15:32 03 Agosto 2020
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    Pequim pode aderir ao Tratado de Parceria Transpacífico depois que os EUA, sob o governo Trump, saíram da parceria original em 2017. No entanto, Washington poderia dissuadir a entrada de mais países.

    A China pode aderir ao Tratado de Parceria Transpacífico Abrangente e Progressivo (TPP-11, na sigla em inglês) no futuro, disse na última sexta-feira (29) o primeiro-ministro chinês Li Keqiang. Ao assinar esse acordo, Pequim não só preencherá a lacuna deixada por Washington, mas também poderá se tornar sua principal força impulsionadora, diz o especialista Xu Liping, pesquisador do Instituto de Estudos Ásia-Pacífico e Estratégia Global da Academia Chinesa de Ciências Sociais à Sputnik China.

    O acordo de Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) para livre comércio foi assinado em 4 de fevereiro de 2016 por apenas três países, Nova Zelândia, Singapura e Chile, para estabelecer uma zona de livre comércio regional. Gradualmente, mais estados da região Ásia-Pacífico aderiram à TPP.

    O objetivo deste acordo foi reduzir barreiras tarifárias, bem como regular normas no campo do direito do trabalho, proteção da propriedade intelectual, meio ambiente e outras áreas.

    Por que só agora?

    Washington começou a apoiar ativamente a iniciativa sob o governo Obama como uma espécie de contrapeso à crescente influência da China na região. Como resultado, Pequim não pôde assinar o acordo por muito tempo.

    Durante sua campanha eleitoral, o atual presidente dos EUA, Donald Trump, criticou duramente o acordo, ressaltando que a participação nesta integração internacional não era rentável para seu país: segundo ele, reduziu empregos e proporcionou injustamente as maiores vantagens competitivas aos países menos desenvolvidos. Como resultado, tendo vencido as eleições, Trump retirou unilateralmente os EUA da TPP.

    Apesar disso, a parceria não deixou de existir, mas mudou um pouco seu formato. Onze países, incluindo o Japão, México, Singapura e Austrália, assinaram o TPP-11 em 2018, que incluiu a maioria das disposições do acordo anterior. Seu objetivo era criar um mercado comum na região da Ásia-Pacífico, semelhante ao da União Europeia.

    Até agora, a China ainda não mostrou sua posição quanto ao TPP-11. No entanto, as atuais declarações do primeiro-ministro do Conselho de Estado chinês enviam o primeiro sinal de que o país asiático pode considerar a adesão a este acordo.

    Se isso acontecer, Pequim se tornará a força comercial mais poderosa entre todos os membros do TPP-11 e, portanto, tomará o lugar dos EUA, disse Liping.

    Liaoning, primeiro porta-aviões da China, navegando durante exercícios militares no Pacífico
    © AFP 2020 / Stringer
    Liaoning, primeiro porta-aviões da China, navegando durante exercícios militares no Pacífico

    "Acredito que a China está desempenhando um papel cada vez mais construtivo na promoção da liberalização do comércio. Na verdade, essa estratégia satisfaz não apenas os interesses chineses, mas também os de toda a região", disse o especialista.

    Exemplo do Vietnã ajudaria a superar divergências

    Apesar de o governo chinês estar considerando aderir ao acordo, Pequim não concorda com a permissão para estabelecer sindicatos organizados e limitar o papel das empresas estatais no comércio.

    Por outro lado, o exemplo do Vietnã mostra que um país socialista de economia mista pode se adaptar perfeitamente às exigências do TPP-11 e até mesmo se beneficiar muito com um acordo de livre comércio. Durante os primeiros sete meses de participação de Hanói no TPP-11, o superávit da balança comercial foi de US$ 1,8 bilhão (R$ 9,21 bilhões), e metade desse valor foi acumulado graças ao acordo.

    Como a China tem se concentrado recentemente em aumentar a abertura de sua própria economia e apoiar o livre comércio, os requisitos da TPP-11 não devem se tornar um sério obstáculo para o país asiático se este quiser assiná-la.

    EUA como principal obstáculo

    É improvável que outros membros da TPP-11 se oponham ao estabelecimento de um regime comercial especial com a China, uma vez que o país asiático é o maior mercado e o principal parceiro comercial da maioria deles, incluindo a Austrália, Nova Zelândia e Japão. O livre comércio com a China fortalecerá a posição competitiva dos produtos desses países no mercado chinês. Mas, embora os Estados Unidos tenham se retirado do acordo, podem pressionar outros países a não aceitarem a China na TPP-11, advertiu Xu Liping.

    "Washington não quer que Pequim adira a este acordo porque a China pode assumir a liderança na liberalização do comércio na região. Este resultado não corresponde aos interesses geopolíticos, comerciais e econômicos do país norte-americano", comenta o especialista.

    Atualmente, os 11 países da TPP-11 são responsáveis por 13% da economia mundial. Uma vez unida a eles, a China fortalecerá consideravelmente o potencial dessa integração internacional, já que sua participação na economia global é muito maior do que a de outros signatários da TPP-11 juntos.

    Documento de retirada dos EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) sendo assinado pelo presidente Donald Trump, 23 de janeiro de 2017
    © AFP 2020 / Saul Loeb
    Documento de retirada dos EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TPP) sendo assinado pelo presidente Donald Trump, 23 de janeiro de 2017

    A história tem mostrado que o fator EUA não deve ser subestimado. A Austrália, por exemplo, que é o parceiro-chave dos norte-americanos, foi inesperadamente o primeiro país a solicitar uma investigação internacional sobre as causas do novo coronavírus em Wuhan, mas foi Washington que promoveu ativamente a teoria relacionada a um vazamento do SARS-CoV-2, sem fornecer evidências até o momento.

    Enquanto isso, os outros aliados tradicionais dos EUA, incluindo os da União Europeia, tentaram manter uma postura neutra sobre o assunto para não ofender os Estados Unidos e afastar a China. Neste aspecto, a Austrália foi rápida em se envolver em uma situação desagradável. Como resultado, suas relações com a China começaram a se deteriorar. O comércio com a China, que é vital para a Austrália, foi o primeiro a sofrer.

    Os outros países que se encontram em um triângulo com a China e os Estados Unidos devem pesar todos os prós e contras com mais cuidado antes de apoiarem o curso norte-americano graças ao mau exemplo de Camberra, concluiu Liping.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Austrália, Vietnã, Ásia-Pacífico, Donald Trump, Li Keqiang, TPP11, TPP, China, EUA
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