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    O IBGE divulgou na última terça-feira (12) o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mostrou que a inflação no Brasil fechou o ano com o maior índice anual desde 2016.

    De acordo com o estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação oficial do Brasil ficou em 4,52% em 2020, acima da meta estabelecida pelo governo, que era de 4%. Entretanto, a inflação ficou dentro do limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), segundo o qual, o IPCA poderia ficar entre 2,5% e 5,5%.

    A economista e professora da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), Anapaula Iacovino, em entrevista à Sputnik Brasil, explicou que o ano de 2020 fechou com a inflação em alta por conta de um aumento na demanda, tanto na demanda interna, por conta do pagamento do auxílio emergencial, tanto na demanda internacional, por conta de um movimento chinês de recomposição dos estoques.

    Além disso, a valorização do dólar e a desvalorização do real fez com que os produtos brasileiros ficassem mais atraentes no mercado internacional, o que, de acordo com a especialista, gerou "um direcionamento por parte dos produtores de alimentos de exportarem a produção, então faltou produto no mercado interno em cenário de demanda aquecida por alimentos".

    Um dos aspectos que pressionou a subida da inflação foi o preço dos alimentos, que, de acordo com o IBGE, acumulou um aumento de 14,09% no ano, representando o maior índice desde 2002.

    "São várias as causas da inflação, mas uma que é dada como clássica, como muito importante é a de uma situação em que a demanda é maior do que a oferta. O que puxou mais a inflação nesse ano que se encerrou foi justamente a inflação nos preços dos alimentos", afirmou.

    Anapaula Iacovino destacou que a alta da inflação está intimamente ligada à pandemia da COVID-19. No mercado interno, o aumento da demanda por alimentos foi somado ao acesso ao auxílio emergencial.

    "Famílias que estavam com o consumo muito baixo tiveram acesso à essa renda, e aí a demanda maior foi por alimentos e justamente alimentos da cesta básica, então não sem razão, nós tivemos um aumento significativo no preço do arroz, do óleo de soja, do leite, frutas, batatas, quer dizer, são produtos que compõem a cesta de alimentos", observou a economista.

    "Além disso, a gente tem também o aumento dos gastos com habitação, principalmente o custo da energia elétrica, e este aumento é importante de ser registrado, porque aí a gente está falando de um custo que envolve não só os custos das famílias, mas das empresas também. Ou seja, o próprio processo produtivo se encarece quando há um aumento da energia", complementou.

    De acordo com a economista, o aumento significativo de 9,14% de 2020 implica aumento de custos de produção. "Pela regra geral da economia, quando há um aumento dos custos, a tendência é que as empresas repassem isso para os produtos e serviços, então isso impacta na geração da inflação", acrescentou.

    Impacto nos mais pobres

    Outro dado revelado pelo IBGE foi o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação percebida por famílias que têm renda entre um e cinco salários mínimos, registrando uma alta de 5,45% em 2020. No ano passado, este índice foi de 4,48%.

    A economista Anapaula Iacovino observou que quanto menor a renda, maior é o peso da alimentação na composição dos custos das famílias. "Se a gente está falando que os alimentos estão mais caros, a gente também está dizendo que as famílias comprarão menos alimentos", afirmou.

    Prateleira de supermercado mostra alta no preço dos pacotes de arroz no Brasil.
    © Folhapress / Genival Paparazzi/Photo Press
    Prateleira de supermercado mostra alta no preço dos pacotes de arroz no Brasil.

    De acordo com o estudo do IBGE, o INPC ficou acima do salário mínimo de R$ 1.100, que fechou o ano com um reajuste de 5,26%.

    "O salário mínimo foi ajustado abaixo da inflação, então isso significa que houve uma perda real da capacidade de compra do brasileiro. Quando a gente pensa no 'aumento', a rigor não é um aumento do salário mínimo, é uma reposição das perdas, mas à medida que essa reposição for menor do que a inflação do período, então significa que as perdas não serão totalmente repostas", explicou a especialista.

    De acordo com Iacovino, o brasileiro que ganha até um salário mínimo, que representa a maior parte da população, terá menor capacidade de compra e, com a alta nos preços dos alimentos, ele comprará também menos alimentos.

    "A parcela da população que mais sofre com a inflação é a população de baixa renda [...] Uma inflação de alimentos impacta duplamente, porque ela não só reduz a capacidade de compra dessas famílias, mas ela reduz ainda mais a capacidade de compra de alimentos. Então para além do econômico, o impacto social é muito forte, sempre leva a um aumento das estatísticas de pobreza do país", completou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    COVID-19, crise, pandemia, inflação, economia, Brasil, IBGE
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