07:33 24 Outubro 2020
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    Segundo membros do partido MAS e Sergio Pascual, especialista em América Latina, o governo de Jeanine Áñez estaria cortando as bases de sustento das classes sociais mais vulneráveis.

    O governo interino da Bolívia está produzindo mais pobreza e privatizando empresas públicas, porque seu objetivo é favorecer o grande capital, disseram à Sputnik os líderes do Movimento ao Socialismo (MAS), agora oposição, e um especialista.

    "O governo de Evo Morales [2006-2019] conseguiu levar o país aos maiores sucessos em matéria econômica e social [...] No entanto, agora há um aumento iminente da pobreza, porque o governo de [Jeanine] Áñez está começando a suspender os subsídios destinados aos setores mais vulneráveis. Além disso, há uma privatização", declarou o ex-ministro das Relações Exteriores boliviano Diego Pary à Sputnik.

    A Bolívia mergulhou em uma crise política nos últimos meses do ano passado, quando Morales renunciou à presidência em 10 de novembro, pressionado pela liderança das Forças Armadas e pela polícia, e após várias semanas de protestos da oposição contra uma suposta fraude eleitoral nas eleições de 20 de outubro.

    Por sua vez, a deputada do MAS, Sonia Brito, disse à Sputnik que o novo governo representa "um passo atrás muito preocupante, pois está destruindo a estabilidade econômica e paralisando a distribuição da riqueza através dos subsídios sociais".

    Efeito econômico do novo governo

    Também o antropólogo espanhol Sergio Pascual, do Centro Estratégico de Geopolítica da América Latina (CELAG, na sigla em espanhol), afirmou à Sputnik que a economia boliviana estaria à beira do "caos".

    "O governo desmantelou contratos de lítio [...] se começar a haver incerteza jurídica para as empresas que têm trabalhado no país e, por outro lado, o setor externo se desequilibrar devido a essa falta de controle do mercado interno, poderemos descobrir que um país que não se lembra da inflação há muito tempo deve se lembrar novamente", advertiu.

    Pary disse que desde o "golpe de Estado" os bolivianos estão sentindo o impacto da "crise", as microempresas estão fechando, os pequenos comerciantes não conseguem vender seus produtos, e a economia do país está "paralisada".

    "O atual governo não teve nenhuma previsão diante [da volatilidade do] preço do petróleo ou do dólar [...] [A] verdade é que as prioridades do governo mudaram; durante a administração Morales o objetivo sempre foi os setores mais necessitados, agora é apenas o fortalecimento do setor empresarial", acrescentou.

    Presidenta autoproclamada da Bolívia, Jeanine Áñez, sorri durante cerimônia de posse de seu gabinete de ministros, em 13 de novembro de 2019, após golpe de Estado na Bolívia
    © AP Photo / Juan Karita
    Presidenta autoproclamada da Bolívia, Jeanine Áñez, sorri durante cerimônia de posse de seu gabinete de ministros, em 13 de novembro de 2019, após golpe de Estado na Bolívia

    Quanto às alegações de privatização, os trabalhadores da companhia estatal Boliviana de Aviação (BoA) denunciaram que o governo reduziu suas operações, cedendo terras à empresa de aviação privada Amaszonas, da qual, segundo o jornal Los Tiempos, vêm vários dos novos executivos da empresa estatal.

    A BoA também tem sido alvo de uma série de reclamações sobre alegadas irregularidades e dificuldades financeiras.

    O governo Morales havia projetado um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 4,0 e 4,5% para 2019, mas a crise eleitoral e a semiparalisia do país devido aos protestos levaram a que a expansão tenha sido de 3%.

    Para este ano, as autoridades atuais estimam que o PIB cresça 3,5%.

    Feitos de Morales

    Brito considerou que a maior conquista do governo Morales foi a inclusão de setores indígenas, camponeses e mulheres.

    "Essa é uma das contribuições mais importantes, onde as grandes maiorias passaram a fazer parte do governo; além disso, propusemos um modelo econômico que, ao contrário do neoliberalismo, estabelece uma economia plural e comunitária, na qual a riqueza tem sido gradualmente redistribuída", salientou.

    Sonia Brito também destacou que Morales conseguiu evitar que o dólar subisse em 13 anos, o que fortaleceu a moeda nacional e permitiu que a população expandisse seus negócios.

    Pascual e Pary disseram que "o feito mais espetacular" da administração Morales foi a redução da pobreza.

    "Alcançamos um crescimento econômico de 5% nos últimos seis anos de governo, e aumentamos o PIB de US$ 9,5 bilhões em 2005 para US$ 40,8 bilhões em 2018; isso se traduziu em benefícios para a sociedade, com a concessão de subsídios sociais em favor dos setores mais vulneráveis, crianças, mulheres grávidas e idosos", destacou Pary.

    Ele observou que cerca de 3 milhões de bolivianos se juntaram à classe média, e que a pobreza foi reduzida em 26 pontos percentuais.

    A pobreza caiu de 60,6% da população em 2006 para 34,6% em 2018, ao mesmo tempo que o analfabetismo caiu de 13% para 2,4%, e o salário mínimo aumentou em 301%, conquistas que foram destacadas pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

    O povo vê as mudanças?

    Pascual advertiu, no entanto, que os cidadãos não estão "tão conscientes" das mudanças.

    "O povo quer que a democracia volte, e isso beneficia Áñez. Além disso, as medidas que ela vem tomando ainda não tiveram um impacto econômico claro", acrescentou.

    Sergio Pascual considerou que a acusação de fraude feita pelos Estados Unidos e pela Organização dos Estados Americanos (OEA) "teve sucesso", apesar de diferentes instituições, tais como a de CELAG, ou de dois pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), EUA, terem observado que não havia evidências de tal.

    "Muitas pessoas foram obrigadas a duvidar se havia fraude ou não, porque havia muitas pessoas dispostas a votar em Evo, mas que ele não gostaria de aparecer depois de perder o referendo [constitucional de 2016]", refletiu.

    O estudo estatístico de John Curiel e Jack Williams, publicado no blog The Monkey Cage do jornal The Washington Post, foi reivindicado por Morales e seus apoiadores como uma suposta demonstração de que não teria havido fraude nas eleições de outubro passado.

    Entretanto, o MIT esclareceu que, embora Curiel e Williams sejam pesquisadores naquela universidade, esse relatório foi feito para o Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), um think tank de esquerda.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Evo Morales, EUA, Bolívia
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