12:45 24 Junho 2017
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    Embaixada do Qatar na cidade de Manama, no Bahrein, em 5 de junho de 2017

    Entenda como Qatar se encontrou no meio de um bloqueio articulado

    © REUTERS/ Hamad I Mohammed
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    Em 5 de julho, os olhos de toda a comunidade internacional se colaram ao pequenino Estado do Qatar que se viu no epicentro de um escândalo diplomático. A Sputnik explica por que Doha "pregou uma peça" aos seus vizinhos árabes e se a envergadura do "bloqueio" é assim tão grande como parece.

    Embora a região do Oriente Médio seja um palco de brigas internas contínuas, o bloqueio repentino do Qatar deixou muitos países perplexos, tanto mais que este foi declarado, de fato, com base em acusações bastante contraditórias e à revelia de evidências sólidas.

    Como o Qatar se tornou bode expiratório

    Inicialmente, essa espécie de "efeito dominó" foi provocada pelo Bahrein, cujo governo foi o primeiro a anunciar a ruptura das relações diplomáticas com os qatarenses devido às "repetidas tentativas do Qatar para desestabilizar a situação e prejudicar a segurança do Reino do Bahrein, à ingerência em seus assuntos internos, às provocações nos meios de comunicação e ao apoio ao terrorismo".

    O exemplo foi quase imediatamente seguido pela Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos. Já depois, a Mauritânia, as Maldivas e a Maurício também anunciaram a ruptura de laços diplomáticos com o governo qatarense. A Jordânia e o Djibuti, por sua vez, baixaram o nível das suas missões diplomáticas no Qatar, enquanto o Senegal, o Níger e o Chade retiraram seus embaixadores.

    Tal passo, que na diplomacia se considera como uma medida extrema que se toma exclusivamente em casos extremos, quando as negociações entram em um impasse e já não são capazes de trazer nenhuns frutos, teve como pretexto o discurso inédito do emir Tamim bin Hamad al-Thani, no qual ele alegadamente teria chamado o Irã de garante de estabilidade na região, classificado o grupo Hamas como um representante legítimo do povo palestino e opinado que o presidente americano Donald Trump não conseguiria manter seu posto por muito tempo.

    Porém, a coisa mais engraçada é que o suposto discurso do emir foi logo negado pelas autoridades qatarenses e até reconhecido pelos países apoiantes do bloqueio como "fake news". Com efeito, foi oficialmente confirmado que o site da agência de notícias qatarense QNA tinha sido alvo de um ataque informático e que na verdade o emir nunca pronunciou nenhuma destas palavras. Adivinhe quem acabou por ser indicado como o principal suspeito? Claro que os "hackers russos".

    De fato, a culpa de Doha nunca foi confirmada. Tanto mais que um dos principais arquitetos do bloqueio, a Arábia Saudita, também é conhecida como um dos Estados que têm ligações indiscutíveis com diferentes agrupamentos extremistas.

    Deste modo, tendo sido o principal motivo do bloqueio rechaçado, os países se apressaram a manter a mesma linha de pressão e não retiraram suas principais exigências. Para muitos analistas, este jogo político é apenas uma tentativa de transferir a responsabilidade por toda uma série de ações de vários países para o Qatar. E, de fato, parece que é assim mesmo.

    O 'Grande Tabuleiro de Xadrez' do Oriente Médio

    Assim, para a maioria dos especialistas nos assuntos regionais, fica bem evidente que todo o bloqueio organizado em torno do Qatar não era justificado e teria sido alegadamente preparado já há bastante tempo, sendo que os principais atores apenas ficaram à espera de um momento oportuno.

    Há vários fatores que contribuíram para tal estratégia. Primeiro, é importante destacar que a postura do novo emir qatarense, que chegou ao poder em 2013 e se empenhou muito no desenvolvimento dos laços com o Irã, gerou claramente com isso uma grande irritação por parte dos outros países. Para Riad, a perspectiva de uma aliança sólida entre Doha e Teerã é algo que representa uma ameaça iminente para a liderança saudita na região. Consequentemente, foi escolhido o cenário de um "ataque preventivo" o qual, propriamente dito, parece já ter fracassado.

    Além disso, os sauditas têm se esforçado muito por se recomendarem a Washington como os principais garantes da luta contra o terrorismo, o que foi bem visível durante a recente visita de Donald Trump ao Oriente Médio. O Qatar, por sua vez, sendo que este alberga a maior base militar americana na região, Al-Udeid, pode ser considerado como um concorrente forte de Riad neste assunto, por mais estranho que pareça.

    Outro fator "provocatório", que não deixa de gerar descontentamento no mundo árabe, é a difusão ativa do canal Al Jazeera que, por sua vez, desempenhou um papel fulcral em uma série de eventos-chave na região, inclusive nas revoluções da chamada Primavera Árabe. Uma das medidas imediatas, na sequência da ruptura das relações diplomáticas, foi a retirada do ar desta emissora no Egito, na Arábia Saudita, cujo regime foi repetidas vezes criticado pela mídia, e nos EAU. Na esfera midiática até existe o conceito de "efeito Al Jazeera", que frequentemente se compara com a dimensão da influência regional da CNN.

    Apenas uma 'lição' ou o início de uma longa perturbação?

    Portanto, já é evidente que o grupo dos "bloqueadores" carece de evidências nas suas acusações contra o Qatar, estando eles próprios longe de serem "inocentes".

    Já agora, passados apenas 10 dias desde a imposição das sanções, começa a se desenhar uma "coalizão alternativa" em torno de Doha, enquanto os arquitetos do bloqueio já não parecem tão resolutos na sua postura. Tudo isso leva muitos analistas a pensarem que a crise terá tendência para se acentuar gradualmente, já que uma confrontação aberta não parece ser frutífera para ninguém.

    Por exemplo, Doha recebeu um apoio ativo por parte do governo turco, que acabou por enviar suas tropas ao território qatarense, e conseguiu manter laços estreitos e amistosos com Teerã que, por sua vez, se encarregou de enviar alimentos ao país. A Rússia, por seu turno, se mostrou como uma possível mediadora na crise, sediando na semana passada as negociações bilaterais entre os chanceleres dos dois países.

    Quanto ao principal "exportador" da democracia para a região, os EUA, a crise no golfo Pérsico parece não estar fazendo seu jogo. No conceito de Trump, os países árabes devem empreender todo o esforço para se unirem na luta contra o inimigo comum, o que é bem visível, por exemplo, na sua ideia de criar a chamada "OTAN árabe".

    Entretanto, a postura de Washington surpreende muitos por sua eventual incoerência — num dia, o presidente do país admite que o Qatar é um dos patrocinadores do terrorismo, e no outro os governos dos dois países já assinam acordos para a compra maciça de equipamentos militares americanos.

    Em resumo, a atual crise não parece ter um caráter permanente, sendo que cria obstáculos para todos os envolvidos. Deste modo, no cenário mais provável, os países, tanto de um lado como do outro, terão que fazer certas concessões, enquanto o bloqueio (pelos vistos temporário, como já aconteceu em 2014) não representa mais que um elemento passageiro no sistema de pesos e contrapesos no Oriente Médio.

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    Tags:
    relações diplomáticas, ruptura, sanções, bloqueio, Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (GCC), Tamin ben Hamad al Thani, Donald Trump, Turquia, Irã, Bahrein, EUA, Rússia, Arábia Saudita, Qatar
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