14:45 17 Abril 2021
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    Pesquisa revela que a França subestimou sistematicamente o impacto de seus testes nucleares na Polinésia Francesa nas décadas de 1960 e 1970.

    Os arquivos Moruroa, uma colaboração entre a Disclose, programa da Universidade de Princeton em ciência e segurança global, e um coletivo de pesquisa ambiental, o Interprt, sugerem que o impacto dos testes nucleares conduzidos pela França na Polinésia Francesa em 1966, 1971 e 1974 foram muito maiores do que é reconhecido oficialmente.

    Os pesquisadores recalcularam a dose efetiva de radiação recebida pelos habitantes do Taiti e outras regiões da Polinésia Francesa com base em amostras coletadas pelos militares da época, incluindo a contaminação da nuvem atômica, a poeira tóxica no solo, a inalação de partículas contaminadas, e, principalmente, o consumo de água da chuva contaminada.

    A pesquisa entende que mais de 100.000 pessoas poderiam reivindicar indenizações se assim desejassem, e aponta que a França conduziu 193 testes nucleares de 1966 a 1996 nos atóis de Moruroa e Fangataufa na Polinésia Francesa, incluindo 41 testes atmosféricos até 1974, que expuseram a população local a altos níveis de radiação.

    Analisando os dados de 2.000 páginas de documentos do Ministério da Defesa francês recentemente liberados, os pesquisadores reconstruíram meticulosamente três testes nucleares importantes e suas consequências.

    Teste nuclear francês em Mururoa, na Polinésia Francesa, em 1970
    © AFP 2021
    Teste nuclear francês em Mururoa, na Polinésia Francesa, em 1970
    A modelagem dos arquivos das partículas radioativas da bomba Centaure - a última a explodir na atmosfera antes dos testes da França passarem para o subsolo - sugere que Paris, de fato, subestimou a contaminação do Taiti em até 40%.

    "O Estado tem se esforçado para enterrar a herança tóxica desses testes", disse Geoffrey Livolsi, editor-chefe do Disclose. "Esta é a primeira tentativa científica verdadeiramente independente de medir a escala dos danos e reconhecer as milhares de vítimas do experimento nuclear da França no Pacífico".

    Usando dados meteorológicos, arquivos militares e registros científicos sobre o tamanho da nuvem de cogumelo radioativo da arma, a equipe planejou sua passagem sobre o Taiti e os 80.000 habitantes de Papeete, capital da Polinésia Francesa.

    A nuvem foi prevista para seguir para o norte, mas nunca atingiu a altura prevista de 9.000 metros. Ao invés disso, permaneceu em cerca de 5.200 metros. Com isso, cerca de 11 mil vítimas dos testes receberam doses de radiação superiores a cinco milisieverts (mSv): cinco vezes o nível qualificado para indenização, desde que posteriormente contraíssem certos tipos de câncer.

    Câncer de tireóide, garganta e pulmão, bem como casos de leucemia e linfoma e doenças ósseas e musculares relacionadas ao envenenamento por estrôncio e césio, continuam prevalentes nas ilhas, dizem os pesquisadores, citando entrevistas com vários habitantes.

    Os pesquisadores também citam uma troca confidencial de e-mails datados de 2017, na qual o Exército francês reconhece, supostamente pela primeira vez, que até 2.000 dos 6.000 militares baseados na Polinésia Francesa e envolvidos nos testes contraíram pelo menos uma forma de câncer.

    Nuvem após teste nuclear americano em 17 de janeiro de 1962
    © East News / USA/Science Photo Library
    Nuvem após teste nuclear americano em 17 de janeiro de 1962

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    Tags:
    ogiva nuclear, teste nuclear, arma nuclear, impacto, Polinésia Francesa, testes nucleares, câncer, radiação, França, bomba nuclear
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