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    Brasil enfrentando COVID-19 no início de maio de 2021 (52)
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    A primeira escola da China em um país estrangeiro, a Escola Chinesa Internacional (ECI), foi inaugurada no Rio de Janeiro. Nesta reportagem especial, a Sputnik Brasil investigou de que forma o governo da China usa a educação como ferramenta de Soft Power, visando expandir sua influência na América Latina.

    Embora o soft power (também chamado de poder brando) seja apresentado sob diferentes aspectos, há categorias de poder que são amplamente conhecidas: econômica, militar e cultural. Não se nega que todas três são importantes, cada qual com suas atribuições e objetivos. Porém, é justamente a questão cultural que tende a ser negligenciada, sobretudo quanto ao seu alcance e influência.

    Não é de hoje que os chineses entendem seu papel hegemônico no mundo. Desde que a China foi alçada à condição de potência global, Pequim entende o poder brando como uma ferramenta que pode ajudar a mitigar, a longo prazo, a teoria da "ameaça da China", bastante difundida na América Latina e na União Europeia. O país quer convencer a comunidade internacional da natureza pacífica da sua ascensão, e as oportunidades que representa para seus parceiros comerciais.

    É neste contexto que chegou ao Brasil, no início de 2021, a Escola Chinesa Internacional (ECI). Criada com o apoio financeiro de empresários chineses e do Consulado Geral da China no Rio de Janeiro, o objetivo desta instituição, descrito no site da ECI, "é proporcionar um ensino de referência internacional no Brasil, seguindo o modelo da educação básica da China, a fim de revelar talentos excepcionais". A instituição enfatiza, ainda, que esta é a primeira escola chinesa em um país estrangeiro, dando a entender que onde nasce uma, em seguida aparece outra.

    Crianças em idade escolar usando máscaras fazem fila para cruzar um entroncamento de tráfego movimentado em Pequim na quinta-feira, 29 de abril de 2021
    © AP Photo / Ng Han Guan
    Crianças em idade escolar usando máscaras fazem fila para cruzar um entroncamento de tráfego movimentado em Pequim na quinta-feira, 29 de abril de 2021

    Nesta reportagem especial, a Sputnik Brasil investigou o que representa a chegada dos chineses à educação infantil no Brasil, e de que forma o ensino escolar pode influenciar positivamente a imagem da China em um país cujo presidente insiste em uma retórica xenófoba, partilhada, inclusive, por parte de seu eleitorado e alguns ministros.

    Conversamos com o professor Marcos Cordeiro Pires, da Unesp, especialista em relações internacionais, para entender os efeitos do poder brando de Pequim. Além dele, a diretora da ECI, Yuan Aiping, e o professor de história da instituição, Lucas Melo, falaram sobre o trabalho que é desenvolvido pelo colégio.

    O ensino chinês

    Em junho de 2019, a maioria dos jornais brasileiros noticiou: "China é destaque na avaliação PISA; Brasil entre os piores na educação". A manchete foi o retrato de um paradigma social antigo e conhecido pelos brasileiros: o déficit do sistema educacional no país. As universidades de Tsinghua e Pequim figuram entre as 20 melhores do mundo, segundo levantamento da Times Higher Education World University Rankings. A publicação não cita uma que seja do Brasil.

    Foto em grupo antes da cerimônia de abertura oficial do programa acadêmico na Universidade Tsinghua, em Pequim, em 2016.
    © AP Photo / Mark Schiefelbein
    Nesta foto de 10 de setembro de 2016, os membros do Schwarzman Scholars fazem fila para uma foto em grupo antes da cerimônia de abertura oficial do programa acadêmico na Universidade Tsinghua em Pequim. Um programa de estudos em uma universidade chinesa de elite inspirado na prestigiosa Bolsa de Estudos Rhodes lançou seu segundo ano na sexta-feira, 8 de setembro de 2017, com uma doação de mais de US $ 500 milhões e um aumento considerável nas inscrições.
    Estudos que atestam a precariedade do sistema de educação no Brasil apresentam muitas explicações para a defasagem dos alunos brasileiros, como as condições socioeconômicas no país, o racismo estrutural, e, principalmente, a falta de investimento nos profissionais que atuam no setor. O ano de 2020, por exemplo, foi o que teve menor investimento do Ministério da Educação (MEC) no ensino básico na década.

