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    Hoje (21), a Etiópia realiza eleições regionais e parlamentares, enquanto a região de Tigré continua em crise após o conflito armado desencadeado em novembro do ano passado. A Sputnik Brasil ouviu um especialista para entender melhor a situação no país e as causas que levaram ao estado de coisas atual.

    O primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali declarou na semana passada que as votações nacionais e regionais, adiadas várias vezes, seriam "a primeira tentativa de eleições livres e justas" na Etiópia.

    Abiy Ahmed tomou posse há três anos e prometeu realizar eleições mais democráticas e romper com o passado autoritário da Etiópia. No entanto, a oposição afirma que isso não aconteceu e tem medo da repetição da votação do ano 2005, quando houve repressão violenta dos manifestantes.

    A quinta parte dos círculos eleitorais não participará das eleições, incluindo todos os de Tigré, onde os militares da Etiópia têm lutado contra o antigo partido governista da região, a Frente Popular para a Libertação de Tigré (FPLT), desde novembro.

    Homem se prepara para votar durante as eleições parlamentares e regionais em Adis Abeba, Etiópia, 21 de junho de 2021
    © REUTERS / Maheder Haileselassie
    Homem se prepara para votar durante as eleições parlamentares e regionais em Adis Abeba, Etiópia, 21 de junho de 2021

    A Sputnik Brasil conversou com Franco Alencastro, mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, que explicou as causas que levaram à situação política e militar atual na Etiópia e falou do papel dos países vizinhos no conflito, Eritreia e Sudão.

    Causas do conflito em Tigré

    A eclosão do conflito em Tigré no ano passado possui causas que são consequência da estrutura política do país, de acordo com o especialista. Desde 1991 e até 2019 a Etiópia foi governada pela coalizão Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (FDRPE), onde cada partido representava diferentes grupos étnicos. A FPLT tradicionalmente tinha o papel de líder na coalizão.

    Ao chegar ao poder em 2018, o primeiro-ministro Abiy Ahmed alterou a composição do governo, extinguindo a FDRPE. A coalizão política de grupos étnicos foi substituída pelo Partido da Prosperidade (PP).

    No entanto, "a FPLT se recusou a integrar por sentir que isso iria diminuir o poder dela. Então, isso foi a primeira divisão entre o Tigré e o restante do governo da Etiópia", afirmou Alencastro.

    Perguntado se a FPLT foi a única a recusar entrar no partido unificado, o especialista disse que o establishment político antigo da Etiópia também se recusou entrar no PP. Antes podiam escolher o primeiro-ministro, mas após as mudanças se submeteriam ao governo de Abiy Ahmed.

    Papel da Eritreia

    As eleições de 2020 deveriam ocorrer em todo o país, mas foram adiadas por causa da pandemia da COVID-19. No entanto, a Frente de Tigré decidiu seguir com as eleições, cujos resultados foram impugnados pelo governo da Etiópia, considerando-as ilegítimas.

    Em 4 de novembro começou o enfrentamento militar entre as forças da FPLT e as Forças Armadas etíopes, através de ataques no entorno da região de Mekele, que é a cidade mais importante no Tigray. Foi a FLPT que iniciou os ataques, disse Alencastro.

    O especialista considera a participação da Eritreia no conflito a parte "mais interessante", estando "na raiz do conflito". A Eritreia e Etiópia não mantiveram relações durante duas décadas após a guerra entre os dois países de 1998 a 2000, que se deu por causa da definição da fronteira entre eles.

    A Etiópia derrubou em 1991 o regime de Dergue (Dergue significa "comitê" ou "conselho" em etíope), "regime marxista que controlava Etiópia", segundo especialista. Tal como a Etiópia, na Eritreia a Frente de Libertação da Eritreia também combatia o Dergue.

    Em 1991 o país declarou sua independência, usando a luta contra o Dergue para fazê-lo. A decisão não foi bem acolhida na Etiópia e criou antagonismo entre os países.

    "Em 1998 eles começaram o conflito. A ONU buscou uma resolução. A Etiópia não reconheceu o resultado da arbitragem promovida pela ONU e a Eritreia vive em uma situação de antagonismo desde então", explicou especialista.

    Uma das vontades principais do governo de Abiy Ahmed foi a reaproximação da Eritreia. Como o Tigré fica perto da fronteira com a Eritreia, onde aconteceu a maior parte dos enfrentamentos com a as forças do país, tinha antagonismo mais forte que as outras regiões etíopes, de acordo com Alencastro.

