    "Quaisquer declarações sobre apoio e atividades militares, sem dúvida, colocam lenha na fogueira. Somos categoricamente contra isso", concluiu na ocasião o porta-voz do governo russo.

    Turquia e OTAN

    Mas não é só Moscou que pede para que a Turquia apoie um cessar-fogo em Nagorno-Karabakh.

    No dia 5 de outubro, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, pediu para que a Turquia apazigue a situação regional.

    "Estamos muito preocupados com a escalada nas hostilidades. Todas as partes devem cessar os combates imediatamente", disse Stoltenberg durante visita a Ancara. "Espero que a Turquia use sua influência considerável para acalmar as tensões."

    No entanto, "a Turquia vem se distanciando da adesão incondicional às políticas da OTAN", disse Druzhilovsky.

    "Isso se deu principalmente pelo fato da aliança [...] ter se recusado a apoiar as operações turcas no Iraque e na Síria", explicou o especialista.

    Secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg (à esquerda), e o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, após reunião em Ancara, 5 de outubro de 2020
    © AP Photo / Burhan Ozbilici
    Secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg (à esquerda), e o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, após reunião em Ancara, 5 de outubro de 2020

    A recusa "foi considerada pela Turquia como um ato de traição por parte da OTAN", notou Druzhilovsky.

    No entanto, a aliança está preparada para pressionar Ancara. No dia 5 de outubro, o Canadá anunciou a suspensão do fornecimento de armas à Turquia em função de seu envolvimento no conflito entre Armênia e Azerbaijão.

    A Turquia criticou a decisão, acusando o Canadá de adotar uma política de "dois pesos e duas medidas".

    "O Canadá parece não ver problema em exportar armas para países envolvidos militarmente na crise do Iêmen, mas suspende a venda de armas a um aliado da OTAN", argumentou o Ministério das Relações Exteriores turco em nota.

    Apesar da grave crise, "não há nenhum indício de que a Turquia deixará a aliança", acredita Druzhilovsky.

    Os combates na região contestada de Nagorno-Karabakh tiveram início em 27 de setembro. Armênia e Azerbaijão trocam acusações pela violação do cessar-fogo e início das hostilidades.

    Nesta sexta-feira (9), os ministros das Relações Exteriores de Armênia e Azerbaijão devem se reunir em um encontro trilateral convocado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, informou a assessoria de imprensa do Kremlin.

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    Tags:
    Nagorno-Karabakh, OTAN, Rússia, Azerbaijão, Armênia, Recep Tayyip Erdogan, Turquia
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