    Neste sentido, é importante fazer uma ressalva para compreender-se melhor o Brasil. A nota das escolas particulares de elite do país o colocaria na 5ª posição do ranking mundial de leitura do PISA, ao lado da Estônia, que tem o melhor desempenho da Europa. Já o resultado isolado das escolas públicas estaria 60 posições abaixo, na 65ª, entre 79 países. A nota geral do Brasil está entre as mais as baixas do mundo nas três áreas avaliadas, leitura, matemática e ciência.

    É também neste cenário que desembarcou no Rio de Janeiro a ECI, para competir com as principais escolas de elite do país, que em nada deixam a desejar às outras no mundo, como atestam os exames do PISA. Comentando o sucesso prematuro da escola chinesa, a diretora Yuan Aiping sentenciou: "O governo da China abriu uma escola para filhos de imigrantes, e filhos de executivos, filhos dos trabalhadores chineses que estão no Brasil, e a gente jamais poderia imaginar que seríamos abraçados desta maneira. Hoje, a imensa maioria de alunos são de filhos de brasileiros".

    Meninas fazem exercício durante aula da ginástica na escola de esportes em Xangai, China
    © REUTERS / Aly Song
    Meninas fazem exercício durante aula da ginástica na escola de esportes em Xangai, China
    Questionada sobre a eficiência do modelo de ensino chinês, a diretora Yuan Aiping apresentou uma explicação. "Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que o governo chinês incentiva a educação. Sempre se falou que a China é um país muito pobre, porém, desde que a China sofria com altos índices de desigualdade social, os professores eram bem remunerados. A China sempre priorizou esses profissionais. Na China há um ditado. O professor é a profissão mais brilhante, apenas abaixo do Sol".

    Para ela, os resultados destas políticas públicas são visíveis, "a China está sempre à frente no PiSA, e principalmente nas olimpíadas de matemática: quem sempre ganha medalhas é a China". Ela também descreveu as aulas na ECI. "De manhã, às 7 horas começa a aula. Quando chega meio-dia, todos os nossos alunos almoçam no colégio. Eles descansam, e depois voltam às aulas, até 17h30", disse ela, enfatizando que caráter integral do colégio é um diferencial em seu modelo de aprendizagem. Mas não é só isso.

    "Outro ponto que deve ser enfatizado é o espírito de competição da China. O brasileiro não tem esse espírito de competição. Na China, ou você é o primeiro lugar, ou não tem parabéns. Não há cultura do segundo lugar. Na China, por causa da quantidade de pessoas que moram no país, é preciso ser o melhor sempre", comentou.

    Ela também afirmou que "o governo chinês estimula uma educação muito rigorosa", e que um diferencial que ela pode notar entre China e Brasil é o respeito à figura do professor. "Aqui nós tivemos que ensinar o aluno brasileiro a respeitar o professor. A não falar enquanto um profissional fala. São pequenas mudanças. Mas que fazem a diferença no resultado final".

    Crianças em frente a uma cisterna para captação de água instalada em uma escola rural em Caraúbas, Rio Grande do Norte.
    ASA Brasil
    Crianças em frente a uma cisterna para captação de água instalada em uma escola rural em Caraúbas, Rio Grande do Norte

    Tecnologia a serviço da educação

    Brasileiro e professor da ECI, Lucas Melo falou sobre sua experiência na escola. "Na minha carreira foi um impacto muito grande. Nós não adotamos livros didáticos externos, e todo o material é reproduzido aqui na Escola Chinesa Internacional. Nós temos recursos, computadores, tudo que a gente precisa".

    Ele entende que há algumas mudanças no ensino praticado pela instituição chinesa. Segundo ele, uma primeira "adaptação foi a de tecnologia. Aqui nós temos um quadro da Huawei e cada aluno tem um tablet. Então há uma série de recursos que a gente pode trabalhar com eles".

