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    Um dos festivais mais renomados da Sétima Arte entra em sua 74ª edição e conta com interessantes participações brasileiras. A Spuntik Brasil conversou com o cineasta Sacha Amaral, que concorre esse ano com o curta "Billy Boy".

    Retomando as atividades após uma pausa forçada em 2020 por conta da pandemia, o tradicional Festival de Cannes acontece de 6 a 17 de julho na França e celebra sua 74º edição. Este ano, o Brasil está presente tanto no júri como na programação oficial e competição.

    O júri oficial conta com o cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho, diretor de "Aquarius" e "Bacurau", sendo o último premiado na edição de 2019 do festival.

    A presidência do júri é comandada pelo diretor norte-americano Spike Lee, e também serão juradas as diretoras Mélanie Laurent, Jessica Hausner, Mati Diop, a atriz Maggie Gyllenhaal e a cantora Mylene Farmer.

    Júri oficial do 74ª Festival de Cannes. Kleber Mendonça (último a esquerda) e Spike Lee (no centro), posam com Melanie Laurent, Mati Diop, Jessica Hausner e Mylene Farmer, Cannes, França, 6 de julho de 2021
    © REUTERS / JOHANNA GERON
    Júri oficial do 74ª Festival de Cannes. Kleber Mendonça (último a esquerda) e Spike Lee (no centro), posam com Melanie Laurent, Mati Diop, Jessica Hausner e Mylene Farmer, Cannes, França, 6 de julho de 2021

    Em uma das categorias oficiais destinada a novos diretores ainda estudantes, a "Cinéfondation", o curta-metragem "Billy Boy", do diretor e roteirista brasileiro Sacha Amaral, foi selecionado.

    Radicado na Argentina, Amaral representará a Universidad Nacional de las Artes de Buenos Aires. A categoria premiará com primeiro, segundo e terceiro lugar. "Billy Boy" conta uma história de relações líquidas. O personagem Alejo busca preencher seu vazio sentimental com namoros através de aplicativos e encontro às cegas.

    A Sputnik Brasil conversou com o cineasta para saber mais sobre o filme, sobre como é fazer cinema independente nos dias de hoje e as expectativas em torno da premiação. 

    Cinema independente

    Amaral conta que esse não é o seu primeiro curta, e sim o terceiro, mas foi em "Billy Boy" que o diretor teve a chance de trabalhar com mais liberdade, podendo dirigir da forma como idealizou, além da equipe ter sido constituída por profissionais amigos, o que resultou na qualidade final.

    "Foi um filme que todo mundo queria fazer, estávamos muito felizes, foi um filme honesto e sincero", contou o diretor.

    "Billy Boy" foi produzido de forma independente, e a primeira questão que se aponta em filmes com essa característica é o fato de o orçamento ser mais restrito. Entretanto, Amaral afirma que se a equipe se une, através do diálogo e da sensibilidade, acaba que esses ingredientes se tornam mais fortes do que os desafios do orçamento.

    "Quando uma equipe forte se arma e a sensibilidade é compartilhada, eu acho que é possível dialogar e chegar a bons resultados, como expertise técnica, uma boa foto, luz […] e a atmosfera que imprime essa sensação da fotografia [do filme] tão delicada", disse Amaral.

    Ainda sobre a equipe, o cineasta conta que a maior parte do time era composta por brasileiros, o que acabou gerando "um curta com traços de identidade brasileira" e que na sua visão é "muito bom ser um brasileiro fazendo filmes na Argentina", já que o intercâmbio Brasil-Argentina na Sétima Arte é forte.

    Como exemplo, Amaral recorda o prestigiado clássico "Pixote – A Lei do Mais Fraco", de 1981, longa-metragem brasileiro realizado pelo saudoso diretor argentino Hector Babenco.

    O diretor brasileiro do curta Billy Boy, Sacha Amaral
    O diretor brasileiro do curta "Billy Boy", Sacha Amaral

    Cannes e pandemia

    Sobre o contexto pandêmico, o diretor diz que foi "uma loucura" conseguir chegar até o festival. Primeiro ele teve que cumprir quarentena de dez dias em Paris, pois era a única forma de conseguir entrar, já que a Argentina está na lista dos países vermelhos.

    Além da quarentena, o diretor teve que tramitar documentos ligados à questão na embaixada para receber autorização.

    O cineasta também conta que mesmo mantendo as grandes proporções já conhecidas, o festival receberá menos pessoas esse ano, e que quem não estiver totalmente vacinado será submetido a exames de dois em dois dias para testar a COVID-19.

    Expectativas para competição

    Amaral afirma que tem grandes expectativas em torno da competição e acha que vai ser muito importante poder mostrar o filme para outras pessoas.

    Ao mesmo tempo, a participação no festival será preciosa para conversar com outras pessoas do meio, já que o diretor está produzindo novo curta através de sua produtora Montserrat Cine.

    O curta terá uma narrativa parecida com a de "Billy Boy", que "é esse divague ou eterna condenação das relações líquidas, como as pessoas se relacionam hoje em dia e a solidão nas cidades", conta o cineasta.

