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    Em 27 de novembro, o cientista do alto escalão iraniano foi assassinado em uma emboscada. A Sputnik explica por que o assassinato desse cientista é um assunto internacional, quem pode estar por trás do incidente e como o Irã poderá reagir ao atentado.

    No dia 27 de novembro, a comunidade internacional recebeu com alarme a morte do cientista nuclear iraniano, Mohsen Fakhrizadeh, assassinado em uma emboscada na região metropolitana de Teerã.

    Sempre acompanhado de um sofisticado aparato de segurança, Fakhrizadeh era um funcionário-chave do Estado iraniano.

    O governo do país não demorou a apontar as forças estrangeiras como responsáveis pelo assassinato, que teria como objetivo desestabilizar o já turbulento Oriente Médio. 

    "No Irã, o ano começou com o assassinato de Qassem Soleimani, um general iraniano influente, e terminou com o homicídio de Mohsen Fakhrizadeh, um cientista reputado", disse a iranista do Conselho Russo de Relações Internacionais (RSMD, na sigla em russo), Polina Vasilenko, à Sputnik Brasil.

    Chefe do setor de inovações do Ministério da Defesa do Irã, Fakhrizadeh, não só era responsável pelo programa nuclear, "mas também participava do programa de mísseis balísticos, de armas a laser e até do desenvolvimento da vacina contra a COVID-19", notou a especialista.

    Para ela, "não se trata somente de um golpe contra uma pessoa em particular [...] mas contra processos diplomáticos que poderiam ocorrer em um futuro próximo", disse Vasilenko.

    A Sputnik Brasil conversou com especialistas para compreender por que o assassinato desse cientista é um assunto internacional, quem está por trás do incidente e como o Irã poderá reagir ao atentado.

    O que aconteceu?

    Mohsen Fakhrizadeh foi assassinado durante a tarde do dia 27 de novembro, na cidade de Absard, nos subúrbios da capital iraniana, Teerã.

    Ele estava em um carro escoltado por seguranças, quando uma saraivada de balas, seguida por uma explosão, atingiu o veículo. Fakhrizadeh chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Seguranças e membros de sua família também ficaram feridos em decorrência do ataque.

    O ministro da Defesa do Irã, Amir Hatami, fala durante cerimônia fúnebre do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh-Mahabadi, em Teerã, Irã
    © REUTERS / WANA NEWS AGENCY
    O ministro da Defesa do Irã, Amir Hatami, fala durante cerimônia fúnebre do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh-Mahabadi, em Teerã, Irã

    De acordo com o chefe da Segurança iraniana, Ali Shamkhani, o ataque foi realizado utilizando "equipamento elétrico" sofisticado, que seria uma metralhadora automática controlada remotamente. Ela teria sido instalada em um veículo Nissan, que explodiu logo após os disparos, destruindo quaisquer pistas sobre a origem do ataque.

    "Digamos que a operação para o eliminar foi brilhantemente planejada, mas ainda assim demonstrou a vulnerabilidade do alto escalão da liderança iraniana e as falhas dos serviços especiais do país", disse Maksim Alonsev, iranista da Escola Superior de Economia, à Sputnik Brasil.

    Quem está por trás do ataque?

    A liderança iraniana não tardou a apontar Israel como responsável pelo assassinato do proeminente físico nuclear. O presidente do país, Hassan Rouhani, acusou Tel Aviv diretamente, enquanto o ministro das Relações Exteriores falou em "terrorismo de Estado".

    Para Vasilenko, "é compreensível que todos estejam apontando o dedo para a [agência de inteligência de Israel] Mossad, até porque não é qualquer [agência] que consegue realizar uma ação tão cirúrgica e rápida".

    No entanto, as investigações sobre o incidente ainda não foram concluídas e nenhum país ou organização terrorista reivindicou a autoria dos ataques.