    Ele revelou que, "recentemente, nós tivemos o aniversário de 60 anos da viagem do astronauta Yuri Gagarin. Nós usamos os equipamentos da Huawei para apresentar diversos mapas aos alunos, material da NASA, baixado on-line, antigos ônibus espaciais. Foi uma palestra com material muito vasto. Em uma escola normal, como os alunos não falam inglês, eu teria que traduzir o material todo".

    Cosmonauta Yuri Gagarin na espaçonave Vostok-1 antes do lançamento do cosmódromo de Baikonur, 12 de abril de 1961
    © Sputnik / Aleksandr Mokletsov
    Cosmonauta Yuri Gagarin na espaçonave Vostok-1 antes do lançamento do cosmódromo de Baikonur, 12 de abril de 1961
    Questionado sobre a metodologia da ECI e as diferenças com os critérios pedagógicos praticados no Brasil, o professor disse que "dentro do conteúdo de história e geografia, o diálogo é essencial. E é nessa parte que entra a sinergia. Com os ensinamentos de Confúcio. A gente não pode dar a resposta inteira. É preciso permitir ao aluno chegar às suas próprias conclusões". Ele lembrou que a escola chinesa pratica o Ensino Montessori, onde a autoeducação é a principal característica. Nesse sentido, a criança é vista como personagem importante e com papel ativo no processo de construção para o mundo.

    A Sputnik também perguntou ao professor se ele teria algum problema em ministrar aulas de história, sobretudo em como lidar com a ocidentalização dos fatos históricos. Ele explicou que, no momento, "dou aula de história do Brasil. A gente precisa aprender essa matéria de acordo com o que dizem os historiadores do país dizem a respeito, como na questão do Yuri Gagarin. A gente vai pegando os conteúdos e adequando aos conceitos dos países. Se preciso, fazemos até aulas de inglês".

    Estudantes resistem à invasão da Tropa de Choque da PM de São Paulo na escola ocupada Centro Paula Souza (foto de 2 de maio de 2016)
    Rovena Rosa/Agência Brasil/FotosPúblicas
    Estudantes resistem à invasão da Tropa de Choque da PM de São Paulo na escola ocupada Centro Paula Souza (foto de 2 de maio de 2016)

    A educação como ferramenta de soft power

    O professor Marcos Cordeiro explicou que, na teoria nas relações internacionais, existem dois poderes: o Hard Power (militar, econômico, produtivo), e o poder brando, da cultura, de influenciar pessoas.

    "Quando a gente pensa em um país que é muito distante, com um sistema político diferente, como é o caso da China, com absoluta certeza a questão da educação, e essa questão das vacinas é muito importante, também, assim como a culinária, a religião, e o próprio idioma, tudo isso faz parte de um pacote muito interessante que facilita o contato entre os povos, e é claro que também facilita a influência, que é o objetivo da China", afirmou.

    "Se considerarmos, por exemplo, que a China está do outro lado mundo, e que a gente pouco conhece sobre o país deles, a educação, com a instalação da ECI é muito importante para ter a compreensão entre os povos. A educação cria pontos de contato entre culturas diferentes. É importante consideramos, neste sentido, quantos universitários brasileiros existem nos EUA. Qual é o nível de interação entre universidades brasileiras e norte-americanas. A gente sabe que a influência norte-americana no Brasil se dá por meio da cultura, finanças, militares, mas principalmente por este relacionamento acadêmico. É só pensarmos nas escolinhas de inglês. De uma hora para outra, recentemente, vemos crianças brincando de Halloween", explicou o professor.

    A caminhada Zumbi, uma marcha composta por um grande grupo de pessoas que vestem zumbis no Rio de Janeiro, em novembro de 2018, em alusão ao Halloween
    © AP Photo / Andre Horta
    "A caminhada Zumbi", uma marcha composta por um grande grupo de pessoas que vestem zumbis no Rio de Janeiro, em novembro de 2018, em alusão ao Halloween

    "Na União Soviética, em Moscou, havia uma faculdade muito importante chamada Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, que ajudou a formar quadros em diversos países no mundo. Uma maneira de aproximar os povos e ampliar por meio da educação esse conhecimento mútuo", concluiu Marcos Cordeiro.