    O diretor e roteirista Sacha Amaral
    O diretor e roteirista Sacha Amaral

    Premiação na Rússia

    Em 2017, Amaral foi roteirista do filme "Adeus Entusiasmo" selecionado no Festival Pacific Meridian que acontece, desde 2003, em Vladivostok na Rússia. O longa ganhou o prêmio de "Melhor Diretor", através da direção do colombiano Vladimir Durán.

    Amaral relata que foi uma participação muito especial, já que o filme foi rodado na Argentina, e o festival abarca apenas produções realizadas no Pacífico. No entanto, através de uma ajuda financeira da Colômbia, país de origem do diretor Dúran, foi possível a participação.  

    O cineasta diz torcer para que haja alguma mudança na característica do festival de receber apenas filmes do Pacífico, pois seus filmes são rodados no Atlântico, mas ele teria muita vontade de concorrer novamente com uma nova produção.

    Além da participação em Vladivostok, existe outro elemento russo presente na inspiração de Amaral em sua jornada cinematográfica que é o cineasta russo Aleksandr Sokurov.

    "Os filmes de Sokurov me interpelam e me atravessam, são muitas histórias, sensações, então na verdade Sokurov é um diretor que me interessa muito", afirmou.

    O diretor russo Aleksandr Sokurov (ao centro) e os atores de seu filme Pai e filho, durante a 56º edição do Festival de Cinema de Cannes (foto de arquivo)
    © AP Photo / MICHEL EULER
    O diretor russo Aleksandr Sokurov (ao centro) e os atores de seu filme "Pai e filho", durante a 56º edição do Festival de Cinema de Cannes (foto de arquivo)

    Brasil na 74ª edição

    Esse ano, o Brasil não concorre com nenhum filme na premiação máxima que é a "Palma de Ouro" de longa-metragem, mas concorre na mesma categoria com filmes de curta-metragem. São eles "Sideral", dirigido por Carlos Segundo e "Céu de Agosto", de Jasmin Tenucci.

    Na seção "Cinéfondation", a qual Amaral concorre com "Billy Boy", outro curta brasileiro também está na categoria: "Cantareira", de Rodrigo Ribeyro, que representará a Academia Internacional de Cinema de São Paulo.

    Na categoria "Sessões Especiais” está "O Marinheiro das Montanhas" de Karim Ainouz. Em 2019, Ainouz ganhou o prêmio da sessão paralela do festival chamada "Um certo Olhar" pelo filme "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão".

    O único longa-metragem brasileiro em Cannes feito sem coprodução internacional é "Medusa", da carioca Anita Rocha da Silveira, que participa da sessão "Quinzena dos Realizadores".

    A produtora do filme, Vania Catani, afirmou que "esse é o único [filme] puro-sangue brasileiro em Cannes, e feito por uma equipe quase toda de mulheres brasileiras", afirmou a produtora citada pela Folha de São Paulo.

    Prêmios brasileiros em Cannes

    O renomado Festival de Cannes aconteceu pela primeira vez em 20 de setembro de 1946, e desde então, é um dos mais prestigiados e famosos festivais de cinema do mundo.

    Ao longo das edições, até hoje, o Brasil ganhou o prêmio máximo da "Palma de Ouro" de longa-metragem uma vez em 1962 com o filme "O Pagador de Promessas", de direção de Ancelmo Duarte.

    O cineasta brasileiro Anselmo Duarte exibe, em Santos (SP), a Palma de Ouro que ganhou no Festival de Cannes de 1962 com o filme O Pagador de Promessas (foto de arquivo)
    © Folhapress / Banco de Imagens
    O cineasta brasileiro Anselmo Duarte exibe, em Santos (SP), a Palma de Ouro que ganhou no Festival de Cannes de 1962 com o filme "O Pagador de Promessas" (foto de arquivo)

    Em 1969, o prêmio de "Melhor Diretor" também já foi concedido ao Brasil através da direção de Glauber Rocha no filme "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro".

    O país já levou outros prêmios, como o de "Melhor Atriz", duas vezes: o primeiro pela interpretação de Fernanda Montenegro em "Eu Sei que Vou te Amar" em 1986 e o segundo em 2008, pela atuação de Sandra Corveloni em "Linha de Passe".

    Em 2019, "Bacurau" de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ganhou na categoria "Prêmio do Júri". Entretanto, em 2016, Kleber Mendonça já havia concorrido com o filme "Aquarius" na categoria "Palma de Ouro", mas não levou o prêmio para casa.

    Elenco do filme Aquarius, com Sônia Braga (última à direita) segura cartazes protestando contra o cenário político no Brasil no 69º festival internacional de cinema, Cannes, 17 de maio de 2016
    © REUTERS / Lionel Cironneau
    Elenco do filme "Aquarius", com Sônia Braga (última à direita) segura cartazes protestando contra o cenário político no Brasil no 69º festival internacional de cinema, Cannes, 17 de maio de 2016

    Na época, os atores que participaram de "Aquarius", como Sônia Braga, aproveitaram a sessão de gala para mostrar ao mundo sua indignação diante dos acontecimentos políticos do Brasil daquele momento, protestando contra o impeachment da então presidente Dilma Rusself, conforme noticiado.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    arte, Brasil, Festival de Cannes, Cinema
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