05:32 29 Setembro 2020
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    Todo dia 14 de agosto se noticia o Dia de Combate à Poluição, tema que atinge o mundo todo e que no Brasil apresenta avanços, ainda que em tempos de crise econômica e pandemia do novo coronavírus, de acordo com um especialista ouvido pela Sputnik Brasil.

    Ocupando a 112.ª posição em um ranking de saneamento entre 200 países, o Brasil é um dos cinco que mais descartam incorretamente lixo plástico no planeta. Apesar disso, o oceanógrafo e engenheiro ambiental David Zee, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) vê o país reunindo esforços para mudar isso.

    "O Brasil eu acredito que está começando a se preocupar com essa questão da poluição, porque existem indícios muito fortes de, por exemplo, o novo Marco do Saneamento Básico e ele é extremamente importante para a questão da saúde pública", afirmou à Sputnik Brasil, relembrando as medidas aprovadas pelo Congresso Nacional em junho.

    Zee destacou que muitas das principais doenças costumam ser transmitidas pela água, e a forte concentração populacional nas grandes cidades brasileiras, muitas delas cortadas por rios, acaba gerando não só poluição, mas problemas de saúde que, a curto, médio e longo prazo, geram encargos ao Sistema Único de Saúde (SUS).

    Poluição do ar
    © CC0 / Pixabay
    Poluição do ar

    "Sabe-se, é notório que cada real, cada dólar investido em saneamento básico e em prevenção representa cinco, seis vezes o valor aplicado em prevenção nessa questão de cura da doença. Então é muito importante a gente evitar que essa poluição se espalhe para que a gente possa minimizar os custos para a cura da doença", complementou o professor da UERJ.

    Com o Marco do Saneamento Básico, prosseguiu ele, será possível que em rios profundamente contaminados em áreas muito adensadas, se ataque exatamente a poluição que mais aflige uma vasta parcela da população brasileira, que mora em regiões onde "ninguém quer ir", conforme o engenheiro ambiental explicou.

    "Os principais impactos da poluição na condição de vida dos brasileiros são uma coisa terrível, principalmente nas grandes cidades [...]. É preciso que haja efetivamente uma atenção muito grande para essa questão do saneamento básico de forma que a gente minimize ou evite que a poluição se espalhe pelas grandes cidades brasileiras, onde estão completamente assim saturadas, com pessoas densamente ocupando zonas perigosas, principalmente zonas essas tomadas por água contaminada", afirmou.

    Plástico e consciência social contra poluição

    A gestão do ar e das águas não é o único problema da poluição dentro e fora do Brasil. Um ponto que preocupa ambientalistas e autoridades é o plástico, que integra a vida da humanidade desde o início do século XX, mas que passou a ser usado em larga escala apenas a partir das décadas de 1960 e 1970.

    De acordo com o especialista ouvido pela Sputnik Brasil, os oceanos no mundo todo vêm sofrendo muito com o uso amplo e irrestrito dos plásticos, que levam em média 100 anos para se decomporem completamente na natureza. Ele comentou que, além do impacto na vida marinha, o descarte do lixo plástico de maneira incorreta impacta a vida cotidiana.

    "A superfície dele é propícia para acumular bactérias e micro-organismos nocivos e isso afeta muito a questão da balneabilidade, da saúde das águas balneáveis das praias. O plástico inclusive entrou na pauta da ONU, onde se desenvolveu todo um plano estratégico para até 2030 erradicar plásticos e, principalmente, tomar conta de vários problemas ambientais pelo planeta e ela criou então os objetivos de desenvolvimento sustentável. O ODS 14 fala exatamente na vida dos oceanos, onde ela aponta o plástico como um dos principais vilões que ameaçam a vida no mar", ponderou.

    Em cidades sem litoral, medidas mais perceptíveis vêm sendo tomadas nos últimos tempos. Zee relembrou a ampliação de medidas contra, por exemplo, as sacolas plásticas em supermercados, que podem ter gerado uma crítica inicial, mas que vão ganhando corpo nas grandes capitais e em cidades médias.

    "Quanto à questão das sacolas plásticas, o Brasil já está dentro, nos seus municípios e nos seus estados, [de] um programa legislativo muito interessante, muito importante para a erradicação da sacola plástica. No Rio de Janeiro nós já temos esse programa ativo, onde nós percebemos que nos supermercados agora temos uma economia no uso desse plástico, cobrando-se até o uso desse plástico", disse ele.

    Para Sputnik Brasil, o analista fez questão de mencionar que o valor financeiro deve ser percebido como educativo, e não punitivo. O foco, continuou ele, é "valorar o cuidado que a gente deve ter com a natureza, na medida em que se começa a colocar um valor nesse plástico isso incute na consciência das pessoas o custo que você está pagando para poder erradicar, para poder fazer todo esse tratamento, esse recolhimento do plástico".

    Esgoto despejado diretamente no córrego do Canivete, no Jardim Damasceno, em São Paulo (arquivo)
    © Folhapress / Lalo de Almeida
    Esgoto despejado diretamente no córrego do Canivete, no Jardim Damasceno, em São Paulo (arquivo)

    O famoso canudinho plástico, antigamente tão comum em ambientes públicos, é o principal exemplo usado por Zee.

    "Não é justo por exemplo que um canudinho, que a gente usa por dois, cinco minutos e ele precisa de 100 anos para se decompor na natureza. É preciso que comecemos a mudar a postura, a sociedade tem um papel muito importante, vamos parar de usar o canudinho plástico, podemos usar o canudinho de metal e depois lavar, não usar mais o copo de plástico e usar um copo que possa ser lavável. Essas são questões muito importante que deveríamos contribuir e brigar de tal forma que a gente possa melhorar as condições do planeta erradicando essa poluição", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    UERJ, David Zee, meio ambiente, saúde, plástico, lixo, poluição, água potavel, água, saneamento, Brasil
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