    Diretora da ECI, Yuan Aiping disse à Sputnik Brasil que, em conversa com outros chineses no país, era notória que a ausência de uma escola chinesa para ensino infantil causava algum tipo de incômodo. "Nós reparamos que haviam escolas francesas, alemãs, inglesas e norte-americanas, então por que não uma chinesa? Para fazer isso, nós fizemos parcerias com algumas das maiores empresas da China". Entre algumas citadas por Yuan Aiping, está a Huawei, responsável pelos quadros nas salas de aulas e envolvida em diversas polêmicas no mundo por sua rede de 5G.

    Questionada sobre o uso da educação como ferramenta de soft power, Yuan Aiping relembrou que, "em primeiro lugar, é preciso enfatizar que a nossa cultura é milenar, são 5.000 anos de história. Nosso modelo de pensamento e aprendizado inspirado no filósofo Confúcio tem muito valor e muitos livros traduzidos. A ideia é trazer o nosso pensamento, uma educação voltada para lealdade, vontade e integridade".

    Alunos participam de uma cerimônia de hasteamento da bandeira durante o Dia da Educação para a Segurança Nacional em uma escola secundária, em Hong Kong, em 15 de abril de 2021
    © AP Photo / Kin Cheung
    Alunos participam de uma cerimônia de hasteamento da bandeira durante o Dia da Educação para a Segurança Nacional em uma escola secundária, em Hong Kong, em 15 de abril de 2021

    "Eu quero trazer para o Brasil o pensamento da China sobre a educação, e isso tem um grande valor no mercado, é só observar como os brasileiros abraçaram a ECI. E o ensino da China traz consigo valores muito importantes para sociedade, de família, de conhecimento. Nosso orientador é o nosso pensamento Confúcio. Os brasileiros precisam entender a valorizar essa cultura de excelência da China", comentou.

    Intercâmbio cultural e a chegada do Instituto Confúcio

    O programa Instituto Confúcio começou em 2004, na Coreia do Sul. A exemplo do Instituto Camões, ou do British Council, da Alliance Française e da Società Dante Alighieri, seu objetivo é promover a língua e a cultura de seu país. Dez anos depois de sua estreia, haviam mais de 480 institutos Confúcio em cerca de 50 países, em cinco continentes. A expansão destas instituições de ensino acompanha o desenvolvimento meteórico da economia chinesa, e o professor Marcos Cordeiro explicou o porquê disso.

    "A China é um dos maiores investidores estrangeiros. O setor elétrico tem muito investimento chinês, e o automotivo está crescendo. Para se formar gestores, negociar com a China, para poder importar, você tem que ter conhecimento da cultura e do idioma, para evitar os ruídos culturais. O Instituto Confúcio tem esse papel importante", assinalou o especialista.

    Há quem diga que a instituição serve como moeda de propaganda do governo da China, e que, inclusive, temas como o Taiwan e o Tibete tornaram-se tabus nas discussões acadêmicas entre professores chineses e alunos. Há, além disso, outras queixas. A Universidade Osaka Sangyo, do Japão, em 2010, rescindiu seu contrato o governo chinês alegando espionagem, o que nunca foi comprovado.

    O presidente chinês, Xi Jinping, durante discurso em 23 de outubro de 2020
    © AP Photo / Andy Wong
    O presidente chinês, Xi Jinping, durante discurso em 23 de outubro de 2020

    Sobre a atuação do Instituto Confúcio no Brasil, o professor Marcos Cordeiro apresentou uma explicação. Segundo ele, a China e os EUA possuem diferentes concepções para o poder brando. Ao passo que os norte-americanos "se colocam com uma visão missionária no mundo, como seus valores fossem os únicos verdadeiros, universais, de liberdade, e democráticos", eles tem como "objetivo vender o american way of life".

    Em contraposição, ele avaliou que "a cultura da China se basta em si. Eles não querem transportar uma religião para o mundo, não tem por objetivo, algo que União Soviética fez bastante, um proselitismo político, vendendo um sistema político, e patrocinando partidos comunistas no mundo inteiro. A China não faz isso. Do ponto de vista político, não há uma pauta oculta, como existe no soft power dos EUA".

