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    O Ministério do Interior do Irã confirmou neste sábado (19) que o chefe do Judiciário da República Islâmica, Ebrahim Raisi, 60 anos, venceu a eleição presidencial no país com 61.95% dos votos.

    O principal juiz do Irã garantiu a maioria dos votos na eleição presidencial de sexta-feira (18), o que lhe permitiu assumir o segundo posto mais alto do país a partir de 3 de agosto. Ebrahim Raisi é considerado um linha-dura quando se trata de relações com países ocidentais. Ainda assim, especialistas consideram que o Ocidente pode ter uma chance de chegar a acordos com Teerã, especialmente sobre o acordo nuclear.

    Juiz com vínculos com o clero

    Ebrahim Raisi passou a maior parte de sua carreira no judiciário do Irã e atualmente ocupa o cargo mais alto neste ramo do poder. Considerado ultraconservador quando se trata da Sharia (lei islâmica), acredita-se que Raisi tenha laços estreitos com o clero iraniano e que recebeu o apoio do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e poderia até assumir esse posto após a morte de Khamenei.

    Líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, à chegada para votar na eleição presidencial, 18 de junho de 2021
    © AFP 2021 / ATTA KENARE
    Líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, à chegada para votar na eleição presidencial, 18 de junho de 2021

    Dessa forma, a vitória de Ebrahim Raisi na eleição presidencial pode ser vista como um passo nesse caminho, já que o atual líder supremo foi também presidente iraniano por dois mandatos, de 1981 a 1989.

    Economia de Estado

    No entanto, a competência de Raisi não se limita apenas à esfera judicial e ter ligações em cargos de chefia. Em 2016, ele foi nomeado para liderar a fundação Astan Quds Razavi, uma instituição de caridade que administra uma ampla gama de negócios no Irã e desempenha um papel econômico e político significativo no país.

    Por ser um conservador, Raisi provavelmente promoverá o conceito de desenvolvimento econômico liderado pelo Estado. Todavia, deve recusar tornar o país mais aberto aos investimentos estrangeiros, principalmente depois que estes fugiram ao primeiro sinal das sanções norte-americanas em 2018.

    O novo presidente também deve adotar uma abordagem mais conservadora quando se trata de liberdades sociais e políticas, sugere Alam Saleh, professor de estudos iranianos na Universidade Nacional da Austrália.

    O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif (à esquerda) encontra seu homólogo venezuelano, Jorge Arreaza, em Caracas, Venezuela, 5 de novembro de 2020
    © AP Photo / Matias Delacroix
    O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif (à esquerda) encontra seu homólogo venezuelano, Jorge Arreaza, em Caracas, Venezuela, 5 de novembro de 2020

    Linha-dura contra o Ocidente

    Os países ocidentais provavelmente serão os que terão mais dificuldade para se comunicar com Raisi por vários motivos, afirma o especialista. O presidente eleito é um oponente linha-dura do Ocidente e das políticas ocidentais.

    Raisi também está sujeito a sanções que foram introduzidas pelos EUA em 2019 por causa de seu apoio ao líder supremo aiatolá Khamenei, o que pode complicar as tentativas do Ocidente de negociar com ele. Ao mesmo tempo, Raisi está enfrentando acusações de fazer parte de um "comitê da morte" de quatro homens que supostamente ordenou a execução de milhares de prisioneiros no Irã em 1988. Teerã nega veementemente ter ordenado tais assassinatos.

    Não está claro se essas acusações afetarão as relações entre o Irã e o Ocidente. No entanto, depois que os EUA aplicaram sanções a Teerã, é provável que este último desvie o foco de sua política externa do Ocidente para o Oriente, acredita Alam Saleh.

    Centrífugas de nova geração do Irã vistas em exposição durante o Dia Nacional da Energia Nuclear do Irã em Teerã, 10 de abril de 2021
    © REUTERS / WANA / Presiidência do Irã
    Centrífugas de nova geração do Irã vistas em exposição durante o Dia Nacional da Energia Nuclear do Irã em Teerã, 10 de abril de 2021
    "A eleição de Raisi é o resultado da pressão ocidental sobre o Irã, minando sua segurança [...] especialmente após a retirada do presidente Trump do acordo nuclear [em 2018, que] prejudicou a confiança do Irã no Ocidente […]. Veremos um relacionamento mais próximo e uma dependência mais forte da Rússia e da China por muitos anos", complementa Saleh.

    O especialista acrescenta que a eleição de Raisi pode influenciar a maneira como o Irã se comporta na região. Saleh observa que, uma vez que a confiança do Irã no Ocidente, e especialmente nos EUA, foi minada e Washington começou a reduzir seu envolvimento na região, Teerã pode sentir que está "em uma posição mais confortável" e desafiar os interesses ocidentais no Oriente Médio nos próximos anos.

    Futuro do acordo nuclear

    Uma das questões mais agudas sobre a futura política externa do Irã envolve as negociações em andamento sobre a restauração do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês). Embora Teerã tenha informado que algum progresso foi alcançado nas negociações recentes em Genebra, os EUA e o Irã ainda não chegaram a um acordo sobre os termos de retorno ao acordo nuclear.

    Enrique Mora, vice-secretário-geral do Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS, na sigla em inglês) e Abbas Araghchi, negociador do Ministério das Relações Exteriores do Irã, aguardam o início da reunião da Comissão Mista do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) em Viena, Áustria, 17 de abril de 2021
    © REUTERS / Delegação da União Europeia em Viena, Áustria / Handout
    Enrique Mora, vice-secretário-geral do Serviço Europeu de Ação Externa (EEAS, na sigla em inglês) e Abbas Araghchi, negociador do Ministério das Relações Exteriores do Irã, aguardam o início da reunião da Comissão Mista do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) em Viena, Áustria, 17 de abril de 2021

    Embora a eleição de uma linha-dura antiocidental possa ter prejudicado esses planos, Ebrahim Raisi ainda pode concordar em renovar o acordo. Ele pediu o levantamento das sanções norte-americanas no passado, e o acordo nuclear atualmente parece ser a única maneira de alcançar esse objetivo. Além disso, o líder supremo do Irã também apoiou a ideia de restaurar o acordo.

    Um acordo restaurado, no entanto, será diferente do documento original de 2015, apoiado pelo Conselho de Segurança da ONU, enfatiza Alam Saleh. O especialista afirma que que o Irã não confia mais no Ocidente e, portanto, não concordará com os termos anteriores enquanto for governado por um linha-dura.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    aiatolá, Aiatolá Khomeini, EUA, JCPOA, acordo nuclear, acordo nuclear, Teerã, Irã
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