    Abiy Ahmed tomando posse como primeiro-ministro da Etiópia.
    © AP Photo / Mulugeta Ayene
    Abiy Ahmed tomando posse como primeiro-ministro da Etiópia.

    As ligações entre os governos da Etiópia e da Eritreia dão "frutos negativos" agora. A Eritreia realizou uma intervenção de suas forças na região de Tigré com vários problemas, como abuso dos direitos humanos, ataques a civis, entre outras coisas.

    Segundo informações recentes, algumas tropas eritreias ainda permanecem na Etiópia. Fala-se hoje da presença de militares da Somália também, que foram recrutadas em sistema de mercenários pela Eritreia para substituir a parte do contingente militar que deixou o país, segundo especialista.

    Perguntado se o conflito na região de Tigré pode se estender, o especialista declarou que existe a possibilidade "preocupante" de extensão do conflito. "Ela já está acontecendo, mas acho que pode se tornar maior ainda."

    Participação do Sudão

    A Etiópia e o Sudão viveram períodos de hostilidades militares entre si nas últimas décadas. Grupos paramilitares de grupos étnicos menores atuaram na década 1990 e 2000.

    "O Sudão auxiliava estes grupos com armas e dinheiro na época do Dergue, foi uma situação parecida. A Etiópia respondeu a isso auxiliando o que eram alguns grupos rebeldes do Sudão do Sul. Então você tinha um apoio cruzado: os grupos militares dos dois lados da fronteira por parte dos governos de vizinhos", explicou o especialista.

    Hoje há um número bem grande de refugiados do Tigré no Sudão. Desde o início do conflito na região, principalmente desde dezembro, as autoridades do Sudão realizam o que o especialista chamou de "limpeza étnica" na área próxima à fronteira, especificamente na região de al-Fashaga.

    Al-Fashaga é uma região que tem sido disputada desde o começo do século passado pelos dois países. Em 2008 eles chegaram a um acordo, segundo qual o território pertence ao Sudão, mas os grupos étnicos, especificamente os amhara que moravam na região, poderiam continuar habitando lá como agricultores.

    Refugiados etíopes se reúnem para comemorar o 46º aniversário da Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT) em Gedaref, no leste do Sudão, em 19 de fevereiro de 2021
    © AFP 2021 / Hussein Ery
    Refugiados etíopes se reúnem para comemorar o 46º aniversário da Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT) em Gedaref, no leste do Sudão, em 19 de fevereiro de 2021

    Os grupos amhara nunca aceitaram a situação, e os grupos militantes queriam de volta o território disputado. No início do conflito, por volta de dezembro, a morte de quatro soldados sudaneses foi um "pretexto" para entrada do Sudão na região de al-Fashaga, no entanto, até agora o responsável por sua morte é desconhecido.

    "Serviu como pretexto para que as forças do Sudão realizassem uma limpeza étnica na região, expulsaram os amhara que existiam por ali e que precisaram retornar à Etiópia", conforme o especialista.

    As autoridades etíopes declararam que há forças externas responsáveis pelo ataque aos militares sudaneses e provavelmente seriam do Tigré. Como a região fica próximo à fronteira do Sudão, alguns refugiados poderiam ter fugido para o Sudão e realizado os ataques, disse Alencastro.

    Tigré se separará?

    Quanto às repercussões para a unidade territorial da Etiópia, o especialista disse que existem muitos grupos "insatisfeitos" na Etiópia, protestando contra a Constituição escrita em 1994, que não aplaca mais as demandas do povo.

    No país já há um tipo de fragmentação, dado que o Tigré não é controlado pelo governo etíope. No entanto, Alencastro não está seguro que a decisão da FPLT seja separar-se da Etiópia. O especialista usou como exemplo uma situação em que o Rio de Janeiro decidisse separar-se do resto do Brasil.

    A região de Tigré é o "coração histórico" do país. Neste território o povo começou a migrar para o sul do país, atingindo essa região para fundar a capital Adis Abeba no final do século XIX e incorporando os povos do sul.

    "Afinal de contas, o Tigré é uma região histórica da Etiópia, ele é o coração histórico da Etiópia. É onde a civilização etíope começou", disse o especialista.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Etiópia, Eritreia, Sudão, conflito, guerra, eleições, governo
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