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    Pandemia da COVID-19 e o mundo no início de maio (100)
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    Na opinião de dois especialistas, há várias empresas que estão rastreando informação privada de usuários de smartphones e fornecendo-as a governos usando a COVID-19 como pretexto.

    Empresas de ciberespionagem estão usando a pandemia do coronavírus como desculpa para vigiar cidadãos e ameaçar as liberdades civis, afirmaram à Spurnik Internacional o desenvolvedor e tecnólogo de web Chris Garaffa e a engenheira de software e analista de tecnologia e segurança Patricia Gorky.

    "Estamos vendo a crise do coronavírus sendo usada como uma forma de atacar ainda mais a privacidade e as liberdades civis, não apenas nos EUA [...] mas pelo mundo afora", disse Garaffa à agência na segunda-feira (4).

    Na quarta-feira (28), a Reuters publicou uma reportagem que descreve como pelo menos oito empresas de vigilância e inteligência cibernética ao redor do mundo estão "tentando vender ferramentas de espionagem e policiamento" para supostamente ajudar os governos a conter a disseminação da COVID-19.

    Duas das empresas especificamente mencionadas no relatório são as empresas israelenses Cellebrite e NSO Group.

    Saltando o sistema de segurança

    Garaffa observou que "há pelo menos seis outras empresas envolvidas com vários países ao redor do mundo", dizendo à Sputnik que a Cellebrite vende um dispositivo chamado GrayKey que é usado para extrair informações de celulares, contornando qualquer proteção por senha neles. O dispositivo é feito pela GrayShift, uma empresa forense norte-americana de dispositivos móveis.

    "No final das contas, o que o GrayKey da Cellebrite faz é obter uma cópia de tudo no seu aparelho. Agora pense no que está em seu celular. Não [são] apenas as fotos ou e-mails [...] Então, agora, a Cellebrite está oferecendo essas ferramentas para mais governos sob o pretexto de rastrear a disseminação da COVID-19."

    "Eles estão sugerindo aos governos que comprem esses GrayKey e outros dispositivos, e quando alguém é diagnosticado com o coronavírus ou morre dele, o governo realmente leva o telefone deles para que eles possam ver todas suas localizações", explicou Chris Garaffa.

    De acordo com o relatório da Reuters, um e-mail da Cellebrite para a polícia de Nova Deli, na Índia, neste mês, afirma que sua tecnologia pode ser usada para "colocar em quarentena as pessoas certas". Nesse caso, iria "sugar" as informações de localização e contatos de uma pessoa infectada, explica a Reuters.

    A Cellebrite disse ao governo indiano que esse processo normalmente só seria feito com o consentimento do proprietário do telefone. No entanto, se uma pessoa infectada violar a lei ao não seguir as diretrizes sobre ajuntamentos públicos, por exemplo, a polícia poderia usar as ferramentas da Cellebrite para invadir um telefone confiscado.

    © REUTERS / Albert Gea
    Estudante de El Masnou, Espanha, usa computador para estudar durante pandemia.

    "Não precisamos da senha do telefone para coletar os dados", escreveu um porta-voz da Cellebrite a um policial no dia 22 de abril em um e-mail obtido pela Reuters.

    Grupo NSO

    "O Grupo NSO vende um software chamado Pegasus para governos", observou Garaffa. "Há rumores de que eles os vendem para grandes corporações", explicou ele, acrescentando que ainda não há "nenhuma confirmação segura disso".

    "Mas o que Pegasus é, [ele] é uma coleção de ataques, e estes às vezes são chamados de dias zero, por que não são vistos na natureza", disse Garaffa. "Ninguém sabe deles até que você os veja. Então, o Grupo NSO, ao invés de compartilhar esses assuntos com o fabricante, eles os mantêm próximos e os mantêm em segredo para que o Pegasus possa usá-los para comprometer e tomar conta dos celulares das pessoas."

    "A situação da NSO é na verdade, para mim, pior. Ela tem estado envolvida na construção de uma enorme plataforma de rastreamento para o governo israelense. O Grupo NSO alega, e isso é meio controverso, que eles podem descobrir suas coordenadas a menos de um metro de onde você está e, se isso for verdade, isso é uma tecnologia bem avançada", observou Garaffa.

    O relatório da Reuters observa que o Grupo NSO está comercializando plataformas de rastreamento da COVID-19 para países da Ásia, América Latina e Europa. A tecnologia permitiria que os governos rastreassem aqueles com quem uma pessoa infectada esteve em contato nas semanas anteriores.

    Abuso de poder

    "Não há absolutamente qualquer transparência sobre os métodos usados pela NSO ou Cellbrite ou por qualquer uma das oito empresas mencionadas neste artigo", ressaltou Chris Garaffa, com o que Gorky concordou, acrescentando que tais empresas estão usando a COVID-19 como desculpa para "aprofundar a máquina de vigilância".

    David Miranda divulgando Tratado Internacional sobre direito à privacidade em conferência com Edward Snowden
    © AFP 2020 / Kena Betancur
    David Miranda divulgando Tratado Internacional sobre direito à privacidade em conferência com Edward Snowden

    Chris Garaffa considera que "essas empresas de vigilância" estão testando "diretamente sobre o povo palestino" para rastrear o que estão dizendo nas redes sociais, localizações, etc.

    "[...] E o fato de que essas empresas estão até mesmo sendo consideradas como possibilidades para combater o coronavírus mostra o fato de que não se trata de lutar contra a COVID. [O objetivo] é realmente aprofundar a máquina de vigilância e aumentá-la", observou Patricia Gorky.

    Embora o artigo da Reuters enquadre o conflito como uma questão entre direitos de privacidade e preocupações com a saúde, Garaffa acredita que há uma questão maior em jogo.

    "Os posteriores investimentos e uso dessas ferramentas só preparam o cenário para violações cada vez maiores da privacidade, tanto por parte de governos quanto de empresas, com a ajuda de todas essas empresas que estão envolvidas", observou Garaffa.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Pandemia da COVID-19 e o mundo no início de maio (100)

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