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    Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil acham que bloco precisa criar mais mecanismos para vencer desafios maiores do que quando surgiu há 14 anos.

    No dia 30 de julho de 2001, o economista-chefe do Banco Goldman Sachs, o inglês Jim O'Neill, publicou um estudo chamado, na tradução para o português, "Construindo uma Economia Global Melhor BRICs". Natural de Manchester, berço da Revolução Industrial, talvez ele não soubesse que seu trabalho fosse a "mãe" de um dos mais significativos blocos envolvendo países de diferentes continentes.

    O nascimento aconteceu cinco anos depois ainda que sem o "s" final, apesar do título do relatório do economista. No começo, em junho de 2006, Brasil, Rússia, Índia e China eram apontados por ele como nações a serem observadas pelos seus rápidos crescimentos, portanto com grande capacidade de investimento e que se transformariam em potências econômicas até 2050. 

    Em 14 de abril de 2011, a consoante final na sigla fez mais sentido com a entrada da maior economia do continente africano, a África do Sul.

    Agora, 14 anos depois de sua criação, o BRICS termina mais uma reunião de cúpula não só com novos desafios e compromissos, mas também diante de uma realidade bem diferente da que chamou a atenção de O'Neill. Uma circunstância marcada por novos rumos econômicos e também com a maior pandemia do planeta em 100 anos. 

    Há 14 anos

    O peso econômico do bloco era considerável. Entre 2003 e 2007, o crescimento dos quatro países representou 65% da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Em paridade de poder de compra, o PIB do ainda BRIC já superava o dos EUA ou o da União Europeia. Para dar uma ideia do ritmo de crescimento desses países, em 2003 ele respondia por 9% do PIB mundial, e, em 2009, esse valor aumentou para 14%.

    Em 2010, o PIB conjunto dos cinco países (considerando a ainda candidata África do Sul), totalizou US$ 11 trilhões - ou 18% da economia mundial -, o equivalente hoje a R$ 58 trilhões. Considerando o PIB pela paridade de poder de compra, esse índice era ainda maior: US$ 19 trilhões, ou 25% (R$ 101 trilhões).

    Seu gigantismo também se media de outra forma. Seus países representavam mais de 40% da população mundial e mais da metade do número de pessoas sofrendo com a fome e a miséria. Por outro lado, essas nações apresentavam sucessivos aumentos no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no PIB e na renda per capita. Nos últimos anos da primeira década do século XXI, foram responsáveis por cerca de 55% do crescimento econômico mundial contra 20% dos países mais desenvolvidos.

    Mas a partir de 2010, começou uma desaceleração do crescimento do bloco, especialmente com destaque para os baixos índices brasileiros e chineses. A isso somou-se a redução do preço do petróleo, que atingiu particularmente a Rússia, e o surgimento de outros mercados para investidores como Coreia do Sul e México.

    Ainda assim, o BRICS já com os sul-africanos chegou a 2020 com um PIB de 25% do total mundial e com 20% de participação no comércio internacional do planeta. As exportações entre os membros do bloco subiram 45%. E o PIB dos cinco países também cresceu a uma taxa média anual de 5,31%, mais rápido que o PIB global e o do G7, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

    Mas a força dessas economias, representada nestes dados, não esconde seus problemas. Dos cinco membros, apenas um terá crescimento econômico este ano, a China (2%). Enquanto os PIBs de África do Sul e da Índia devem sofrer quedas de 8% a 9%, os da Rússia e do Brasil devem encolher a ritmo menos acelerado: 4% e 5%, respectivamente.

    COVID-19

    E talvez o principal problema, ou o maior agravador de problemas, seja a COVID-19. A pandemia atingiu especialmente os países do bloco. Das dez nações mais afetadas, três são do BRICS e ocupam três das quatro primeiras posições em número de casos confirmados: Índia, Brasil e Rússia, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Não é à toa que algumas das principais resoluções da XII Cúpula, nesta terça-feira (17), sob presidência da Rússia, orbitavam ao redor da COVID-19. O presidente russo Vladimir Putin, por exemplo, disse que China e Índia deverão produzir a Sputnik V e que seu país está pronto para ajudar.

    "O Fundo Russo de Investimentos Diretos [RFPI, na sigla em russo] fechou acordos com parceiros brasileiros e indianos sobre a realização de testes clínicos da vacina Sputnik V e ainda com empresas farmacêuticas na China e Índia sobre a abertura no território destes países de centros de produção de nossa vacina, não só para as necessidades próprias, mas também de terceiros países", informou o líder russo.

