05:55 18 Novembro 2019
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    Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), durante coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

    Após derrota para Bolsonaro há 1 ano, Haddad afirma: 'O Brasil se tornou um vassalo dos EUA'

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    O presidente Jair Bolsonaro colocou o Brasil em uma posição de vassalo dos Estados Unidos e está destruindo a tradição diplomática do país, afirmou ex-presidenciável Fernando Haddad (PT).

    A fala foi uma das que ele proferiu em conversa com a Sputnik, um ano após as eleições presidenciais brasileiras, quando o petista foi derrotado no segundo turno pelo ex-capitão do Exército.

    Na sua opinião, a área das relações internacionais é uma das que mais sofrerá com o impacto do novo governo no médio e longo prazo.

    "O Brasil sempre teve uma postura multilateral, era uma voz respeitada nas organizações multilaterais", afirmou, criticando ainda a atual "posição de vassalagem em relação aos EUA, sem nenhuma contrapartida".
    Donald Trump e Jair Bolsonaro durante a conferência de imprensa em Washington
    © AP Photo / Evan Vucci
    Donald Trump e Jair Bolsonaro durante a conferência de imprensa em Washington

    Bolsonaro escolheu seu colega americano Donald Trump como aliado preferencial e divulgou como um dos frutos dessa abordagem o apoio dos EUA à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

    Recentemente, no entanto, soube-se que os EUA continuam priorizando a entrada da Argentina e da Romênia antes do Brasil.

    Haddad disse à Sputnik que não tinha "muitas expectativas" sobre o governo Bolsonaro e afirmou que seus erros, especialmente em educação, meio ambiente e política externa, terão efeitos muito prejudiciais no futuro.

    No campo econômico, ele prevê um cenário de "crescimento medíocre", de 2% ao ano entre 2020 ou 2021, mas em uma sociedade "mais intolerante e tão desigual quanto sempre fomos", lamentou.

    O petista criticou também que a luta contra a pobreza e a desigualdade não está na agenda de Bolsonaro e disse que o neoliberalismo não é uma receita adequada para a América Latina.

    Reflexão eleitoral

    Haddad assumiu a candidatura presidencial do Partido dos Trabalhadores (PT) no último momento, depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), que está preso, foi impedido pela Justiça de concorrer.

    Ele conseguiu capturar boa parte do capital político de seu mentor e se colocou nas urnas, mas perdeu para Bolsonaro por uma ampla margem: 55,1% contra 44,8% – 57 milhões de votos contra 47 milhões.

    O Partido dos Trabalhadores sofreu uma derrota histórica e manteve apenas a liderança nos estados do nordeste, seu tradicional celeiro de votos.

    "Eu pessoalmente fiz o meu máximo, tudo o que estava ao nosso alcance", comentou Haddad à Sputnik, e enfatizou a anomalia de existir "um aparato do estado a serviço de uma candidatura, o que seria considerado um crime em qualquer lugar do mundo".

    Haddad estava se referindo aos promotores da Operação Lava Jato e ao ex-juiz Sergio Moro (atual ministro da Justiça de Bolsonaro), que em sua opinião trabalhava para anular rapidamente as possibilidades eleitorais de Lula, como teria sido demonstrado nas conversas privadas vazadas pelo site The Intercept nos últimos meses.

    Lula e Fernando Haddad em comício durante a campanha eleitoral de 2016
    © Foto / Ricardo Stuckert
    Lula e Fernando Haddad em comício durante a campanha eleitoral de 2016

    No entanto, o político de esquerda assumiu que o partido não estava pronto para a batalha travada nas redes sociais e no WhatsApp, nas quais predominavam as notícias falsas contra ele e contra quem seria a sua vice, Manuela d'Ávila (PCdoB).

    "Nos preparamos mal para a guerra digital que eles prepararam contra nós [...] era um esquema com dinheiro e patrocinadores de fora do Brasil", criticou Haddad, que lamentou a falta de vontade da Justiça em investigar o que realmente aconteceu nas eleições do ano passado.

    Futuro do PT e de Lula

    Haddad assumiu que não existe um "passe de mágica" para aliviar o antipetismo e o ódio à esquerda que foram instalados em grande parte da sociedade brasileira, que ele acredita ainda estar gravemente "machucada" pela tensão gerada pelas eleições e pelo discurso de ódio que promove a extrema-direita.

    Em relação ao futuro do ex-presidente Lula, que cumpre pena de oito anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ele se mostrou otimista.

    "Estamos muito próximo de um desfecho, a dias de julgamentos importantes", ponderou, lembrando que em breve o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá decidir sobre os recursos de defesa que questionam a imparcialidade de Moro e os promotores e solicitar a total anulação da decisão acerca do caso do tríplex do Guarujá.

    Haddad não descarta que Lula seja novamente candidato nas eleições de 2022, mas alertou que falta muito tempo e que, caso não possa aceitar o desafio, está disposto a repetir.

    "Se Lula ou o PT entenderem que podem aproveitar o Haddad [...] eu digo que sou um jogador que chega no horário, faz aquecimento, faz todos os exercícios, faz dieta [...] me preparo para o jogo", concluiu Haddad, que agora torna seu trabalho compatível como professor da Universidade de São Paulo (USP) com atos de militância no Partido dos Trabalhadores.

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    Tags:
    esquerda, antipetismo, Sergio Moro, eleições, política, Manuela D'Ávila, Donald Trump, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Haddad, Jair Bolsonaro, Estados Unidos, Brasil
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