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    Coronavírus no mundo em meados de janeiro de 2021 (81)
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    Após se tornar a primeira vacina contra a COVID-19 a ser registrada no mundo, a Sputnik V tem sofrido bastante descrédito da mídia ocidental, que acusou a vacina russa de não ser segura o suficiente por, supostamente, não ter sido testada em suficiência.

    Contudo, apesar dos vários sinais de efeitos secundários da vacina da Pfizer, a última não tem recebido tanto escrutínio pela mídia geral.

    A comunidade de saúde está enfrentando um paradoxo. De um lado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama a atenção para a desigualdade na distribuição das vacinas contra o coronavírus, destacando que o país de menor renda do mundo recebeu apenas 25 doses de vacina contra COVID-19, em contraste com 39 milhões das mesmas enviadas a 49 países de maior renda.

    Por outro lado, a própria OMS autorizou apenas uma vacina contra COVID-19, a desenvolvida pela Pfizer/BioNTech, ignorando uma infinidade de outras desenvolvidas na China, Rússia, Reino Unido e Índia, limitando assim a possibilidade de sucesso da iniciativa COVAX – um acelerador de vacinas global e um banco para a distribuição uniforme de medicamentos produzidos.
    Membro de equipe médica recebe vacina da Pfizer/BioNTech durante vacinação anti-coronavírus em Bergamo, Itália, 5 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Ufficio stampa ASST Papa Giovanni XXIII / Handout
    Membro de equipe médica recebe vacina da Pfizer/BioNTech durante vacinação anti-coronavírus em Bergamo, Itália, 5 de janeiro de 2021

    Segundo a OMS, a vacina da Pfizer passou pela validação de uso emergencial graças a "segurança, eficácia e qualidade", não tendo sido a única a ser reconhecida rapidamente. A União Europeia – mais especificamente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – pressionou a aprovação mais rápida da vacina da Pfizer em território europeu.

    De acordo com um relatório do Le Monde – que cita documentos obtidos, a pressão política para a aprovação da vacina foi tão grande que a Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês) teve de desviar o olhar em relação a alguns problemas encontrados com o medicamento, tais como a alegada inconsistência entre o conteúdo dos frascos vendidos pela Pfizer e os compostos usados nos ensaios da vacina.

    Aparentemente, os constantes relatórios de possíveis efeitos colaterais também não conseguiram diminuir o ritmo de venda da vacina da Pfizer/BioNTech pelo mundo. Pelo menos 13 israelenses experimentaram paralisia facial leve temporária logo após receberem a primeira injeção da Pfizer, colocando em questão a possibilidade de obter a segunda. Anteriormente, a Noruega relatou que 23 pessoas morreram depois de receber injeção da Pfizer, mas as autoridades ainda não têm certeza se os dois eventos estão conectados. Mesmo assim, o país emitiu uma advertência de que a injeção pode ter "consequências graves" para os idosos e mais frágeis, enquanto a OMS planeja estudar a causa da morte das duas dezenas de pacientes.

    Ao mesmo tempo, nem todas as vacinas encontraram tanta folga para serem usadas em outros países como aconteceu com a da Pfizer, que está sendo distribuída na União Europeia sob a condição de não responsabilidade da empresa produtora por possíveis efeitos colaterais. De acordo com o diretor do Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya – que desenvolveu a primeira vacina contra o coronavírus do mundo – Aleksandr Gintsburg, a Sputnik V está sob extremo escrutínio das autoridades europeias. No entanto, a razão pela qual o medicamento de uma empresa específica tem, supostamente, maior preferência no processo de autorização permanece obscura.

