12:48 05 Agosto 2021
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    Especialista fala à Sputnik Brasil sobre a importância do gasoduto Nord Stream 2 para Berlim e Moscou e explica por que o projeto desperta tanta hostilidade dos EUA.

    A ideia do gasoduto Nord Stream 2 (Corrente do Norte 2), que prevê a conexão entre Alemanha e Rússia pelo fundo do mar Báltico, surgiu em 2012 e o duto deveria ter sido concluído em 2019, mas o projeto, que conta com a participação de empresas da Áustria, França e Países Baixos, sofreu uma série de sanções dos EUA.

    Para entender por que o projeto, que visa diversificar as rotas de fornecimento de gás da Rússia para a Europa, aumentando a segurança energética dos países do norte europeu, é tão criticado nos EUA e mesmo na Europa, a Sputnik conversou com Wagner Souza, professor e pós-doutorando em Relações Internacionais na UNESP, sobre a importância do gasoduto para a Alemanha e a Rússia, as razões dos EUA para não quererem que o projeto avance e as implicações que o Nord Stream 2 pode ter para a geopolítica internacional.

    Primeiros tubos para o projeto Nord Stream 2 em uma fábrica da OMK em Vyksa, Rússia.
    © REUTERS / Nord Stream 2
    Primeiros tubos para o projeto Nord Stream 2 em uma fábrica da OMK em Vyksa, Rússia.

    Projeto 'crucial' para Alemanha

    Wagner Souza recorda que, após o acidente na usina nuclear de Fukushima, Japão, a Alemanha decidiu desativar suas usinas nucleares, passando a investir maciçamente em energias renováveis, especialmente eólica e solar. Mas, por serem energias intermitentes e não existirem baterias com capacidade para suprir o abastecimento energético de um país, Berlim precisava de outra alternativa.

    "[As energias renováveis] são energias complementares, não são energia de base. A melhor opção para eles acaba por ser o gás natural […] Em um processo de aproximação da Rússia e já da existência de outros acordos na área de energia, fez-se esse acordo da construção do gasoduto."

    O especialista ressalta que o Nord Stream 2 é muito importante para a economia da Alemanha porque garante um suprimento de energia a longo prazo.

    "A opção do gasoduto mostrou que daria uma segurança maior na estabilidade do suprimento no longo prazo [...] uma escolha que me parece acertada […] Tem uma importância crucial, mas é também uma escolha. Dentro do leque de opções parece, do ponto de vista pragmático do fornecimento enérgico, ser a escolha mais adequada", comenta o analista.

    Mas, evidentemente, a decisão de avançar com o Nord Stream 2 não é uma questão que está reduzida a uma lógica estritamente econômica ou mesmo de necessidade energética, explica Wagner Souza, frisando que há também um componente político: "A Alemanha está buscando alargar a sua margem de manobra política, fazendo prevalecer os seus interesses nacionais".

    Presidente russo Vladimir Putin e a chanceler alemã Angela Merkel durante reunião
    © Sputnik / Sergey Guneev
    Presidente russo Vladimir Putin e a chanceler alemã Angela Merkel durante reunião

    Eixo eurasiano

    O especialista recorda que o ex-chanceler alemão Gerhard Schroder (1998-2005) teve um papel importante na aproximação Berlim-Moscou, principalmente do setor de energia da Rússia, e que, ainda que sem o mesmo vigor, a atual chanceler Angela Merkel deu continuidade a essa parceria. Wagner Souza comenta que um estreitamento maior desses laços pode ter um impacto muito grande, podendo reconfigurar as relações internacionais.

    "Muitos especulam até em um eixo Berlim-Moscou-Pequim. Um eixo eurasiano […] você teria uma nova configuração do poder internacional […] Haja vista que a Rússia se aproximou muito da China nas últimas décadas, constituiu até uma aliança militar, a Organização para Cooperação de Xangai, que se opõe à OTAN."

    Além disso, Berlim e Pequim também possuem uma parceria muito forte, com a China sendo o principal parceiro comercial da Alemanha nos últimos cinco anos. "Essa aproximação entre esses atores aumentou muito nas últimas décadas", destaca.

    E é essa afinidade, principalmente entre Berlim e Moscou, que os EUA não querem ver prosperar.

    Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante o encontro com Joe Biden, presidente dos EUA, na Villa La Grange em Genebra, Suíça, 16 de junho de 2021
    © REUTERS / Denis Balibouse
    Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante o encontro com Joe Biden, presidente dos EUA, na Villa La Grange em Genebra, Suíça, 16 de junho de 2021

    Sanções dos EUA

    Wagner Souza explica que do ponto de vista norte-americano a consolidação de uma interdependência entre Moscou e Berlim é bastante indesejável.

    "Há um esforço norte-americano em bloquear esse projeto, em aplicar essas sanções, que acabaram atrasando esse projeto, que já era pra ter terminado há dois anos e que impactaram empresas que participam dessa construção. É uma questão delicada, que a Alemanha considera como assunto interno."

    Em 20 de junho, os EUA reiteraram que seguirão impondo sanções contra as empresas ligadas à construção do Nord Stream 2. Ainda assim, o especialista acredita que o atual presidente norte-americano, Joe Biden, terá uma abordagem diferente de seu antecessor, Donald Trump.

    "Atualmente o governo Biden, diferentemente do governo Trump, tem buscado uma reaproximação com os europeus […] há essa preocupação da política externa norte-americana em evitar tanto um fortalecimento da Rússia quanto um descolamento da Alemanha de sua área de influência na Europa, que se constituiu após a Segunda Guerra Mundial […] O governo Biden manteve essa linha de não aceitar a conclusão desse projeto, embora tenha feito um movimento recente de tirar sanções de uma determinada empresa envolvida. Então é esperar os próximos movimentos", comenta.

    Wagner Souza afirma que em breve veremos os desdobramentos das reuniões recentes do G7, da reunião Putin-Biden, da reunião da OTAN e quais consequências isso pode trazer para o futuro do Nord Stream 2 e das relações entre as grandes potências.

    O analista destacou também que a continuação do projeto depende do partido que chegar ao poder na Alemanha.

    "É certamente, caso a União Democrata Cristã vença as eleições, deve prosseguir com o intento e finalizar o gasoduto [...] Mas caso o Partido Verde – não, o Partido Verde se coloca em uma posição contrária a esse gasoduto, como também [tem] a postura mais dura em relação tanto à Rússia quanto à China", disse.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Rússia, EUA, sanções, sanções econômicas, Nord Stream 2, Alemanha, China, Europa
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