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    Jair Bolsonaro ao lado de Donald Trump na Casa Branca em 19 de março de 2019

    'Amor não correspondido': Brasil sofre 'traição' dos EUA com veto à carne bovina, dizem analistas

    © AP Photo / Manuel Balce Ceneta
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    Passados dois anos, os EUA mantiveram o fechamento do seu mercado para a carne bovina oriunda do Brasil, em uma demonstração de que a diplomacia do presidente Donald Trump junto ao colega Jair Bolsonaro se configura em uma nova "traição" de um "amor não correspondido", segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil.

    O fim do embargo à carne bovina brasileira esteve na agenda de Bolsonaro em seu primeiro encontro com Trump na Casa Branca, em março deste ano. Embora a delegação tenha voltado para a Brasília com algumas promessas na bagagem, até o momento apenas algumas concessões pedidas pelos EUA de fato se materializaram.

    Nascido nos EUA e naturalizado brasileiro, o professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer, disse em entrevista à Sputnik Brasil que o Brasil ainda sofre os efeitos da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em 2017 e que investigou as principais empresas do setor no país, suspeitas de adulterar produtos e pagar propinas a fiscais.

    "[Trump] prometeu ao Bolsonaro [o fim do embargo], mas não cumpriu a promessa. Parece que ele não manda totalmente nos inspetores americanos. Mas, em compensação, outra notícia foi aumento da venda de calçados [brasileiros] para substituir os calçados chineses. Uma mão lava outra [risos]", ironizou Fleischer, que definiu o episódio como uma nova "traição".

    "Bom, o Bolsonaro já tinha dado uma contrapartida ao trigo americano poder entrar sem pagar imposto, como boa vontade, achando que em troca voltaria a vender carne. Mas o gesto de boa vontade dele não surtiu efeito", acrescentou o professor emérito da UnB.

    Bandeiras do Brasil e dos EUA
    © AP Photo / Julio Cortez
    Bandeiras do Brasil e dos EUA

    Segundo reportagem do jornal O Globo, uma missão de técnicos dos EUA visitou frigoríficos brasileiros neste ano, após o primeiro encontro entre Bolsonaro e Trump. Contudo, os resultados não foram considerados satisfatórios e, após o envio de novas informações, uma nova missão deverá vir ao país, a fim de colocar fim ao embargo. Ao jornal, uma fonte brasileira não se furtou em dizer que "eles podem estar enrolando a gente".

    Mas nem toda a culpa do imbróglio recai sobre Trump e a política externa e comercial dos EUA. De acordo com o cientista político e professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mauricio Santoro, ao que tudo indica Bolsonaro acreditou que, se tivesse uma relação forte com o líder dos EUA, os benefícios para o Brasil viriam.

    "Estamos vendo é que isso não acontece. Pode até haver ali uma aproximação pessoal dele um pouco mais forte com o Trump, mas isso não tem resultado em benefícios imediatos e palpáveis e mensuráveis para o país. Em grande medida, essa é uma política externa que continua sendo feita com base nas grandes burocracias dos dois países, na qual prevalece uma lógica muito mais lenta, de análise de riscos e oportunidades", analisou à Sputnik Brasil.

    Piora com os EUA e olhos para China e Índia

    Instados a falar sobre a perspectiva futura das relações comerciais entre Brasil e EUA, ambos os analistas ouvidos pela Sputnik Brasil mostraram-se pouco otimistas. Além do baixo interesse de Washington com assuntos relacionados à América Latina (salvo episódios esporádicos vinculados à Venezuela), o governo Trump tem outras prioridades, às vésperas de um ano eleitoral em solo norte-americano.

    "O Trump vai disputar uma reeleição no ano que vem no meio de um processo de impeachment, e isto não tem paralelo na história americana [...] será uma campanha extremamente difícil. É de se imaginar que, em um cenário como esse, ele venha a se tornar ainda mais protecionista, tentando de toda maneira agradar grupos de interesse que tenham uma visão de que estão sofrendo uma ameaça da concorrência internacional, e que precisam se proteger de rivais de outros países. Com todas essas possibilidades será um cenário ainda mais complicado para que ele possa fazer concessões, algum tipo de negociação", pontuou Santoro.

    Em tal cenário interno atribulado, Trump poderá ter outras prioridades do que aquelas prometidas a Bolsonaro neste ano, como o apoio para a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – Washington prioriza a entrada da Argentina no grupo, prometendo apoiar Brasília em um momento futuro –, ou abrir o mercado americano para o açúcar e para a carne brasileira – frustrações já expostas pelo agronegócio nacional.

    Para Fleischer, não faltam motivos para que o governo brasileiro entenda uma única máxima, mencionada categoricamente por ele à Sputnik Brasil.

