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    Enquanto o presidente dos EUA, Joe Biden, negocia a aprovação de pacote trilionário de infraestrutura, rede de gasoduto privatizada norte-americana sofre ataques de hackers. O Estado norte-americano deveria investir e controlar setores-chave de sua infraestrutura?

    Nesta semana, o presidente dos EUA, o democrata Joe Biden, realizou negociações com representantes do Partido Republicano para viabilizar a aprovação de pacote trilionário de investimentos em infraestrutura.

    A proposta inicial apresentada pelos democratas em 31 de março prevê investimentos de cerca de US$ 2 a 3 trilhões (entre R$10 e 15 trilhões) em um período de oito anos.

    Mas os republicanos expressaram descontentamento, afirmando que o pacote democrata trabalha com uma definição ampla de infraestrutura, que inclui investimentos em outros setores, como saúde e habitação.

    Presidente dos EUA, Joe Biden, assovia durante cerimônia em homenagem a cadetes da Guarda Costeira dos EUA, em New London, Connecticut, EUA, 19 de maio de 2021
    © REUTERS / Kevin Lamarque
    Presidente dos EUA, Joe Biden, assovia durante cerimônia em homenagem a cadetes da Guarda Costeira dos EUA, em New London, Connecticut, EUA, 19 de maio de 2021

    A contraproposta republicana sinaliza para um pacote de US$ 568 bilhões (cerca de R$ 3 trilhões), a serem investidos em um período de cinco anos.

    Apesar dos diferentes métodos, parece haver certo consenso bipartidário sobre a necessidade de investimento público no setor.

    Os primeiros debates recentes sobre a realização de plano de investimento massivo no setor inclusive foram feitos durante a administração do antecessor e rival de Biden, Donald Trump.

    "Vejo diversos traços de continuidade da política de Biden em relação à Trump", disse o professor do Instituto de Economia da UNICAMP, Bruno De Conti, à Sputnik Brasil "A forma é distinta, o discurso é diferente, mas a essência é praticamente a mesma."

    Segundo ele, agendas como a tentativa de reindustrialização dos EUA e a exigência de conteúdo nacional em projetos públicos já vinham sendo defendidas por Trump.

    "Deve haver um consenso bipartidário maior [sobre a necessidade de investir em infraestrutura] mas a maneira de se fazer isso não é unanimidade", disse o economista. "A disputa lá hoje é em torno dos gastos públicos, se eles serão inflacionados ou não, se isso significará um rompimento com o mantra da responsabilidade fiscal."

    Então presidente eleito dos EUA, Donald Trump, no hall de um dos prédios construídos pela sua empresa em Nova York, EUA, 16 de janeiro de 2021
    © AFP 2021 / Dominick Reuter
    Então presidente eleito dos EUA, Donald Trump, no hall de um dos prédios construídos pela sua empresa em Nova York, EUA, 16 de janeiro de 2021

    Além disso, as disputas políticas interferem na aprovação do pacote, já que os republicanos "não querem dar os louros para o Biden", acredita De Conti.

    "A maioria democrata do Biden é frágil, então os republicanos sentem que tem o poder de interferir", notou o economista.

    Apesar da rivalidade, tanto democratas, quanto republicanos, associam planos nacionais de infraestrutura à disputa com a China.

    "O plano de infraestrutura em particular é uma reação à ascensão chinesa. A China tem o projeto da Nova Rota da Seda, estimado em US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões), e os EUA então respondem com um plano que custará o dobro", considerou. "É como se a China tivesse trucado, e os EUA pedido seis."

    Apesar dos EUA ainda estarem na frente da China em muitos setores-chave, como o de semicondutores, a falta de investimentos públicos deixou a infraestrutura norte-americana muito aquém de seu rival asiático, acredita o economista.

    Presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, fala durante coletiva de imprensa no Capitólio em Washington, EUA, em 19 de maio de 2021
    © REUTERS / Joshua Roberts
    Presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, fala durante coletiva de imprensa no Capitólio em Washington, EUA, em 19 de maio de 2021.