    Manifestantes queimam bandeiras dos EUA e Israel em ato de repúdio ao assassinato de Mohsen Fakhrizadeh, Teerã, Irã, 28 de novembro de 2020
    © REUTERS / Agência WANA
    Manifestantes queimam bandeiras dos EUA e Israel em ato de repúdio ao assassinato de Mohsen Fakhrizadeh, Teerã, Irã, 28 de novembro de 2020

    "Os grupos mais conservadores do Irã com certeza estão demandando reações, porque [o assassinato] foi uma violação da soberania do país", disse Vasilenko. "Uma coisa é fazer pressão econômica, outra é a realização de operações de forças estrangeiras dentro do território nacional".

    Com recursos limitados após anos de sanções econômicas, o Irã não demonstra estar interessado em reagir militarmente ao ocorrido.

    "Parece que será mais lucrativo para o Irã 'calar-se', mostrando-se como defensor da paz e da estabilidade na região, em oposição aos 'falcões de Washington'", disse Alonsev.

    De fato, a liderança iraniana parece optar por uma reação moderada frente ao atentado: "A nação iraniana é inteligente e esperta o suficiente para não cair em armadilhas dos sionistas [Israel]", disse o presidente do país, Hassan Rouhani. Segundo ele, "as autoridades relevantes vão responder a esse crime no momento oportuno".

    Terroristas assassinaram um eminente cientista iraniano hoje. Essa covardia, que tem sérios indícios de participação israelense, demonstra a atitude belicosa desesperada dos agressores. O Irã convoca a comunidade internacional, especialmente a União Europeia, a parar com seus vergonhosos dois pesos e duas medidas e condenar esse ato de terrorismo de Estado 

    Transição de poder nos EUA

    Os especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil foram unânimes ao notar que o atentado foi realizado com o intuito de dificultar uma aproximação entre a próxima administração norte-americana, liderada por Joe Biden, e o Irã.

    "Mesmo que não tenhamos 100% de certeza sobre quais as forças que estão por trás do assassinato de Fahrizadeh, podemos supor que o incidente está ligado à saída de Donald Trump de seu posto", disse Alonsev.

    A administração Trump conduziu uma política de "pressão máxima" contra o Irã, retirando os EUA do acordo nuclear iraniano, assinado em 2015 por EUA, Irã, China, França, Reino Unido, Alemanha e Rússia, o qual garantia a retirada de sanções econômicas em troca da desaceleração das atividades nucleares de Teerã.

    Manifestante exibe foto de Mohsen Fakhrizadeh, o cientista nucelar assassinado no Irã
    © REUTERS / Majid Asgaripour/WANA
    Manifestante exibe foto de Mohsen Fakhrizadeh, o cientista nucelar assassinado no Irã

    Durante a campanha presidencial, Joe Biden, por sua vez, deixou claro que queria o retorno de Washington ao acordo, no que poderá ser uma segunda chance para as relações entre Irã e os EUA.

    Para o coordenador do programa de pesquisa em Oriente Médio do Conselho Russo de Relações Internacionais (RSMD, na sigla em russo), Ruslan Mamevod, o assassinato pode contribuir para a prorrogação do retorno de Washington ao acordo nuclear.

    "Existem alguns fatores que podem frear a aproximação entre o Irã e os EUA na questão nuclear: a posição de Israel, que não quer o retorno dos EUA para o acordo [...] e de alguns outros atores regionais, como a Arábia Saudita, que disse querer estar incluída em negociações nucleares regionais no futuro", disse Mamedov à Sputnik Brasil.

    Além disso, Biden pode fazer valer a "herança de Trump" e "usar essa situação para não retornar ao acordo assinado durante a administração Obama".

    Para Alonsev, o assassinato de Fakhrizadeh teve o intuito de "desestabilizar a situação na região e colocar obstáculos para que a administração de Biden não modifique as bases da política externa de Trump para o Oriente Médio".

