04:55 15 Junho 2021
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    Por
    2101
    Nos siga no

    Depois de novas revelações sobre o suposto envolvimento da Abin na orientação da defesa de Flávio Bolsonaro no caso das "rachadinhas", a OCDE teria manifestado preocupação com o compromisso do governo brasileiro no combate à corrupção.

    Em reportagem publicada pela revista Época no último sábado (11), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria orientado a defesa do senador Flávio Bolsonaro (PSC-RJ) para conseguir a anulação do caso Queiroz.

    A revelação teria chamado a atenção de diplomatas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), conforme escreveu o UOL, sobre o compromisso do Brasil em relação ao combate à corrupção, que é um dos principais requisitos para ingressar no órgão internacional.

    O professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, em entrevista à Sputnik Brasil, lembrou que a entrada na OCDE esteve em pauta desde o início do governo Bolsonaro a fim de adequar as estruturas burocráticas brasileiras para ser um país mais aberto e mais liberal, modernizando o Brasil dentro de uma estrutura internacional.

    Em Brasília, o ministro da Casa Civil, general Braga Netto (à esquerda), o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (centro), e o ministro das Comunicações, Fábio Faria, participam de cerimônia com representantes da OCDE no Palácio do Itamaraty, em 26 de outubro de 2020
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Em Brasília, o ministro da Casa Civil, general Braga Netto (à esquerda), o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (centro), e o ministro das Comunicações, Fábio Faria, participam de cerimônia com representantes da OCDE no Palácio do Itamaraty, em 26 de outubro de 2020

    "A OCDE entrou muito cedo na agenda do Bolsonaro, principalmente por causa do [ministro da Economia] Paulo Guedes. A ideia é que seria um mecanismo internacional que obrigaria o Brasil a adotar certas premissas liberais, principalmente na economia, algumas mudanças estruturais no governo, que facilitariam a implementação dessa agenda", afirmou.

    De acordo com ele, a notícia sobre o suposto envolvimento da Abin com a investigação de Flávio Bolsonaro no caso das chamadas "rachadinhas" pode sugerir que o Brasil não estaria se adequando às rígidas estruturas burocráticas da OCDE.

    "Há uma ligação com o caso do Flávio Bolsonaro, porque a OCDE tem uma série de estruturas burocráticas e normativas sobre como os Estados devem se comportar no que diz respeito à transparência do governo e a maneira com a qual ele constrói estruturas de informação. Então pensando que a OCDE seria esse 'clube dos países ricos e democráticos', de alguma forma o Brasil estaria passando por cima desse tipo de prerrogativa e de dimensão", argumentou.

    O especialista observou que a OCDE entrou na agenda do governo porque o ingresso na organização serviria como uma espécie de "chancela ou a materialização" da nova relação do Brasil com os EUA.

    "Vale lembrar também que a OCDE entrou nessa agenda porque seria uma maneira do Brasil explicitar o apoio do governo norte-americano ao Bolsonaro, lembrando que Trump supostamente teria apoiado a entrada do Brasil, o que depois ficou um pouco esquisito, porque o Trump acaba preferindo a Argentina no primeiro momento", acrescentou.

    Já o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, disse à Sputnik Brasil que há também uma preocupação da OCDE em relação à questão do desenvolvimento sustentável, que significa um desenvolvimento econômico sem deixar de lado as questões sociais e, principalmente, as ambientais.

    De acordo com ele, o país tem uma imagem no exterior muito comprometida em relação às questões ambientais e de desenvolvimento humano, tendo em vista a enorme repercussão das "ações ou as omissões do governo na área ambiental, especialmente na Amazônia e no Pantanal".

    Fabrício Queiroz é escoltado pela polícia ao chegar no aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Fabrício Queiroz é escoltado pela polícia ao chegar no aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

    Para o cientista político, o caso que relaciona a Abin com a investigação das "rachadinhas" de Flávio Bolsonaro reforça a imagem negativa do Brasil no exterior, prejudicando as perspectivas do Brasil de entrar na OCDE.

    "O caso revelado, a respeito de dois relatórios da Abin, produzidos no bojo de órgãos oficiais do governo para a defesa do filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, no caso das rachadinhas, gera uma dúvida entre a separação da esfera pública e os interesses privados, dentro do governo ou mesmo nas instituições da democracia brasileira", disse.

    Rodrigo Prando declarou que "tudo isso, de certa maneira, acaba impactando a imagem do Brasil, então as perspectivas para o Brasil acessar a OCDE não são boas nesse momento".

    "Sem dúvida é mais um elemento somado à questão ambiental ou do desenvolvimento humano. Muitas vezes são as declarações do presidente, que foram contrárias à democracia e ao Congresso Nacional, tudo isso que foi noticiado impacta. E este caso da Abin é mais um que pode colocar obstáculos que podem se tornar intransponíveis do desejo do Brasil de acessar a OCDE", completou o cientista político.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Abin não produziu relatórios para livrar Flávio Bolsonaro, diz GSI
    Abin fez relatórios para defender Flávio Bolsonaro sobre 'rachadinha', diz revista
    OCDE revela queda recorde do PIB do G20: impacto da COVID-19 é 4 vezes pior do que a crise de 2009
    Agenda ambiental pode ser obstáculo entre Biden e Bolsonaro em relação à OCDE, diz especialista
    Tags:
    Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, OCDE, Abin, Brasil
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar