18:49 02 Agosto 2021
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    Um dia antes do encontro entre organizações e líderes africanos para discutir cooperação militar em Moçambique diante do contexto violento do país, que vem sofrendo ataques terroristas ao longo de três anos, a Sputnik Brasil conversou com analista para saber o que esperar dessa reunião.

    Criada em 1910, a União Aduaneira da África Austral e Moçambique (UAAA), também conhecida por sua sigla em inglês SACU (Southern Africa Customs Union), é a união aduaneira mais antiga do mundo ainda em vigência, e conta com seis países africanos em sua constituição: Moçambique, África do Sul, Botswana, Lesoto, Essuatíni e Namíbia.

    A união tem como objetivo manter o livre intercâmbio de mercadorias entre os países-membros, e prevê uma pauta externa comum, assim como uma política comum imposta pela união para essa região. Porém, além do foco econômico, o bloco também abrange questões de segurança e militares.

    Moçambique tem sofrido graves ataques terroristas por quase três anos, realizados principalmente por militantes jihadistas do Al-Shabaab (organização terrorista proibida na Rússia e em diversos países), particularmente na região norte do país. O grupo também tem aterrorizado a província de Cabo Delgado ao longo desse tempo. 

    Até agora, os ataques já provocaram pelo menos 2.800 mortes, sendo mais da metade de civis, e originaram quase 700 mil pessoas deslocadas.

    Nessa quarta-feira (23), o SACU vai se reunir para debater cooperação militar com Moçambique. Antes desse encontro, a Sputnik Brasil ouviu o especialista Arcénio Francisco Cuco, doutor em Ciência Política pela UFRGS e professor na Universidade Rovuma em Moçambique, para saber como está o contexto da segurança no país e como o governo tem reagido diante dos ataques terroristas.

    Segurança e religião

    Sobre a segurança no país, Cuco acredita que a situação continua preocupante, pois além da gravidade em si da situação, a mesma está associada ao fato de não se ter muito acesso às notícias sobre o que realmente está acontecendo. O cientista político ressalta que o contexto transbordou para um drama humanitário, a partir do momento que há deslocados que precisam de apoio para se reinstalar em outras regiões por conta da violência.

    Ao ser indagado se a questão religiosa se manifesta com relação aos conflitos, o cientista acha difícil associar as duas coisas, pois defende a ideia de que é preciso questionar mais profundamente para se entender completamente um contexto que envolve vários aspectos, inclusive um fortemente presente no mundo todo, que é o problema da imigração.

    "A questão da religião não é uma questão que pode ser descartada, mas eu penso que nesse momento ela é uma variável com menor grau explicativo, porque Moçambique não tem histórico de conflitos religiosos nesses 45 anos de independência. Seria muito prematuro associarmos a violência em Cabo Delgado à religião", explicou Cuco.

    Reação do governo e deslocados

    Cuco conta que existe largo envolvimento de organizações internacionais, assim como do próprio governo moçambicano, no intuito de mitigar a crítica situação humanitária que se vive na província de Cabo Delgado.

    Segundo o cientista, o governo vem realizando encontros locais de forma cíclica com membros da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC, na sigla em inglês) para discutir se é possível a intervenção da SADC nesse processo, porque embora a situação esteja mais centralizada em Cabo Delgado, não se pode desconsiderar a possibilidade de o contexto afetar outros países.

    O presidente moçambicano Filipe Nyusi, à esquerda, e o Presidente do Zimbabué Emmerson Mnangagwe, à direita, juntam-se aos líderes da SADC durante uma reunião na capital de Moçambique, Maputo, 8 de abril de 2021
    © AP Photo / Ferhat Momade
    O presidente moçambicano Filipe Nyusi, à esquerda, e o Presidente do Zimbabué Emmerson Mnangagwe, à direita, juntam-se aos líderes da SADC durante uma reunião na capital de Moçambique, Maputo, 8 de abril de 2021

    "Eu penso que talvez a posição que o governo moçambicano queira tomar neste momento, no que diz respeito à região, seja a margem acertada, porque é preciso que haja uma união de esforços entre os membros da SADC para que se encontrem soluções para mitigar o problema", disse Cuco

    De acordo com o cientista, a situação dos deslocados é bastante tenebrosa, pois há muitas pessoas carecendo de apoio. O governo tem tentado criar algumas condições para que as mesmas possam ter o mínimo para sobrevivência, incluindo a elaboração de áreas específicas nas quais são oferecidos espaços para os deslocados se assentarem definitivamente.

    Cuco também ressalta o apoio de organizações não governamentais que têm ajudado as pessoas com produtos alimentícios para dar condições aos deslocados de reiniciarem suas vidas.  

    Mulheres deslocadas com seus filhos aguardam assistência em um prédio usado por refugiados como abrigo em Pemba, Moçambique, após fugirem dos ataques em Palma, no norte do país, 19 de abril de 2021
    © AP Photo / Imprensa Associada
    Mulheres deslocadas com seus filhos aguardam assistência em um prédio usado por refugiados como abrigo em Pemba, Moçambique, após fugirem dos ataques em Palma, no norte do país, 19 de abril de 2021

    Apoio militar da UE

    Em maio, a União Europeia (UE) cogitou a possibilidade de enviar uma missão militar a Moçambique para apoiar as tropas do governo. Sobre essa questão, Cuco diz que o país africano não acolheu tal ajuda, e o mesmo acredita que essa posição seja a mais acertada, pois "a experiência que países africanos têm com a intervenção de países do mundo ocidental não são animadoras".

    Cuco diz que o governo não negou o apoio da UE, mas aceitou apoio técnico e treinamento oriundo desses países para que Moçambique possa desenvolver por si próprio a capacidade de lutar contra frentes terroristas na região.

    Vale lembrar que no final de março, Portugal anunciou o envio de 60 militares para ações de formação com as Forças Armadas moçambicanas, em um plano bilateral de cooperação com Moçambique para ajudar a combater os jihadistas na cidade de Palma, de acordo com a emissora portuguesa RTP.

    Mensagem com pedido de ajuda (help) vista no terreno de um hotel em Palma, onde muitos moradores locais e estrangeiros se esconderam durante ataques terroristas em Moçambique, 26 de Março de 2021
    © REUTERS / Dyck Advisory Group / Foto de arquivo
    Mensagem com pedido de ajuda ("help") vista no terreno de um hotel em Palma, onde muitos moradores locais e estrangeiros se esconderam durante ataques terroristas em Moçambique, 26 de Março de 2021

    Saída da Total e economia moçambicana

    No fim de abril, a petrolífera Total suspendeu suas operações em Cabo Delgado evacuando todos os seus funcionários dias depois que grupos jihadistas, ligados ao Daesh (organização proibida na Rússia e em diversos países), invadiram Palma, vizinha da cidade, conforme noticiado no dia 26 de abril.

    Cuco diz que é preciso analisar a retirada da empresa do país africano com muita minúcia, pois esse tipo de multinacionais sempre se instalou em regiões onde há instabilidades. Na visão do especialista, a saída da Total foi uma retirada estratégica para forçar o governo a renegociar sua estada na região.

    "Não acredito que a Total vá deixar seus investimentos naquele lugar a sua sorte, eu penso é que foi uma retirada estratégica, basicamente para pressionar os governantes a renegociarem os contratos que eles têm com o governo", disse Cuco.

    Para cuco ainda é prematuro dizer se a economia moçambicana vai retroceder ou não após a saída da Total, pois em sua visão, a empresa apenas representava um grande potencial nas contribuições para o Estado, mas que do ponto de vista de ganhos fiscais a companhia não teria uma representatividade tão significativa. Contudo, sua retirada pode interferir nas projeções do Estado.

    "A Total representaria maior contribuição mais para o futuro, quando particularmente começasse a fase da maturação, a fase da concretização da empresa em Moçambique. Portanto, não é possível dizer que a retirada da empresa represente a piora da economia moçambicana", explicou Cuco.
    Família moçambicana recebe apoio da Organização das Nações Unidas em campo para pessoas deslocadas internamente em Cabo Delgado, Moçambique, 26 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Rui Mutemba
    Família moçambicana recebe apoio da Organização das Nações Unidas em campo para pessoas deslocadas internamente em Cabo Delgado, Moçambique, 26 de janeiro de 2021

    O norte de Moçambique vive o auge de uma onda de violência que tomou a região nos últimos três anos, quando insurgentes islâmicos passaram a promover assassinatos, decapitações e sequestros de mulheres e crianças em vilarejos na província de Cabo Delgado, rica em rubi e gás natural.

    Até agora, os ataques já provocaram pelo menos 2.800 mortes, sendo mais da metade de civis, e originaram quase 700 mil pessoas deslocadas.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Moçambique, África, jihadista, al-Shabab, terrorismo
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