21:30 12 Agosto 2020
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    52411
    Nos siga no

    Num contexto de esforços globais para frear as mudanças climáticas, retaliar países que não contribuem para essa luta é válido. Porém, é muito difícil definir o que é razoável e justo, disse à Sputnik Brasil o pesquisador Sérgio Margulis.

    Recentemente, com os dados divulgados sobre o aumento das queimadas e do desmatamento na Amazônia, especulou-se sobre a possibilidade de investidores deixarem de enviar recursos ao Brasil.

    "Não é algo tão simples como parece. ‘Ah, não gostei da atuação do governo aqui e por isso vou retaliar comercialmente’. São decisões complexas, seja de governo ou empresas, que envolvem a Organização Mundial do Comércio e tratados", afirmou o doutor em Economia Ambiental e ex-funcionário do Banco Mundial.

    Em termos concretos, o grupo financeiro Norde Asset Management anunciou que colocaria em quarentena títulos da dívida soberana brasileira devido a riscos políticos e ambientais. O banco controla mais de 200 bilhões de euros em fundos. A varejista de moda H&M afirmou que não compraria mais couro brasileiro até ter certeza que não estaria contribuindo para a destruição da Amazônia.

    Além disso, a Noruega e a Alemanha congelaram suas contribuições para o Fundo Amazônia após o governo colocar em xeque a gestão do mecanismo. E alguns países europeus, como França e Áustria, ameaçam não ratificar o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia em função do desmatamento na Amazônia. 

    Para Margulis, desde que o governo de Jair Bolsonaro assumiu, a possibilidade de retaliação é aventada, já que o presidente tem uma "sinalização clara de que não tem compromisso com a questão climática e amazônica, ou até o contrário, teria compromisso no sentido de reverter tudo que foi feito no passado".

    'EUA e Brasil vão na contramão dos esforços globais'

    Por isso, avalia o especialista, algum tipo de resposta de outros países e empresas seria "válido" em relação ao Brasil, assim como aos EUA.

    "Os Estados Unidos, com Donald Trump, e o Brasil estão completamente na contramão do esforços globais contra a mudança climática, é sensato que exista algum tipo de penalização. Mas como fazer e contextualizar isso é o grande problema", afirmou o ex-presidente da Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Amiente), do Rio de Janeiro, atual Inea (Instituto Estadual do Ambiente).

    Margulis, no entanto, disse que é "difícil definir o que é justo, razoável e legal" no momento de se efetuar algum tipo de punição. "É preciso ter um fair play" nesse momento, acrescentou.

    Questão ambiental está em segundo plano na hora de investir

    O especialista também explica que a questão ambiental é levada em conta no momento de investidores pensarem em aplicar em outros países, mas apenas timidamente, ficando atrás de outros fatores.

    "Quando uma empresa vai fazer investimento em outro país, é fundamentalmente em função de mercado de trabalho, custo da mão de obra, existência de matérias primas, boa capacidade de fazer negócios. A questão ambiental é muito pequena nesse sentido. Mas não que não seja importante", disse.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    Ministra da Agricultura do Brasil diz que desmatamento não prejudicará acordos comerciais com EUA
    'Pauta antiambiental' de Bolsonaro contribui para desmatamento recorde, diz especialista
    Bolsonaro diz que desmatamento é 'cultural' e 'não vai acabar'
    Tags:
    meio ambiente, desmatamento, Mercosul, União Europeia, OMC, economia, comércio, Amazônia, Jair Bolsonaro
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar