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    Nesta semana, o Congresso dos EUA deve confirmar a nomeação de Antony Blinken para chefiar a diplomacia norte-americana. A Sputnik explica quem é 'Tony' Blinken e qual a política externa que ele deve conduzir nos próximos quatro anos.

    Pouco depois das eleições presidenciais norte-americanas de novembro, Joe Biden divulgou o nome de seu indicado para chefia do Departamento de Estado dos EUA.

    Antony 'Tony' Blinken é um veterano dos quadros de política externa do Partido Democrata dos EUA.

    Após trabalhar no Conselho de Segurança Nacional durante a administração Bill Clinton, Blinken se tornou conselheiro para Assuntos Internacionais do então senador Joe Biden, em 2002.

    Quando Biden assumiu o posto de vice-presidente de Barack Obama, Blinken voltou à Casa Branca como seu conselheiro de Segurança Nacional. Entre 2015 e 2017, 'Tony' serviu como vice-secretário de Estado dos EUA.

    Apesar do currículo, Blinken é bem menos conhecido do que eram Hillary Clinton ou John Kerry, quando assumiram o mesmo cargo.

    Blinken tampouco tem a influência política de seus predecessores e depende do poder pessoal de Biden para manter-se no posto.

    Blinken (à direita) acompanha encontro entre o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, Santiago, Chile, 28 de março de 2009 (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / Claudio Santana
    Blinken (à direita) acompanha encontro entre o então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, Santiago, Chile, 28 de março de 2009 (foto de arquivo)

    A relativa falta de influência pode ser balanceada pelo histórico dos Blinken no Departamento de Estado dos EUA, como apontou o próprio Antony durante sabatina no Comitê de Relações Exteriores no Senado dos EUA, nesta terça-feira (19).

    "Além da minha própria confirmação como vice-secretário de Estado, esse comitê já confirmou minha esposa, Evan Ryan [...] como secretária assistente para assuntos educacionais e culturais, confirmou meu tio, Alan Blinken, como embaixador na Bélgica, e meu pai, Donald Blinken, como embaixador na Hungria", lembrou o membro da equipe de Biden. 

    Durante os seis anos de assistência a Biden no Senado, Blinken pode trabalhar com Avril Haines, recém-nomeada diretora de Inteligência Nacional dos EUA da administração Biden.

    Essa proximidade será importante para retomar o equilíbrio entre o Departamento de Estado e as agências de inteligência dos EUA.

    O secretário de Estado de Donald Trump, Mike Pompeo, que servira como diretor da CIA, teria diminuído o papel dos diplomatas na formulação da política externa dos EUA.

    Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, fala à mídia em Washington, EUA, 24 de novembro de 2020
    © REUTERS / Saul Loeb
    Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, fala à mídia em Washington, EUA, 24 de novembro de 2020

    "Vou trabalhar [...] para revigorar o papel do Departamento de Estado", disse Blinken em sua sabatina no Senado. "[Os diplomatas] merecem nosso apoio e, se eu for confirmado no cargo de secretário [de Estado], eles o terão."

    De volta à era Obama?

    Muitos analistas acreditam que Blinken deve adotar política externa similar à da administração Barack Obama.

    No entanto, Blinken não poupa críticas ao ex-presidente democrata, lamentando inclusive a não intervenção militar direta dos EUA na Síria.

    "Falhamos ao não prevenir uma terrível matança. Falhamos ao não prevenir o deslocamento massivo [de pessoas] [...] isso é algo que levarei comigo para o resto dos meus dias", disse Blinken ao canal CBS News.

    Em 2018, Blinken assinou carta aberta a Obama, dizendo que o apoio à Arábia Saudita na guerra no Iêmen não havia surtido efeitos positivos. Durante sua sabatina no Senado, Blinken declarou que a administração Biden poderá retirar seu apoio ao esforço de guerra saudita.

    Antony Blinken, enquanto vice-secretário de Estado dos EUA, em visita à Riad, Arábia Saudita, 7 de abril de 2015 (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / Ahmed Farwan
    Antony Blinken, enquanto vice-secretário de Estado dos EUA, em visita à Riad, Arábia Saudita, 7 de abril de 2015 (foto de arquivo)

    Da mesma forma que Blinken não esconde suas diferenças com a abordagem de Obama, tece elogios à política externa de Trump.

    "Não será uma política anti-Trump. Nesse momento, essa é a impressão que dá, porque domina nos EUA uma vontade de negar tudo que Trump representa", disse o professor de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia, Andrei Tsygankov, durante evento do Clube de Discussões Valdai.

    "Mas algumas ideias que ele [Trump] trouxe, como desenvolvimento e economia nacional, são muito importantes para os EUA e devem se manter na administração Biden", acredita o professor.

    Durante a audiência no Senado, Blinken afirmou que "houve várias coisas positivas [...] que a administração Trump fez [...] e que eu aplaudiria".

    Para ele, os acordos de normalização de relações entre Israel e países como Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Marrocos e Sudão foram "uma boa iniciativa", assim como a assinatura do acordo comercial entre Sérvia e Kosovo.

