18:55 27 Outubro 2020
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    Coronavírus no mundo no fim de setembro (49)
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    O apresentador de TV uruguaio Sebastián Beltrame conta que sua viagem desmistificou muitos dos estereótipos e da falsa informação que recebia no seu país sobre a Rússia.

    Sebastián Beltrame, conhecido apresentador na televisão uruguaia, se tornou em meados de setembro o primeiro estrangeiro a entrar no laboratório onde a vacina russa Sputnik V é produzida, a primeira no mundo a ser registrada para combater a COVID-19.

    Incentivados pelas facilidades oferecidas pelo passaporte do Uruguai, o único país latino-americano autorizado a entrar na área Schengen no momento, Beltrame e seu parceiro relataram à Sputnik Mundo que começaram a planejar sua viagem com a capital espanhola como base. Foi aí que veio a inspiração.

    "A última vez que estive na Rússia, tinha feito isso através da Espanha e foi um voo curto, quatro horas. Então eu disse: 'Por que não fazer o mesmo?'"

    A odisseia

    O apresentador uruguaio havia esquecido a dificuldade de conseguir voos entre Madri e Moscou no auge da pandemia. Beltrame se lembrou então da viagem à Antártica que havia feito no início de 2020, quando foram comemorados 200 anos da descoberta do continente branco pelo explorador russo Faddei Bellingshausen.

    No âmbito da amizade histórica entre as delegações uruguaia e russa na Antártica, Beltrame também tomou conhecimento do trabalho do Instituto Bering-Bellingshausen para as Américas (IBBA), com sede em Montevidéu, e de seu presidente Sergei Brilev, que soube do interesse do uruguaio em viajar a Moscou para conhecer o processo de fabricação da vacina Sputnik V.

    Beltrame também entrou em contato com o Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI, na sigla em russo), o fundo soberano da Rússia que financiou o desenvolvimento da primeira vacina contra o coronavírus do mundo, desenvolvida pelo Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya.

    Sebastián Beltrame, em frente à Igreja Ortodoxa de São João Batista em Yaroslavl, Rússia, mostra nota de 1.000 rublos
    © Foto / Gentileza Sebastián Beltrame
    Sebastián Beltrame, em frente à Igreja Ortodoxa de São João Batista em Yaroslavl, Rússia, mostra nota de 1.000 rublos

    Um dos acordos mais importantes assinados recentemente pelo RFPI foi com a empresa farmacêutica russa R-Pharm para fabricar a vacina no laboratório da empresa na cidade de Yaroslavl, a pouco mais de 250 quilômetros de Moscou. O RFPI acabou aprovando a visita de Beltrame às instalações.

    Dificuldades de chegar à Rússia

    "Começou uma busca frenética entre a Rússia e Montevidéu para conseguir essa conexão, o que era praticamente impossível porque não havia voos", revela Beltrame. A incerteza cessou quando o uruguaio conseguiu um voo para Moscou através de Istambul em 14 de setembro.

    No entanto, os obstáculos da aventura não terminaram. Os procedimentos de imigração se tornaram mais complicados do que o normal, já que a pandemia mudou os requisitos para todos os estrangeiros que chegam à Rússia, inclusive os uruguaios, que normalmente não são obrigados a ter visto. Após várias horas de espera, Beltrame e seu companheiro obtiveram a autorização, assinada pelo próprio vice-primeiro-ministro russo Aleksei Overchuk.

    Idiossincrasia russa: trabalho e resultados

    Após ser recebido pelo RFPI, Beltrame foi de trem para a cidade de Yaroslavl para visitar, em 16 de setembro, o laboratório onde a vacina é fabricada, encontrando um quadro bastante diferente do que esperava.

    "Pensei que encontraria praticamente segurança militar, mas o que encontrei foi uma barreira que se abriu e era um lugar normal, sem grandes problemas de segurança, e onde os cientistas trabalham como se fosse mais um dia em suas vidas", descreveu.

    Depois de percorrer as instalações e conversar com autoridades e pesquisadores, Beltrame saiu com a sensação de que esses cientistas talvez "não percebessem a importância do que estão fazendo agora".

    "O desenvolvimento de uma vacina significa que a humanidade tem um avanço impressionante e salva vidas, e para eles é um dia normal de trabalho", adicionou.

    Sebastián Beltrame dentro do laboratório onde a vacina Sputnik V é produzida
    © Foto / Gentileza Sebastián Beltrame
    Sebastián Beltrame dentro do laboratório onde a vacina Sputnik V é produzida

    A atitude dos cientistas deu a Beltrame uma impressão do que ele considera um dos pontos fulcrais da idiossincrasia do povo russo.

    "Eles não se importam com a imagem, eles se importam com o resultado."

    Nesse sentido, o apresentador uruguaio disse que, devido ao tamanho do país em que vivem, os russos "pecam por não ter a necessidade de mostrar externamente o que fazem".

    ​Eu tenho o futuro na palma da minha mão

    "Eles alcançam resultados muito bons, mas sem muita comercialização. Essa foi a impressão que tive do povo russo", resumiu.

    Bombardeio de desinformação contra Rússia

    Sebastián Beltrame também ficou surpreso ao saber que a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford britânica e pela empresa farmacêutica AstraZeneca do Reino Unido e da Suécia também está sendo fabricada no mesmo laboratório. Para Beltrame, que desconhecia a notícia, a revelação demoliu as acusações contra a Rússia de supostamente "roubar a fórmula" da vacina britânica, que ele havia visto em algumas mídias.

    Após esclarecer suas dúvidas com as autoridades do laboratório, Beltrame confirmou que muitas vezes a América Latina não recebe informações precisas sobre a Rússia e seus avanços, ou quando o faz, o faz de forma distorcida.

    "As informações que temos aqui [na América Latina] não são corretas. Somos bombardeados por informações muitas vezes falsas e contraditórias", lamentou.

    Essa informação distorcida pode levar os países latino-americanos a desconfiar, por exemplo, da vacina Sputnik V. É por isso que, disse ele, muitos países ocidentais, que desconheciam o trabalho anterior do Centro Gamaleya, ficaram surpresos ao saber do lançamento da vacina russa e pensaram que ela tinha surgido "do nada".

    "Se tivéssemos informações reais, poderíamos tomar decisões que fariam muito mais sentido e não ficariam atoladas em uma causa que não sabemos de onde ela veio. Essa era nossa intenção, ir lá e trazer de volta essa informação", acrescentou.

    Depois de retornar ao Uruguai e passar uma quarentena preventiva, Beltrame iniciou contatos com empresas locais para explorar a possibilidade de fazer acordos com o laboratório russo para transferir tecnologia para uma eventual produção uruguaia da Sputnik V.

    "Sendo o único estrangeiro a conseguir entrar na fábrica, seria egoísta da minha parte manter esta informação", explicou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Coronavírus no mundo no fim de setembro (49)

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    Tags:
    América do Sul, América Latina, Suécia, Reino Unido, Universidade de Oxford, Yaroslavl, Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI), Moscou, Espanha, Madri, Espaço Schengen, Zona Schengen, Rússia, Uruguai, COVID-19, Sputnik V
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