23:15 03 Abril 2020
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    A Turquia anunciou na noite de segunda-feira, 8, a convocação de seu embaixador no Brasil para consultas em Ancara. A medida se deu em represália à aprovação pelo Senado brasileiro de uma resolução reconhecendo como genocídio a ação do Império Otomano contra armênios em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

    O ministério das Relações Exteriores turco tachou a decisão do Senado de "irresponsável" e declarou em nota que a mesma "distorce os fatos históricos sobre os eventos de 1915".

    Pelo mesmo motivo, nas duas últimas semanas a Turquia também chamou para consultas os seus embaixadores na Áustria, no Vaticano e em Luxemburgo, e criticou vários países por referências ao "genocídio armênio", incluindo a Rússia, a França e a Itália. A Turquia rejeita o termo "genocídio" e nega categoricamente os massacres de centenas de milhares de armênios pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial.

    Para entender melhor a repercussão dessa postura da Turquia na arena internacional e as consequência da convocação do embaixador turco no Brasil, a agência Sputnik entrevistou duas personalidades estreitamente ligadas a esse assunto.

    A primeira delas é o famoso jornalista turco de origem armênia Etien Mahcupyan, que até abril de 2015 ocupou o cargo de principal assessor estatal do primeiro-ministro da Turquia, Ahmet Davutoglu. Na sua opinião, o "genocídio de armênios" não é um problema prioritário para a Turquia.

    "A Turquia trata esse problema dentro da lógica do Estado-Nação, e se sente no dever de responder a tudo o que diz respeito a esta questão. Enquanto o Estado turco tiver o apoio do seu povo nesse sentido, o mesmo continuará reagindo de maneira brusca a tudo aquilo que o forçar a reconhecer o "genocídio de armênios". As discussões em torno desse problema começaram na Turquia há relativamente pouco tempo. E isso não está ligado apenas à questão armênia, mas ao entendimento geral de que desde o início do século 20 a história da Turquia vem sendo apresentada a nós de maneira distorcida. A Turquia já não quer mais ouvir a sua história de estrangeiros" – explicou Mahcupyan.

    O segundo entrevistado da Sputnik é o ex-embaixador turco e coordenador da Direção de Programas Internacionais do Instituto de Política Exterior da Turquia Oktay Aksoy, que em 2008 foi um dos embaixadores de seu país a assinar uma petição contrária a ação de desculpas aos armênios.

    "Espero que as relações turco-brasileiras não estejam em um nível em que a aprovação desse tipo de resolução pudesse deteriorá-las. Senados e parlamentos de diversos países têm o direito de aprovar decisões como esta. Os parlamentares podem ter seus pontos de vista sobre os mais diversos assuntos. A Turquia, no entanto, também possui o seu próprio ponto de vista, que consiste no fato de os tristes eventos ocorridos no Império Otomano durante a Segunda Guerra Mundial precisarem ser estudados a fundo. E isso não deve ser feito por parlamentos ou senadores, que dificilmente possuem conhecimentos históricos profudos, mas por historiadores" – destacou Aksoy.

    "Sem dúvida, a Turquia não gostaria que o Brasil, com quem ela acabou de começar a desenvolver relações, aprovasse tais resoluções. A Turquia não podia deixar de reagir a esta decisão. Espero que a convocação do nosso embaixador para Ancara sirva de sinal para aqueles que trabalharam na aprovação da resolução sobre o genocídio armênio no Brasil. Seria indesejável que isso prejudicasse as relações turco-brasileiras. Afinal, a resolução do Senado brasileiro, assim como de qualquer parlamento, não pode ser obrigatória para a Turquia, e nem tampouco denegrir a sua imagem" – concluiu o ex-embaixador.

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    Tags:
    genocídio, Genocídio Armênio, Senado Federal, Oktay Aksoy, Etien Mahcupyan, Armênia, Turquia, Brasil
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