04:51 04 Agosto 2020
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    O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que irá retirar o reconhecimento do status especial de Hong Kong e ameaçou impor sanções contra administradores da cidade. A Sputnik explica qual o impacto da medida e se há risco para a posição de Hong Kong como centro financeiro global.

    Em 30 de maio, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que irá revogar o reconhecimento de Hong Kong como uma zona aduaneira separada da China, medida com implicações profundas para a posição da cidade como centro financeiro global.

    A medida foi tomada pouco após o legislativo chinês ter aprovado a nova lei de segurança nacional para a região, que aumentaria a influência de Pequim sobre Hong Kong.

    Presidente da China, Xi Jinping (à esquerda) e o primeiro-ministro, Li Keqiang, votam durante pleito sobre a lei de segurança nacional de Hong Kong, em Pequim, China, 28 de maio de 2020
    © REUTERS / Carlos Garcia Rawlins
    Presidente da China, Xi Jinping (à esquerda) e o primeiro-ministro, Li Keqiang, votam durante pleito sobre a lei de segurança nacional de Hong Kong, em Pequim, China, 28 de maio de 2020

    Por que a retirada do reconhecimento norte-americano é tão relevante para Hong Kong? É verdade que a cidade pode deixar de ser um centro financeiro global?

    Para responder a essas perguntas, a Sputnik Brasil conversou com dois sinólogos brasileiros, diretores da plataforma Shumian, especializada em análise das relações exteriores da China.

    O que é o status especial de Hong Kong?

    Hong Kong foi colonizada pelo Reino Unido em 1842, quando Londres conquistou o porto da cidade durante a Guerra do Ópio. Nesse embate, o Reino Unido lutou pelo direito de exportar o alucinógeno para o enorme mercado chinês, mantido fechado pelas autoridades de Pequim.

    Durante o processo de devolução de Hong Kong à China, Pequim e Londres assinaram a declaração conjunta de 1984, na qual Pequim se comprometeu a manter status diferenciado para a região e garantir que o modo de produção econômico socialista não fosse aplicado na cidade.

    Manifestante empunha bandeira do Reino Unido e passaporte britânico em centro comercial de Hong Kong, na China, 29 de maio de 2020
    © AP Photo / Kin Cheung
    Manifestante empunha bandeira do Reino Unido e passaporte britânico em centro comercial de Hong Kong, na China, 29 de maio de 2020

    Nesse contexto, é inaugurado o regime de "um país, dois sistemas", sob o qual a economia de mercado é mantida em Hong Kong, assim como regras diferenciadas para o controle de fluxos de capitais estrangeiros na cidade.

    Hong Kong é dotada de autonomia administrativa em todas as questões domésticas, à exceção das áreas de defesa e política exterior. Ademais, Pequim se comprometeu a não modificar a jurisprudência e costumes da região autônoma especial por um período de 50 anos.

    E os EUA com isso?

    Para que Hong Kong se desenvolvesse economicamente e virasse o centro financeiro que conhecemos hoje foi essencial que os países ocidentais reconhecessem o seu status especial.

    Os EUA reconheceram o status especial de Hong Kong em 1992 e apoiaram a devolução da cidade à autoridade chinesa, no âmbito da política de aproximação entre Pequim e Washington iniciada pelo presidente Ronald Reagan em meados da década de 80.

    "O reconhecimento norte-americano [...] é importante para agências creditícias e multinacionais que usam a cidade para investir na China [...] É como um 'selo de credibilidade'", disse Lívia Costa, mestra em Relações Internacionais na academia Yenching da Universidade de Pequim, à Sputnik Brasil.

    O reconhecimento garante alguns privilégios para Hong Kong: "A moeda local, por exemplo, que pode ser livremente trocada pelo dólar americano", disse Jordy Pasa, mestre em Política Chinesa pela Universidade Renmin, à Sputnik Brasil.

    Mulher usa máscara protetora em frente a telão que mostra os índices do mercado de ações, em Hong Kong, 1º de junho de 2020
    Vincent Yu
    Mulher usa máscara protetora em frente a telão que mostra os índices do mercado de ações, em Hong Kong, 1º de junho de 2020

    De acordo com o serviço de pesquisa do Congresso dos EUA, Hong Kong é atualmente o 15º maior mercado exportador de Washington, desempenho que, em larga medida, se deve ao tratamento preferencial, que exime as partes do pagamento de tarifas aduaneiras.

    "Esse conjunto de vantagens foi e segue sendo muito importante para a posição de Hong Kong [...] como base para a presença estadunidense em toda a região", garantiu Pasa.

    Retirada do reconhecimento pelos EUA

    Apesar de suas consequências dramáticas, a decisão de Trump de retirar o reconhecimento do status de Hong Kong não surpreendeu os analistas.

    A medida "é condizente com a postura dos EUA em relação à China desde a ascensão dessa incógnita desestabilizadora chamada Donald Trump", acredita Costa.