    "De acordo com o ranking do World Economic Forum sobre a infraestrutura nos principais países, os EUA se encontram na décima terceira posição, o que é lamentável, se considerarmos que é o país mais rico do mundo", relatou De Conti.

    Segundo ele, a precariedade da infraestrutura tem reflexos na competitividade norte-americana: "defender o mercado doméstico, ampliar as exportações, atrair a indústria de volta para os EUA, tudo isso passa por uma melhoria da infraestrutura".

    Setores sensíveis

    Enquanto políticos debatiam o pacote, os EUA sofreram um dos maiores ataques cibernéticos contra seu setor de infraestrutura em sua história.

    No início de maio, a maior rede de gasodutos do país, foi alvo de ataque pelo grupo DarkSide, que roubou mais de 100 GB de informações da empresa e suspendeu suas operações.

    O gasoduto transporta cerca de 2,5 milhões de barris de óleo e combustíveis por dia, o equivalente a aproximadamente 45% do consumo de gasolina, diesel e querosene de aviação da costa leste dos EUA.

    O incidente fez com que especialistas questionassem o nível de investimento em segurança cibernética feito pela empresa privada que opera a rede, chamada Colonial Pipeline.

    Em fevereiro deste ano, a empresa responsável pela geração e transmissão de eletricidade do estado do Texas também apresentou falha grave em suas operações, em um momento em que a população mais carecia dela. Durante onda de frio inédita no estado, milhões de pessoas ficaram sujeitas a racionamento de energia elétrica e sem aquecimento por semanas.

    Norte-americanos acendem velas durante racionamento de energia, em Fort Worth, Texas, EUA, 20 de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Cooper Neill
    Norte-americanos acendem velas durante racionamento de energia, em Fort Worth, Texas, EUA, 20 de fevereiro de 2021

    Esses incidentes colocam em cheque o modelo norte-americano, que não prioriza o controle estatal de setores-chave da infraestrutura nacional.

    "Eu diria que o melhor seria que esses setores estratégicos fossem públicos", disse De Conti. "Só pelo fato de os serviços públicos serem operados por empresas com capital aberto, isso já faz com que a sua administração mude completamente."

    Segundo o professor, "ao invés de reinvestir os lucros no serviço que ela presta, a empresa prioriza a distribuição de dividendos para os acionistas".

    "O objetivo no fim das contas é menos o objeto em si no qual a empresa atua, e mais a valorização das ações", acredita. "Por isso o setor público deveria estar mais presente em setores estratégicos, como é na China e como já foi no Brasil e outros lugares do mundo."

    Empregados lavam janelas em prédio de Pequim, China, 12 de maio de 2021
    © AFP 2021 / Noel Celis
    Empregados lavam janelas em prédio de Pequim, China, 12 de maio de 2021

    Apesar do diagnóstico, o economista não acredita que Biden "terá a força política para reverter a tendência em favor do estabelecimento de parcerias público-privadas" em setores-chave da indústria.

    Nesse contexto, o plano de infraestrutura de Biden pode se converter em um grande repasse de recursos públicos para empresas privadas do setor.

    "Entre o que foi proposto por Biden e o que vai de fato ser aprovado no Congresso já tem mudanças. Entre aquilo que passa no Congresso e o que é implementado, teremos uma mudança maior ainda", alertou De Conti.

    Em 31 de março, a administração Biden apresentou projeto de investimento em infraestrutura que prevê investimentos de cerca de US$ 2 a 3 trilhões (entre R$10 e 15 trilhões). Parlamentares republicanos negociam a alteração em termos do projeto, principalmente no que se refere ao escopo e cronograma de investimentos.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    infraestrutura, China, Donald Trump, Partido Democrata, Partido Republicano, Joe Biden, ataques cibernéticos, EUA
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