    Ele lembrou que, desde o inicio de 2017, com o governo de Donald Trump, "se iniciou uma competição muito dura com relação à China e à Rússia". O professor comentou que um marco deste fato foi quando o secretário de Estado de Trump disse que a América Latina não precisa de outras potências externas egoístas, que buscam defender seus próprios interesses. "Depois disso, ocorreu uma avalanche de desinformação com relação ao papel da China e da Rússia na América Latina", comentou.

    Para Marcos Cordeiro, as agências internacionais, principalmente as mídias do ocidente, passaram a criar narrativas contra a China. Ele comentou neste aspecto as questões em Xinxiang. "Coloca-se que há ali um genocídio, mas isso é uma informação falsa. Martela-se com muita força essa questão do genocídio em Xinxiang". Em seguida, citando outro exemplo, ele criticou a forma como está sendo tratado o leilão da 5G no Brasil.

    O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante discussão com representantes do setor de telecomunicações sobre a tecnologia 5G, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF)
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante discussão com representantes do setor de telecomunicações sobre a tecnologia 5G, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF)

    Sentimento Anti-China

    No Brasil, apesar da imigração massiva de japoneses desde 1930, sendo esta a maior colônia de imigrantes no país, setores da sociedade, em especial após a chegada da COVID-19, passaram a expressar sentimentos de xenofobia para com pessoas de traços orientais. As ilações de Jair Bolsonaro e Donald Trump sobre a China circulam pelos grupos de redes sociais com afirmações absurdas sobre chineses, japoneses, vietnamitas e povos orientais em geral.

    No atual governo brasileiro, em especial, este sentimento é latente. Questionada se não houve preconceito com a chegada da ECI, a diretora Yuan Aiping revelou alguns episódios, mas também frisou a aceitação da população: "Ninguém acreditou durante uma pandemia tão difícil, que depois de um mês e meio a gente não teria mais vaga. Temos filhos de políticos e muitos filhos de deputados. Mas nem por isso a gente pode deixar de que não teve sentimento anti-China no Brasil".

    Ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no dia 10 de outubro de 2019
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, no dia 10 de outubro de 2019
    "Teve um episódio agora no início. Toda segunda-feira a gente canta o hino nacional brasileiro, e depois o chinês, no playground do colégio. Uma vez o nosso vizinho, do prédio ao lado, começou a xingar a gente. Começou a fazer barulho. Em outra ocasião dois professores chineses que trabalham aqui foram à praia. Na volta, os dois foram xingados na porta do colégio. Isso acontece em outros lugares também. No ano passado, muito 'bolsonarista' foi no Consulado da China fazer um protesto. A polícia precisou fazer uma barreira para proteger as pessoas", disse a diretora, citando alguns episódios.

    É notório que o governo federal no Brasil praticou nos últimos dois anos uma série de agressões à China que deveriam ser evitadas. Por esta razão, o país perdeu inúmeros acordos que poderiam ter sido concebidos no esteio das boas relações bilaterais que guiaram o Itamaraty e o Ministério das Relações Exteriores da China nas últimas décadas.

    Dentre todas as faces do bolsonarismo, esta é, sem dúvida, a que mais intriga especialistas, que apontam motivos variados, como a submissão aos EUA, ou mesmo uma suposta "ameaça comunista" vista por setores do governo, como algumas razões para "justificar" o desapreço do atual presidente para com o governo da China. Em episódio mais recente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi filmado fazendo ilações sobre a origem da pandemia em Wuhan. Justamente em um momento em que o Brasil depende de insumos chineses para fabricação de suas escassas vacinas.

    Brigar com a China lembra a anedota do remador que insiste contra a maré. De qualquer sorte, Pequim segue com uma política de expansão de sua influência pela América Latina, por meio do poder brando, e com foco no Brasil, sabendo da importância do país dentro do Mercosul e do BRICS. Após a chegada do Instituto Confúcio, em 2008, nas universidades, a China chega agora à educação infantil, por meio da ECI. O apetite chinês, como se vê, não conhece governos, e sendo uma ferramenta de poder, é certo que ele veio para ficar.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    COVID-19, Jair Bolsonaro, Confúcio Avelino, PISA, educação profissional, Ministério da Educação, educação, preconceito, Brasil, China
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