    O presidente chinês Xi Jinping quer colaborar com Brasil e Rússia contra o coronavírus e deseja estabelecer cooperação com a Índia, driblando as rivalidades históricas dos dois países mais populosos do mundo.

    "As empresas chinesas estão trabalhando com parceiros da Rússia e do Brasil na terceira fase de testes clínicos de vacinas", declarou o líder chinês que enfatizou a disponibilidade rumo à cooperação. "Estamos prontos para estabelecer cooperação com a África do Sul e a Índia. Consideraremos ativamente a possibilidade de fornecer uma vacina dentro do BRICS, se necessário", concluiu.

    O presidente Jair Bolsonaro também comentou sobre a COVID-19 na videoconferência. Ele elogiou a ação da Rússia por não ter deixado o ritmo da cooperação diminuir diante da pandemia.  

    "O trabalho desenvolvido pelo BRICS é motor para a renda e segurança de nossos povos", disse Bolsonaro.

    O brasileiro acrescentou que está seguro de que há espaço para interação comercial e aproximação dos setores privados dos países e lembrou que o "Brasil também busca vacina própria". E que, segundo ele, foi a "coordenação entre os nossos países" e não "os organismos internacionais que combateram o vírus", em uma referência às críticas que fez à Organização Mundial de Saúde (OMS).

    Bolsonaro também citou o "combate às emissões de carbono" e recebeu o apoio de Putin para quem a Amazônia e as florestas russas são os pulmões do mundo e que, por isso, os dois países devem ter papel central no combate às mudanças climáticas.

    Além da pandemia, há também outros desafios a serem vencidos diante das peculiaridades de cada país rumo a um agrupamento mais efetivo.

    "70% do PIB do BRICS vem da China e isso dá aos chineses uma posição que os demais não têm. Há problemas políticos internacionais históricos, como a rivalidade entre China e Índia na fronteira, inclusive com atritos físicos recentemente. Além disso, a Índia se aproximou dos Estados Unidos de Donald Trump por questões ideológicas e é um país reticente com o Ocidente por ter sido colônia, além de ser um país com políticas protecionistas", explicou o jornalista e professor Nelson Franco Jobim, mestre em Relações Internacionais pela London School of Economics (LSE) e entrevistado pela Sputnik Brasil.

    A economista Sandra Rios, Mestre pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e diretora do Centro de Estudos e Integração e Desenvolvimento (Cindes), acredita que o BRICS precisa avançar mais na cooperação internacional.

    "São reações setorizadas, há criações de barreiras, são políticas econômicas com atitudes autônomas. E essa questão, enorme, já vinha prejudicada pelas guerras comerciais de Trump e a pandemia da COVID-19 acirrou o problema ainda mais", disse a professora para a Sputnik Brasil. 

    As decisões anunciadas na terça-feira (17) chegam em boa hora. Mas não são as únicas barreiras, pelo menos teóricas, rumo a um fortalecimento do BRICS. As políticas externas de cada país também.

    "A questão ideológica do governo não ajuda. Não há norte na política econômica externa, não há aposta em mercados relevantes", observou Sandra.

    Para Jobim, a política externa de Bolsonaro deveria olhar mais para os blocos.

    "O Brasil não valoriza parcerias de bloco e o Mercosul é um exemplo. O Mercosul é um grupo regional, não dá pra comparar com a natureza do BRICS", disse, confirmando o discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, antes da posse, dizendo que o Mercosul não era prioridade para o novo governo.

    Ainda neste tema envolvendo nossa política internacional, ele lembra da questão do relacionamento de atritos com a China que foi alvo do presidente desde antes sua posse, mesmo sendo o país asiático nosso principal parceiro econômico.

    "É importante lembrar que a China é uma nação pragmática, ela não esquece as coisas. A questão da tecnologia 5G é marcante e vai nortear o futuro das relações entre os dois países. Além do que, o Brasil vai pagar mais caro se optar por 5G de outros países", contou Jobim se referindo à decisão que o Brasil vai tomar sobre qual infraestrutura usar, se a chinesa ou outra.

    Sandra Rios acha que o BRICS, embora não seja um bloco econômico, precisa criar mecanismos de cooperação nessa área, além da criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD).

    "O Brasil se beneficiou porque a China teve rápida recuperação da pandemia e puxou as importações, mas isso não teve a ver com mecanismos de cooperação via BRICS. O ideal seria ter acertos contra barreiras, mas não há mecanismos para isso", defendeu.