    "Ele [governo Trump] só pensa em si mesmo, só quer glória para ele, para incrementar a sua reeleição. Muita gente acha que essa guerra comercial com os chineses eles só vai acabar no ano que vem para ajudar a incrementar a reeleição dele [...] Eles [Bolsonaro e seus assessores] badalaram muito que teriam um acordo de livre comércio com os EUA, mas está muito longe disso", cravou o docente emérito da UnB.

    Liderada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, uma delegação brasileira irá aos EUA no dia 17 deste mês, e o embargo à carne bovina do país deverá integrar a agenda de discussões com o secretário americano da Agricultura, Sonny Perdue. No Brasil, o governo Bolsonaro terá que lidar com outros parceiros comerciais, a começar com a China.

    Todos os cinco presidentes do BRICS se encontram às vésperas da cúpula do G20, Osaka, Japão
    © Sputnik / Mikhail Klimentev
    Todos os cinco presidentes do BRICS se encontram às vésperas da cúpula do G20, Osaka, Japão

    O presidente Xi Jinping é esperado para a XI Cúpula do BRICS, que vai acontecer nos dias 13 e 14 de novembro em Brasília – o presidente russo Vladimir Putin também é aguardado pelas autoridades brasileiras. De acordo com os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, o comprometimento do Brasil para com o bloco precisa ser reforçado, sobretudo diante dos seguidos alinhamentos automáticos do Itamaraty com a política externa de Washington.

    "Bolsonaro teve que mudar as suas ideias porque, quando ele foi eleito, antes da posse, ele criticou a China comunista, e os chineses foram até muito educados, esperaram e ele mudou de ideia. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, então Bolsonaro foi alertado pelos assessores que não é bem assim. Então ele mudou a sua retórica a respeito da China", ponderou Fleischer, falando do país que ainda vive uma guerra comercial com os EUA.

    Também falando sobre a China, Santoro relembrou que, após uma desconfiança inicial, Pequim vem abrindo o seu mercado para, por exemplo, frigoríficos brasileiros, além de outros produtos. O cientista político também reforçou que a polícia externa no campo do comércio, na qual o Brasil vem tentando estreitar laços com a Ásia e com o Oriente Médio, é acertada.

    Contudo, na mesma região concentra-se um aliado que, segundo os analistas, está bastante irritado por posturas adotadas por Bolsonaro a pedido dos EUA – Brasília aceitou abandonar o seu status especial na Organização Mundial do Comércio (OMC) para ser patrocinada para integrar a OCDE, sem saber ainda se uma situação levará em direção à outra.

    "Diria que a próxima viagem importante do Bolsonaro ao exterior será provavelmente para a Índia no ano que vem. É uma relação que anda bastante complicada, em particular por causa das decisões brasileiras de mudar posições histórias na OMC, sobretudo essa questão do status do Brasil de país em desenvolvimento que causou enorme problema com a Índia, e é um problema que precisa ser tratado, precisa ser discutido, ver como vai ficar. É uma relação importante, é um dos parceiros comerciais mais significativos do Brasil, é um parceiro nos BRICS, então é uma relação para se olhar com atenção nas próximas semanas", explicou Santoro.

    'Amor não correspondido'

    Um episódio que repercutiu com força entre os críticos da política externa de Bolsonaro foi o encontro que ele teve com Trump em um dos corredores da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Após aguardar por um bom tempo pelo líder dos EUA, ele acabou dizendo que o amava e, em troca, recebeu uma reação fria. Na visão do cientista político ouvido pela Sputnik Brasil, o episódio sintetiza o primeiro ano da relação entre os dois países – e os dois presidentes.

    "O que eu diria que resume a ópera dessa relação entre Brasil e os EUA nesses primeiros meses do governo Bolsonaro, neste primeiro ano, foi o Brasil tentando construir essa relação preferencial com os EUA e recebendo em troca uma resposta bastante fria, bastante indiferente. Até o momento que simboliza muito isso foi aquele momento em que o Bolsonaro vira para o Trump e diz 'I love you' ('eu te amo'), e o Trump basicamente diz para ele 'ah, ok. Tá. Deixa eu seguir aqui'. Quer dizer, é um amor não correspondido. Vamos descrever dessa maneira", opinou.

    Os anseios de Bolsonaro em relação aos EUA não refletem a diplomacia brasileira em nenhum momento da história, nem "quando Getúlio Vargas se encontrou com Franklin Roosevelt, ou quando o Barão do Rio Branco negociou uma aproximação com os americanos". "Tudo sempre foi muito sóbrio, moderado, comedido – nada que se comparece ao que a gente está vivendo atualmente", concluiu Santoro.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Sonny Perdue, alinhamento, impeachment, reeleição, reciprocidade, trigo, açúcar, carne bovina, agronegócio, Tereza Cristina, Ernesto Araújo, Jair Bolsonaro, economia, comércio, tarifas, embargos, relações comerciais, diplomacia, relações bilaterais, BRICS, Oriente Médio, Rússia, Índia, China, EUA, Estados Unidos, Brasil
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