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Desindustrialização: o que explica o Brasil ter chegado a esse ponto?

© Folhapress / Bruno SantosLinha de montagem de caminhões da montadora Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, São Paulo (foto de arquivo)
Linha de montagem de caminhões da montadora Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, São Paulo (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 25.05.2022
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O processo de desindustrialização no Brasil é um fato, mas o país pouco fala sobre o assunto, como se não fosse uma questão urgente. Qual é a explicação para isso? Em entrevista à Sputnik Brasil, o economista Lucas Azeredo da Silva Teixeira avalia que é possível reverter esse processo, mas antes será preciso pensar diferente.
Houve um tempo que o Brasil sonhava em ser um país plenamente industrializado, pois havia um consenso social, entre a elite intelectual e os formadores de políticas públicas, de que o subdesenvolvimento brasileiro, responsável pela imensa massa de pobreza, decorria de o país ter focado sua economia na agricultura, com um setor industrial atrasado e primário.
O projeto de industrialização, que ganhou força na década de 1970 durante a ditadura militar, promoveu avanços consideráveis, mas também erros que, como em um efeito de bola de neve, fizeram o país chegar à situação em que se encontra: de perda de indústrias. Entre 2015 e 2020, foram extintas 36,6 mil fábricas, segundo estudo feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Cnc).
Em meados dos anos 1970, 46% dos brasileiros viviam na zona rural. O êxodo para as cidades no período, e também ao longo dos anos 1980, expôs a condição de um país que se urbanizou rapidamente, mas com uma economia industrial pequena. As famílias vindas do campo, em geral com baixa escolaridade, conseguiram empregos apenas no setor comercial e de serviços.
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Este é o problema da desindustrialização no Brasil, conforme explica Lucas Teixeira, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon), do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp): é um paradoxo que começa em um processo de industrialização equivocado, acentuado a partir dos anos 1990 em razão de uma "abertura comercial muito brusca".

Brasil no mito da globalização

O Brasil chegou a ter 30% do seu PIB extraído da sua produção industrial. Atualmente, a proporção caiu para 11%, com tendência de queda progressiva. Nos últimos anos, diversas gigantes multinacionais anunciaram que deixariam o Brasil, como a norte-americana Ford (depois de mais de 100 anos), a alemã Mercedes-Benz e a japonesa Sony. Segundo a Cnc, mais de 5 mil fábricas encerraram suas atividades em 2021.
A desindustrialização é apontada também por um relatório do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), mostrando que a participação do setor industrial no PIB brasileiro vem caindo ano a ano. Em 2018, a indústria representou apenas 11,3% do PIB, quase metade dos 20% registrados em 1976. E por que isso está acontecendo?
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Embora se saiba dos fenômenos geopolíticos que conduziram as indústrias do mundo para o sudeste asiático, em especial para a China, Lucas Teixeira avalia que no caso do Brasil é preciso levar em conta e compreender os efeitos da "abertura comercial muito brusca nos anos 1990, associada a longos períodos de câmbio valorizado".
Ele explica que esses fatores foram fundamentais para que o país passasse a importar com mais frequência, "pois o processo ficou mais barato". Com isso, "o Brasil abriu mão de instrumentos que auxiliavam a industrialização do país. O câmbio valorizado tinha o objetivo de estabilizar a inflação, mas isso, em contrapartida, prejudicou a produção da indústria". Daí para frente, o setor industrial foi perdendo espaço para o mercado externo.
Além disso, o economista entende que o país não passou impune pela onda neoliberal que varreu o mundo no início dos anos 1990, em especial a partir da eleição de Fernando Collor. Ele aponta que o período marca "uma mudança no papel do Estado, que deixou de planejar e fazer políticas industriais com a expectativa de que a abertura comercial poderia impulsionar a economia brasileira para uma melhor situação. Havia uma crença de que o mito da globalização levaria a economia adiante".

Processo de desindustrialização diferente do de outros países

Como o tempo mostrou, o mercado não se ajustou às necessidades da indústria nacional e a globalização agravou a crise. Quando o país tentou abrir sua economia para o exterior, no governo Collor, valendo-se de um câmbio valorizado, descobriu-se que a indústria brasileira não poderia competir com os concorrentes estrangeiros e que os produtos importados eram mais baratos que os fabricados internamente.
As particularidades do processo de desindustrialização no Brasil revelam os erros na industrialização do país. Lucas Teixeira aponta que "a perda da participação da indústria no PIB, ou a redução do emprego no setor industrial, é um movimento que aconteceu em diversas economias do mundo. As economias desenvolvidas passaram por isso". O caso brasileiro, e em geral nos países subdesenvolvidos, é que chama atenção.
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"O que acontece é que, nas economias desenvolvidas, esse processo [desindustrialização] começou quando os países atingiram determinado ponto de desenvolvimento econômico, elevado nível de renda per capita, e esse emprego industrial que diminuiu deu lugar aos empregos no setor de serviços, pesquisa e desenvolvimento, e no mercado financeiro. Eles preservaram o setor de tecnologia", disse o economista.