    Enfermeiras portuguesas segurando caixas de Styrofoam para recolher doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra COVID-19 para serem distribuídas nos hospitais de Lisboa
    © AP Photo / Armando Franca
    Enfermeiras portuguesas segurando caixas de Styrofoam para recolher doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra COVID-19 para serem distribuídas nos hospitais de Lisboa

    A vacina da Pfizer mostrou eficácia de 90% nos testes, sendo tal eficácia similar à da Sputnik V e inferior à da segunda vacina desenvolvida na Rússia, a EpiVacCorona, cujos testes, até agora, mostraram 100% de eficácia.

    Possíveis causas dos efeitos colaterais da vacina da Pfizer

    Uma possível causa para os alegados efeitos colaterais da vacina da Pfizer pode ser o uso de RNA mensageiro modificado por nucleosídeo – uma tecnologia que até agora só foi utilizada em vacinas para animais e nunca antes para humanos.

    Teoricamente, o RNA modificado deveria carregar parte do genoma do novo coronavírus para desencadear uma resposta imune no corpo, e assim atingir imunidade contra uma infecção real do vírus.

    O diretor do Centro Gamaleya apontou, no entanto, que o RNA, ao contrário do DNA, é mais sujeito a mudanças repentinas. Tal acontecimento pode tomar lugar até mesmo no processo de produção da vacina. Como resultado, vários lotes da vacina da Pfizer podem diferir uns dos outros, podendo os "estragados" criarem efeitos colaterais inesperados, enfatizou o acadêmico. 

    "Em Israel, os que foram vacinados [com o imunizante da Pfizer] sofreram paralisia facial leve. No entanto, atualmente, não temos uma compreensão abrangente de quais outras complicações podem acontecer [sob a influência deste medicamento]. Por exemplo, pode ser paralisia da musculatura esofágica ou paralisia do nervo cardíaco", advertiu Gintsburg.

    Gintsburg sugeriu então que a vacina da Pfizer pode ter um efeito negativo em cerca de 30% a 40% dos pacientes, especificamente em idosos e nos que sofrem de alergias.

    Vacina russa na mira da guerra da informação global

    Enquanto os dois medicamentos americanos fabricados pela Moderna e Pfizer são baseados em RNA modificado, outros medicamentos alternativos, geralmente, usam a proteína S ou os antígenos do coronavírus com o uso de vetores adenovirais, como a vacina de Oxford/AstraZeneca e a russa Sputnik V. Na verdade, algumas delas, especificamente a primeira vacina russa Sputnik V, enfrentaram reação negativa da mídia sob o pretexto de não terem passado por ensaios mais amplos. Além disso, a vacina russa enfrentou outros problemas: sua página no Twitter ficou temporariamente restrita (embora visível) por causa de uma alegada "atividade incomum", e sua autorização na Hungria foi criticada pelas autoridades da UE.

    Caixa com vacinas Sputnik V contra a COVID-19 em aeroporto internacional de Moscou, Rússia, 2 de dezembro de 2020
    © Sputnik / Vladimir Astapkovich
    Caixa com vacinas Sputnik V contra a COVID-19 em aeroporto internacional de Moscou, Rússia, 2 de dezembro de 2020

    Adicionalmente, a Rússia foi também repetidamente acusada de tentar roubar dados de outros países sobre a pesquisa de vacinas contra o coronavírus usando o "exército de hackers" que o Kremlin tem, supostamente, à sua disposição. Curiosamente, esses relatos surgiram quando as primeiras vacinas desenvolvidas no país já estavam passando por seus primeiros ensaios, que os concluíram com sucesso mostrando mais de 90% de eficácia.

    É também importante mencionar o fato de que pesquisadores russos cooperaram com colegas estrangeiros durante o desenvolvimento da vacina, especialmente com a AstraZeneca.

    Ao mesmo tempo, a Pfizer, que já esteve mal no passado por causa de seus medicamentos, não parece ter "gostado" de tal escrutínio, que pode mudar à medida que aumenta a quantidade de evidências sugerindo possíveis efeitos colaterais em sua vacina com o passar dos dias.

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    Tags:
    COVID-19, Sputnik V, Pfizer, vacina, saúde, mídia
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