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    O Banco Central do Brasil informou esta semana que sua estimativa de inflação para 2020 subiu de 2,1% para 4,3%. A Sputnik Brasil conversou com o economista André Braz para entender o significado desse aumento e o que esperar para 2021.

    Na última quinta-feira (17), o Banco Central informou que a sua estimativa de inflação para 2020 no Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), subiu de 2,1% - segundo a previsão divulgada em setembro deste ano - para 4,3%.

    A estimativa está acima da meta central de inflação, que é de 4%, mas dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, ou seja, entre 2,5% e 5,5%. 

    De acordo com o Banco Central do Brasil, os últimos resultados da inflação estiveram acima do previsto e, em dezembro, apesar da desaceleração esperada para os preços dos alimentos, o índice deve permanecer elevado. Contudo, o banco assinala que há indicadores que sugerem um "caráter temporário" para esse aumento de preços. 

    Para André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), a aceleração do IPCA no último trimestre de 2020 tem a ver com a persistência na alta de alguns alimentos importantes.

    "Com a aproximação do final do ano, as proteínas - carne bovina, suína e de aves – continuaram a subir, uma alta motivada pelo embarque, pois o Brasil está exportando muita carne para a China e desabastecendo o mercado interno, e também pelo aumento da demanda, o que é natural, pois o mercado já está se prevenindo para as festas de fim de ano", afirma o economista.

    Braz acrescenta que, em paralelo ao comportamento do preço das proteínas, também houve uma revisão na bandeira tarifária vigente nas contas de energia. "Ela passou de verde, sem cobrança de adicional, para a vermelha patamar dois, que é a cobrança máxima. Esse movimento trouxe um aumento de 12% em média nas contas de energia em todas as cidades do país, e só esse efeito responde por uma aceleração de meio ponto percentual no IPCA", explica.

    Além desse importante movimento, que já justifica boa parte do salto que a inflação acumulou em um espaço tão curto de tempo, Braz destaca o fim do desconto para algumas mensalidades escolares, depois que algumas instituições resolveram suspender o abatimento que concederam aos alunos na fase mais aguda da pandemia, e o aumento das passagens aéreas, de quase 30%, que respondem a uma demanda mais forte relacionada às férias de fim do ano, ainda que pese o início da segunda onda de COVID-19 no Brasil. 

    Braz também considera que, dado o resultado de novembro, quando a inflação foi de 0,89%, e a expectativa para dezembro, que é de um aumento de 1,30%, o IPCA pode inclusive superar o patamar de 4,3%, fechando em 4,5%, meio ponto percentual acima da meta antes estabelecida para 2020.

    O especialista do IBRE ressalta que o impacto desse aumento de preços é flagrante para o consumidor, pois o que mais puxou a inflação de 2020 foram os alimentos.

    "Se nos referimos aos consumidores de baixa renda, esse impacto é perverso, porque ele reduz muito o poder aquisitivo de famílias que foram mais diretamente afetadas pelo efeito da COVID-19 na economia. As famílias de baixa renda são aquelas que perderam o emprego, que têm uma dificuldade maior de recolocação profissional, então elas já vivenciam um aperto financeiro ditado pela falta de renda, e o que piora é que a alimentação básica, da qual ninguém pode abrir mão, também foi a vilã da inflação em 2020. Então, a sensação de que os preços subiram muito é até maior para as famílias que vivem o drama do desemprego", avalia Braz.

    De acordo com o Banco Central, no cenário de mercado, que envolve as projeções da taxa Selic e do câmbio feitas pelos bancos, a estimativa de inflação para os próximos dois anos é de 3,4%. Nos dados divulgados em setembro, a instituição previa uma inflação de 2,9% para 2021 e de 3,3% para 2022.

    No ano que vem, a meta central de inflação é de 3,75% e será oficialmente cumprida se o índice oscilar entre 2,25% e 5,25%. Em 2022, o objetivo central é 3,5%, com um piso de 2% e um teto de 5% por conta do intervalo de tolerância existente.

    André Braz acredita que, em 2021, haverá um espalhamento da inflação, com aumento nos preços de serviços que até se comportaram bem em 2020, como salões de beleza, oficinas mecânicas, clubes, cinemas, teatros, shows, hotelaria, todos estes serviços que são amplamente consumidos pelas famílias, justamente pela tendência de normalização do funcionamento dessas atividades.

    O economista do FGV IBRE também ressalta que há previsão de uma participação maior dos preços administrados, que são os preços controlados pelo poder público, como tarifas de transporte, água, energia, etc., além de uma expectativa de aumento dos bens duráveis, como eletroeletrônicos e automóveis, devido ao aumento muito grande dos preços de componentes usados na montagem desses bens.

    "O minério de ferro, por exemplo, subiu quase 90% em 2020 e ele impacta diretamente nos custos de produção de fogões, máquinas de lavar, geladeiras e automóveis e uma parte dessa pressão de custo pode se materializar em aumento de preços em 2021, dado que, já é possível observar neste final de ano uma pressão inflacionária maior para essa categoria de itens", opina.

    Para André Braz, as famílias que vão perder o auxílio emergencial provavelmente sentirão mais em 2021 os efeitos da inflação e do aumento recente nos preços dos alimentos.

    "Em 2021 não é esperada uma inflação tão alta quanto a deste ano, e em torno dos alimentos não se deve esperar também uma reversão nesse quadro. É provável que os alimentos continuem a subir no ano que vem, mas em um ritmo menor do que o observado em 2020, porque, para o próximo ano, não se prevê uma desvalorização cambial na magnitude que aconteceu neste ano. Então isso já deve trazer um alívio para o bom andamento dos preços entre os alimentos, mas, uma inflação mais baixa, não significa reversão da inflação acumulada em 2020. Portanto, a alimentação vai continuar sendo um desafio para as famílias", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    COVID-19, IPCA, alimentos, Brasil, inflação
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