"Em contraposição, o que aconteceu no Brasil, e em outros países em desenvolvimento, é que a desindustrialização foi prematura. Ela aconteceu antes do país se tornar desenvolvido, sem um acompanhamento da renda per capita, sem uma diversificação industrial no setor de alta tecnologia e de empregos de alta remuneração", completou.

O que deu lugar ao setor industrial, concluiu o economista, foram serviços de baixa qualidade e baixa remuneração, como entrega de alimentos, transporte de passageiros e terceirizados em geral. "Essas são algumas das características que tornam a desindustrialização brasileira algo muito danoso para o país."

'Posição muito ruim'

Lucas Teixeira afirmou que para se compreender as consequências da desindustrialização no Brasil basta olhar para o setor automotivo. "A gente exportava esses produtos e a gente parou de ter uma entrada de dólar associada a essa indústria. Quando essas indústrias somem, isso significa que temos que importá-los", disse.
A conta é simples, explicou ele. "Quando a economia brasileira cresce, isso antes repercutia no aumento de demanda pela produção interna. Se a gente não produz mais, vira uma demanda por produtos importados". Consequentemente, "se aumentarmos a importação, significa que quando a gente crescer, o déficit externo será mais alto".
Como a conta não fecha, a posição brasileira é ruim. A fuga de indústrias resultou "na perda de densidade do nosso tecido social e produtivo. Há perda de empregos de qualidade e com níveis salariais adequados. Perdemos também o dinamismo da economia", disse o economista da Unicamp, acrescentando que empregos qualificados ajudam não apenas a manter a economia do país girando, mas também desenvolver a pesquisa e a ciência.
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O problema de não estarmos olhando com atenção para o assunto é que há uma tendência internacional de organização da produção em torno de cadeias globais de valor. Isso significa, como afirmou o economista, que "à medida que a gente desindustrializa, como será a nossa inserção nessa cadeia global de produção? Seremos apenas fornecedores de matéria-prima? Isso é uma posição muito ruim, de baixo valor adicionado, que não gera emprego de qualidade".
Analogamente, é notório que os últimos governos brasileiros privilegiaram o setor agrícola para exportação de alimentos, minério e energia. De 2013 a 2019, o país perdeu mais de 28 mil indústrias e 1,4 milhão de postos de trabalho no setor. Ao mesmo tempo, valendo-se de uma política cambial (com o dólar alto) que valoriza a exportação de commodities, o Brasil viu a participação do agronegócio no PIB do país crescer progressivamente.

E como reverter a desindustrialização no Brasil?

A desindustrialização de um país é um processo de mudança estrutural. Não é algo que pode ser percebido na conjuntura. Lucas Teixeira, questionado sobre um caminho para retomar a industrialização no Brasil, recorreu a uma análise sobre o que foi feito em países mais desenvolvidos, como os EUA.
O que acontece é que nos países centrais "há uma preocupação grande com a questão do dinamismo econômico e do emprego. A preocupação do [Donald] Trump, por exemplo, era trazer empregos de volta para os EUA. Portanto, mesmo em um país como os EUA, cuja desindustrialização aconteceu durante um elevado nível de renda per capita, com bons empregos, mesmo lá havia essa preocupação, de aumentar os empregos industriais".
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Ele explica que isso também acontece com Joe Biden. "Ele demostra preocupação com o dinamismo econômico dos EUA e tem criado programas nesse sentido." Portanto Teixeira entende que para promover o fortalecimento da indústria "é preciso repensar o papel do Estado. É o que está sendo feito nos principais países do mundo".
A ideia de um Estado planejador, defende ele, ganhou uma conotação pejorativa no início dos anos 1990, a partir da progressão do neoliberalismo como teoria econômica dominante. Isso resultou na ausência de planejamento, enquanto a globalização agravou a crise ao longo dos anos.
Explicando a questão de forma sucinta, Teixeira defende que é "preciso pensar em políticas públicas para o setor industrial orientadas a cumprir objetivos, assim como desenvolver a cadeia do complexo econômico industrial de diversos setores (saúde, tecnologia e outros), gerando empregos de qualidade, pesquisa e desenvolvimento, patentes".
Ao defender a volta do planejamento do Estado, o economista da Unicamp disse que o primeiro caminho seria repensar as estatais estratégicas do país, como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por exemplo, "que pode ser mais ativo na formulação e implantação de políticas industriais, assim como a Petrobras e a Eletrobras".
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