    Ela explica que, "em novembro de 2019, o Congresso Norte-americano já havia aprovado a Lei de Democracia e Direitos Humanos de Hong Kong" que permitia aos EUA reavaliar o reconhecimento de Hong Kong anualmente.

    Nesse contexto, "em 2020, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo [...] avaliou que a cidade já não possuía autonomia em relação à China", explicou Costa.

    Presidente dos EUA, Donald Trump, fala em uma discussão em mesa redonda sobre pesca comercial em Bangor, Maine, EUA, 5 de junho de 2020
    © REUTERS / Tom Brenner
    Presidente dos EUA, Donald Trump, fala em uma discussão em mesa redonda

    As ameaças de imposição de sanções por parte da administração Trump tampouco surpreendem Pasa: "Sanções são uma ferramenta recorrente na política externa norte-americana."

    "Mas não se iluda", alerta Costa, "Trump usa [a questão de Hong Kong] para distrair a opinião pública quanto à forma que tem combatido a COVID-19 e mostra para os seus eleitores que não pega leve com a China."

    Quais as consequências para o futuro de Hong Kong?

    No curto prazo, Pasa acredita que "a posição atrativa de Hong Kong frente ao mercado financeiro internacional deve se deteriorar".

    Costa não exclui a possibilidade de "fuga de capitais da cidade", que devem ser absorvidos por locais como "Singapura, Japão e Austrália".

    Vendedora usa máscara protetora na sua mercearia, em Hong Kong (foto de arquivo)
    © AP Photo / Kin Cheung
    Vendedora usa máscara protetora na sua mercearia, em Hong Kong (foto de arquivo)

    "Isso pode sim contribuir com a decadência da cidade como um centro financeiro global", alertou Pasa. "Mas isso não ocorrerá de um dia para o outro."

    Costa concorda, dizendo que "Hong Kong continuará sendo próspera e importante por um bom tempo [...] e o governo de Pequim vai tomar as medidas cabíveis para que não haja uma fuga violenta de capitais".

    Pequim vai sair prejudicada?

    Os analistas notaram que a economia chinesa não depende de Hong Kong para ter um bom desempenho.

    "A China continental não depende de Hong Kong para sobreviver. Em 1992, 45% das exportações da China passavam por Hong Kong. Em 2019, apenas 12%", notou Costa.

    Para Pasa, "Washington pode estar superestimando a importância do status de Hong Kong [...] para o governo central de Pequim".

    Ele lembra que a economia chinesa conta com a "ascensão rápida de metrópoles [...] como Xangai e Shenzhen".

    Costa acredita o governo de Pequim pode sair fortalecido, ao se beneficiar da criação da imagem dos EUA como uma "ameaça externa estrangeira".

    Manifestante pró-China segura imagem de Donald Trump, em frente ao Consulado dos EUA em Hong Kong, 30 de maio de 2020
    © AP Photo / Kin Cheung
    Manifestante pró-China segura imagem de Donald Trump, em frente ao Consulado dos EUA em Hong Kong, 30 de maio de 2020

    Encarar "os EUA como um inimigo público cria respaldo popular para medidas mais duras contra os estadunidenses", notou.

    Nesse contexto, "Pequim deve tomar essa oportunidade para estender seu alcance sobre a cidade. Essa tarefa, porém, não será das mais fáceis, vide a crescente instabilidade em Hong Kong", disse Pasa.

    Portanto, para Costa, "no curto prazo Pequim e Hong Kong passarão por tempos difíceis. Mas, no longo prazo, o governo central terá ainda mais controle sobre a cidade".

    O tiro dos EUA vai sair pela culatra?

    Pasa acredita que a medida norte-americana deve "enfraquecer os laços entre Hong Kong e os EUA".

    "Washington pode muito bem acabar por atingir mais os amigos do que os oponentes em Hong Kong. Muitas das forças políticas [...] hostis a Pequim na cidade veem os EUA como aliados. Uma posição mais agressiva da administração Trump pode alienar essas forças."

    Manifestante em Hong Kong envolto na bandeira dos EUA, em 1º de dezembro de 2019
    © AP Photo / Ng Han Guan
    Manifestante em Hong Kong envolto na bandeira dos EUA, em 1º de dezembro de 2019

    Por outro lado, Costa lembra que os "EUA tentarão influenciar mais a opinião pública de Hong Kong incentivando os protestos sob a égide dos direitos humanos".

    Após a decisão de Trump, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, disse que "palavras e ações dos EUA que prejudiquem os interesses da China serão recebidas com contra-ataque resoluto" por parte de Pequim.

    Anteriormente, o governo da região autônoma havia declarado que "qualquer sanção será uma faca de dois gumes, que irá prejudicar não só os interesses de Hong Kong, mas também os interesses dos EUA".

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    Tags:
    Donald Trump, mercado financeiro, sanções, EUA, Hong Kong
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