     O presidente dos EUA, Donald Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante coletiva de imprensa na Casa Branca para discutir o plano de paz para o Oriente Médio proposto por Trump.
    © REUTERS . Brendan Mcdermid
    O presidente dos EUA, Donald Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante coletiva de imprensa na Casa Branca para discutir o plano de paz para o Oriente Médio proposto por Trump.

    Blinken também reconheceu o papel de Trump em garantir o aumento dos gastos de defesa dos aliados dos EUA na OTAN.

    "Eu também acho que o presidente Trump estava certo ao adotar uma abordagem mais dura com a China. Discordo da maneira com a qual ele fez isso, mas o princípio estava correto e foi muito útil para a nossa política externa", declarou o novo secretário de Estado.

    Blinken inclusive corroborou a recente decisão de seu antecessor, Mike Pompeo, de considerar que a China está engajada em genocídio contra a minoria muçulmana uigur. 

    "O fato de Blinken ter [...] confirmado a ideia de genocídio uigur é um sinal importante de que a relação com a China será mantida em uma linha muito dura", disse Tsygankov. "Não haverá um retorno ao período Obama."

    Intervencionista

    Outro mantra repetido pelos especialistas é de que Blinken representa o multilateralismo e o respeito aos aliados dos EUA, em oposição às tendências unilateralistas de Trump.

    De fato, a administração Biden tomou medidas imediatas para retornar os EUA para os Acordos de Paris sobre o clima e expressou desejo de voltar à Organização Mundial da Saúde, integrando inclusive a iniciativa de distribuição de vacinas COVAX.

    Cantor Bono Vox, da banda U2, ao lado do então vice-secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, 12 de abril de 2016 (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / Mike Theiler
    Cantor Bono Vox, da banda U2, ao lado do então vice-secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, 12 de abril de 2016 (foto de arquivo)

    Além disso, o novo secretário de Estado tem fortes laços com a Europa. Durante a infância, ele morou em Paris com sua mãe, Judith, e seu padrasto, Samuel Pisar, um sobrevivente do holocausto.

    "Blinken conhece bem a Europa e é um atlantista convicto. Ele quer reforçar os laços com os europeus não só no âmbito da OTAN, mas também nas relações entre os EUA e a União Europeia", disse Fyodor Voitolovsky, diretor do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais Primakov da Academia de Ciências da Rússia (IMEMO-RAN, na sigla em russo).

    Para Tsygankov, no entanto, a política liberal defendida por grupos ligados ao Partido Democrata por vezes se traduz em intervencionismo.

    "Esse globalismo e internacionalismo de superfície leva ao intervencionismo liberal, que gera tensões não só com a Rússia, mas com diversos outros países", acredita Tsygankov.

    Antony Blinken bate continência durante sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA, em Washington, EUA, 19 de janeiro de 2021
    © AFP 2021 / Alex Edelman
    Antony Blinken bate continência durante sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA, em Washington, EUA, 19 de janeiro de 2021

    Ao que tudo indica, Blinken nutre tendências intervencionistas: ele foi a favor da intervenção norte-americana no Iraque, em 2003, alegando que a "força pode ser um complemento eficiente à diplomacia".

    Durante sua atuação no Conselho de Segurança Nacional da administração Obama, Blinken defendeu postura mais dura dos EUA em relação à Síria. Ele teria inclusive discordado de Biden ao defender uma intervenção armada norte-americana na Líbia, em 2011.

    "Podemos esperar um Departamento de Estado com tendências mais intervencionistas", disse Tsygankov, em resposta à pergunta da Sputnik Brasil.

    "Blinken pode ter uma maior predisposição para utilizar a figura do inimigo externo [...] em oposição a tentativas de resolver problemas internacionais com base na diplomacia multilateral", acredita o professor. 

    Conselho de Segurança Nacional dos EUA reunido sob a chefia do então presidente Barack Obama, Washington, EUA, 25 de fevereiro de 2016 (foto de arquivo)
    © REUTERS / Mandel Ngan
    Conselho de Segurança Nacional dos EUA reunido sob a chefia do então presidente Barack Obama, Washington, EUA, 25 de fevereiro de 2016 (foto de arquivo)

    Em recente discurso no Senado dos EUA, Blinken defendeu a liderança mundial norte-americana.

    "A liderança americana ainda importa. A realidade é que o mundo não se organiza por si só", disse Blinken. "Quando nós não estamos liderando, uma das duas coisas acontecem: ou um outro país vem tomar o nosso lugar [...], ou, pior, ninguém vem. E temos o caos".

    Está claro que, para Blinken, o mundo precisa de um único líder, e esse líder deve ser os EUA. Só nos resta esperar para ver se o resto do mundo concorda com o novo secretário de Estado.

    Antony Blinken foi apontado para o cargo de secretário de Estado pelo novo presidente dos EUA, Joe Biden. Nesta terça-feira (19), Blinken foi submetido à sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA. O Congresso dos EUA deve confirmar a nomeação nos próximos dias.

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    Tags:
    EUA, secretário de Estado, diplomacia, política externa, Donald Trump, Mike Pompeo, Barack Obama, Valdai, Joe Biden
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