07:47 05 Abril 2020
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    Uma intervenção policial que terminou com duas mulheres brasileiras agredidas depois de uma festa de carnaval em Lisboa resultou em ação de deputados no parlamento de Portugal.

    Parlamentares do Bloco de Esquerda questionaram formalmente o Ministério da Administração Interna, responsável pela gestão da Polícia de Segurança Pública (PSP), sobre quais medidas serão tomadas para apuração dos fatos. No texto, o partido considera que os agentes da PSP agiram de forma "violenta" contra as duas mulheres, com uma conduta "agressiva e excessiva", que "não é justificável nem tolerável".

    O caso ocorreu na noite do último domingo (23) e ganhou repercussão ao longo da semana em Portugal. Vídeos compartilhados em redes sociais mostram trechos da intervenção de um grupo de cerca de seis policiais na rua próxima ao bar onde tinha sido realizada a festa.

    A primeira vítima tem 28 anos, é estudante de graduação e mora em Portugal há três anos. Ela prefere não ser identificada, mas conta à Sputnik Brasil que os policiais chegaram por volta de 21h, quando ainda havia gente na rua.

    "Ninguém entendeu, pois não estava havendo confusão. Eu estava com uma amiga e ela foi perguntar ao policial o que estava acontecendo. Ele respondeu que a nossa festa tinha acabado, mas agora a deles ia começar. Depois disso começou a pancadaria, eles começaram a bater nas pessoas com cassetetes", disse.

    A estudante conta que não demorou muito para que fosse atingida.

    "Eu estava andando normal na rua, para sair, quando levei uma cacetada no braço. Nem vi de onde veio. Estava com um copo de plástico na mão e meu reflexo foi jogá-lo para me defender. O copo foi em direção aos agentes. Já tinham me acertado e depois que o copo voou ele (um policial) veio com tudo na minha cabeça com o cassetete. Nessa pancada, minha cabeça já abriu, e ele vinha pra me bater mais, só não conseguiu porque eu segurei o cassetete com as duas mãos. Então ele me pegou pelo pescoço. Daí acho que desmaiei, porque eu não vi a Taiane nem escutei o tiro", acrescentou.
     

    A estudante é a que aparece no vídeo usando uma camiseta rosa. Taiane Barroso, de 33 anos, editora do jornal de uma associação comunitária em Lisboa e residente em Portugal há dois anos é a segunda vítima, que aparece fantasiada de abelha.

    "A gente tava conversando, bem feliz, fim de carnaval. Tava bem cheio, porque a festa extrapolou para a rua. Eles [policiais] chegaram e começaram a desobstruir a rua, mas sem pedir, já batendo com o cassetete. Passaram alguns ônibus de turismo, vazios. Nisso as pessoas foram ficando apertadas no beco e eu ouvi uma gritaria e uma mulher caída no chão. Eram cinco policiais em cima de uma mulher. E em volta dela, eles fizeram um círculo, e ninguém conseguia chegar até ela. Eu furei essa barreira e abracei ela", conta Taiane à Sputnik Brasil.

    Como mostra o vídeo, Taiane foi imobilizada pelo pescoço e depois derrubada no chão. Logo em seguida, vê-se o policial efetuando um disparo para cima.

    "Ele estava claramente desorientado. Depois foram me empurrando até o outro lado, vários homens tentaram falar com eles, dizendo 'peraí, nada a ver'. Fiquei em estado de choque e comecei a chorar falando 'levaram ela'. Meu amigo me tirou muito rápido de lá e a área já tinha esvaziado", diz Taiane.

    Depois da confusão, a estudante conta que foi colocada pelos policiais em uma ambulância que passava pelo local e levada para um hospital. "Me algemaram dentro da ambulância. Eu perguntava por que fizeram isso comigo e eles ficavam calados", conta. 

    No hospital, diz ter recebido apenas cuidados básicos no ferimento da cabeça. Em seguida, foi levada para uma delegacia, autuada por agressão contra policiais e orientada a comparecer no dia seguinte em tribunal. Ao chegar lá, foi informada de que a denúncia será arquivada.

    Ferimentos em estudante brasileira causados por intervenção policial em Lisboa
    © Foto / cedida por Taiane Barroso
    Ferimentos em estudante brasileira causados por intervenção policial em Lisboa

    As duas vítimas se reencontraram dois dias depois. Taiane acompanhou a estudante para um novo atendimento no hospital. "No primeiro não fizeram nenhum exame. Ela precisava de raio-x e tomografia, voltamos por isso. Os hematomas dela estão piorando. Eu fiz raio-x", conta Taiane.

    Justificativa

    Em nota enviada à Sputnik Brasil, o Comando Metropolitana de Lisboa, unidade da PSP, diz que foi chamado ao local por causa de "distúrbios, ruído e ocupação da via pública com impedimento da normal circulação de pessoas e viaturas". O texto diz que as pessoas subiam nos veículos que tentavam passar, situação que "para além de provocar danos nas viaturas que passavam, era claramente perigosa para a integridade física de todos os cidadãos presentes".

    "Reunidas as condições para efetuar uma intervenção com segurança, foi o grupo advertido que deveria desobstruir a via. Em função do incumprimento generalizado da advertência, foi necessário repor a ordem para desobstruir a via, recorrendo ao uso da força para fazer dispersar as pessoas. Durante este processo, uma mulher agrediu um polícia, razão pela qual foi manietada e detida", lê-se na nota.

    De acordo com a nota, o tiro foi dado por causa das tentativas de impedir a detenção da estudante, além do "incumprimento reiterado das ordens que estavam a ser transmitidas e da hostilidade dessas pessoas para com os policiais, foi efetuado um disparo de advertência para o ar, em segurança, que permitiu cessar os comportamentos hostis e efetuar a detenção da agressora".

    No questionamento para o Ministério da Administração Interna, o Bloco de Esquerda considera que o disparo "parece configurar uma evidente violação dos princípios da necessidade e da proporcionalidade que devem reger o uso de armas de fogo pelas forças de segurança e que constam do respetivo regime jurídico".

    Caso semelhante

    No dia 19 de janeiro, um outro caso gerou repercussão. Cláudia Simões, mulher negra com dupla nacionalidade, angolana e portuguesa, foi detida com violência por um agente da PSP chamado pelo motorista de um ônibus, porque Cláudia não pagou a passagem da filha.

    A mulher conta ter sido espancada ainda depois da detenção, dentro da viatura, enquanto era levada para a delegacia.

    ​O caso de Cláudia está sendo investigado, por ordens do Ministério da Administração Interna, e já houve manifestações públicas de apoio à mulher.

    As duas brasileiras, assim como Cláudia, estão sendo acompanhadas por entidades de apoio à vítimas e pretendem avançar com denúncias contra a polícia. "Eu pensei que ia morrer", diz a estudante. "A gente vai entrar com uma queixa para que sejam punidos e haja justiça. Todas as pessoas que me veem ficam horrorizadas com meu estado. É inaceitável", completou.

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    Tags:
    violência policial, carnaval, Lisboa, Portugal
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