    Novo Banco de Desenvolvimento

    O NBD, presidido desde maio deste ano pelo brasileiro Marcos Troyjo, foi criado em Xangai na China em 2004 com capital inicial de cerca de US$ 50 bilhões (R$ 267 bilhões hoje) e capital autorizado de US$ 100 bilhões (R$ 534 bilhões). O banco queria ser uma alternativa a instituições como o Banco Mundial ou o FMI, financiando projetos a condições mais vantajosas para países em desenvolvimento. Ele seria um instrumento do BRICS para ter mais voz em organismos internacionais. E, na prática, vem agindo contra a pandemia. 

    "No começo de outubro, foram aprovados 64 projetos avaliados em mais de US$ 20 bilhões [R$ 110,857 bilhões]. Quatro bilhões de dólares [R$ 21 bilhões] já foram alocados a programas para combater a pandemia e minimizar as suas consequências, tendo sido reservados para estes fins dez bilhões de dólares [R$ 55 bilhões]", detalhou Sergei Ryabkov, vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia durante entrevista coletiva em outubro.

    A atitude brasileira diante do NBD está relacionada não só à crise econômica no país, segundo a economista Sandra Rios.

    "Sobre o Novo Banco de Desenvolvimento, o Brasil é muito reticente, é muito cético sobre aporte de recursos até porque já tem o BNDES que absorve estes recursos. Além disso, temos um problema de contas públicas. O Brasil demorou para desenvolver propostas", classificou ela.

    Os objetivos do BRICS sempre foram ambiciosos considerando os tamanhos de suas economias. Implementar os projetos comuns é um deles.

    "O BRICS é muito heterogêneo, há rivalidades históricas, há distanciamentos naturais. Projetos na área comercial, tendo como referência a China enquanto maior força econômica, são complicados. Especialmente agora com o anúncio da conclusão do maior acordo comercial da história para reduzir barreiras entre países com um terço da população e da produção mundiais, inclusive a China, além do Japão e a Coreia do Sul", comentou Jobim. "Até 2030, a Parceria Econômica Regional Ampla (RCEP) deve agregar US$ 200 bilhões, quase R$ 1,15 trilhão, por ano à economia mundial".

    Sandra vê a criação do NBD como algo positivo.

    "Ele foi um elo do grupo, uma marca efetiva. O que unia os países naquele momento de criação em 2006 era o rápido desenvolvimento deles querendo voz em outros foros como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC)", disse.

    Resoluções

    Os elos do BRICS vão além da luta contra a pandemia. Os cinco países-membros anunciaram nesta terça-feira (17), ao fim da reunião de cúpula, outros compromissos comuns. Um deles, uma inédita Estratégia de Contraterrorismo.

    "Ele reflete aspectos fundamentais para os países do BRICS, como respeito à soberania e não ingerência em assuntos internos, adesão ao direito internacional e reconhecimento do papel central e coordenador da ONU em questões de segurança", disse Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança da Rússia.

    Um compromisso importante, e que serve como estímulo e desafio, ficou para o encerramento. Os países-membros do BRICS anunciaram por meio de resolução conjunta seu posicionamento em relação ao controle de armas nucleares, ao terrorismo e a outros temas de importância global.

    "Nós declaramos nosso apoio aos esforços político-diplomáticos urgentes para manutenção e fortalecimento da paz e segurança internacionais. Nós lamentamos a falha no funcionamento dos mecanismos de estabilidade estratégica e dos regimes de controle de armamentos e nos comprometemos a os apoiar", publicou o site da Presidência da Rússia do BRICS.

    Outro capítulo importante da resolução foi o repúdio ao terrorismo.

    "Nós reiteramos nossa forte condenação do terrorismo em todas suas formas e manifestações cometidas em qualquer tempo, lugar ou por quem quer que seja, e que isso não deve ser associado com qualquer religião, nacionalidade, civilização ou grupo étnico".

    Na resolução final, publicada no site da Presidência da Rússia do BRICS, houve menções à crise na Síria ("Nós reafirmamos forte comprometimento com a soberania, independência, unidade e integridade territorial da República Árabe da Síria"), à manutenção dos símbolos da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial ("Nós reconhecemos a vitória na Segunda Guerra Mundial como nosso legado comum [...] e ressaltamos a importância da preservação e inadmissibilidade da profanação ou destruição de monumentos erguidos em sua memória") e à preocupação com aumento dos crimes cibernéticos com o BRICS reconhecendo "o problema das novas possibilidades para atividades criminosas e ameaças ligadas a ela".

    Ao que parece, Jim O'Neill estava certo. Tenta-se não só construir uma economia global melhor, mas um mundo melhor.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Cyril Ramaphosa, Narendra Modi, Jair Bolsonaro, Xi Jinping, Vladimir Putin, COVID-19, IDH, OMC, FMI, África do Sul, Brasil, Rússia, China, Índia, PIB, BRICS
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