    Resposta nuclear

    Com poucos recursos e vontade política de iniciar um conflito bélico de larga escala, o Irã tem mobilizado suas estratégias não militares para responder ao atentado.

    Nesta terça-feira (1º), o Irã aprovou a lei que permite o aumento de suas atividades nucleares, como estratégia para forçar os EUA a retirar as sanções econômicas impostas contra o país. 

    O projeto de lei já vinha sendo discutido como forma de reagir ao não cumprimento do acordo nuclear por parte de alguns de seus participantes, mas o assassinato de Fakhrizadeh veio como um catalisador e acelerou a sua aprovação.

    Presidente do Irã, Hassan Rouhani, visita as instalações nucleares de Bushehr (foto de arquivo)
    © AP Photo / Mohammad Berno
    Presidente do Irã, Hassan Rouhani, visita as instalações nucleares de Bushehr (foto de arquivo)

    De acordo com a lei, o Irã vai voltar a enriquecer urânio a 20%, reconstruir um reator de água pesada no complexo de Arak e limitar o acesso de inspetores da ONU às suas instalações nucleares.

    "O maior perigo aqui é a ameaça do Irã de se retirar do Tratado de Não Proliferação Nuclear [...], o que significaria o fim das inspeções internacionais no programa nuclear iraniano", notou Vasilenko.

    Segundo a especialista, as inspeções foram essenciais no passado para afastar suspeitas de Israel e EUA de que o Irã teria construído armas nucleares, evitando um conflito regional de larga escala.

    A nova lei iraniana dá um "ultimato ao Ocidente", forçando-o a "levantar as sanções e materializar o direito iraniano [de desenvolver] sua indústria de energia nuclear", disse o parlamentar Haji Deligani, conforme reportou a agência de notícias local Tasnim.

    Linha Dura 

    Independente da reação dos EUA ao renascimento do programa nuclear, o assassinato de Fakhrizadeh deve fortalecer as alas mais conservadoras da política interna iraniana nas eleições gerais de 2021.

    "No meio do ano que vem [2021], uma nova administração deve assumir o poder no Irã, e muito provavelmente não será a atual, liderada por Rouhani", disse Mamedov. "A expectativa é que assuma um grupo da ala mais conservadora iraniana".

    O assassinato fortaleceu o argumento de que a administração considerada moderada do presidente Rouhani não foi capaz de cumprir sua tarefa de garantir a segurança de funcionários de Estado e a soberania nacional.

    Manifestantes queimam fotos de líderes norte-americanos em protesto de repúdio ao assassinato de cientista nuclear em Teerã, Irã, 28 de novembro de 2020
    © REUTERS / Agência WANA
    Manifestantes queimam fotos de líderes norte-americanos em protesto de repúdio ao assassinato de cientista nuclear em Teerã, Irã, 28 de novembro de 2020

    "Com certeza vai haver uma reavaliação nas prioridades internas", acredita Mamedov. "Acho que os iranianos vão começar a atuar de forma mais cuidadosa quando o assunto é segurança."

    Na política externa, "a expectativa é a de que o cuidado com iranianos que se encontram no exterior venha para primeiro plano", disse o especialista.

    Seja em assuntos domésticos ou internacionais, o assassinato parece ter dado voz à setores descrentes da possibilidade de um acordo com o Ocidente.

    "Os conservadores tiveram outra chance de repetir o seu querido mantra: 'não se pode confiar na América'", concluiu Alonsev.

    Nesta quarta-feira (2), o provável vencedor das eleições norte-americanas, Joe Biden, reiterou sua intenção de retornar os EUA ao acordo nuclear iraniano durante entrevista ao jornal The New York Times. "A melhor maneira de atingir a estabilidade na região é lidar com o programa nuclear", disse Biden.

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    Tags:
    Joe Biden, Donald Trump, EUA, Acordo Nuclear Iraniano, Mossad, Israel, assassinato, acordo nuclear, Irã
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