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    Brasil lidando com COVID-19 no início de junho de 2021 (42)
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    O número de jovens no Brasil está em queda "acelerada". É o que mostra pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A Sputnik Brasil conversou com o responsável pelo relatório.

    Intitulada "Jovens: Projeções Populacionais, Percepções e Políticas Públicas", a complexa pesquisa foi divulgada na semana passada e reuniu dados sobre jovens de 15 a 29 anos de idade. Para Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da FGV, a redução é preocupante.

    "O Brasil tem uma proporção de jovens parecida com a do mundo hoje, mas vai cair duas vezes mais rápido nos próximos 35 anos e o impacto é faltar mão de obra. É talvez pela primeira vez na história brasileira que vai faltar população jovem [...] Vai limitar o potencial de crescimento do Brasil. O bônus demográfico que soprava a favor do crescimento brasileiro começa agora a soprar contra", diz o pesquisador.

    Para Neri, a tendência brasileira só é comparável, no momento, à da China. Pelas estatísticas levantadas pela FGV, este ano a população jovem brasileira vai ser de menos de 50 milhões de pessoas e, até o final do século, o número vai cair para 25 milhões. "É uma tendência muito acelerada", diz.

    Trabalhador informal trabalha engraxando sapatos em Brasília, no Distrito Federal.
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Trabalhador informal trabalha engraxando sapatos em Brasília, no Distrito Federal.

    Insatisfação com a vida

    A pesquisa também traz um retrato da satisfação dos jovens brasileiros com a vida. "A quantidade de sensações negativas já desde antes da pandemia vinha aumentando, como a raiva, por exemplo", diz Neri, ressaltando que, em comparação com outros períodos negativos da recente realidade  brasileira, foi a pandemia que mais piorou o quadro.

    Em 2020, para 59% dos entrevistados havia algum motivo de preocupação no dia anterior, mostra a pesquisa. O percentual foi um novo recorde. Em 2019, os jovens que relataram estar preocupados eram 50% e, entre 2015 e 2018, o número estava em 44%.

    A satisfação com a qualidade da educação caiu também. Em 2020, 41% dos entrevistados disseram estar satisfeitos com o sistema de ensino, contra 56% em 2019. "Isso é uma queda, durante a pandemia, quatro vezes maior do que a queda de uma média de 40 países", diz o pesquisador.

    Da mesma forma, caiu a satisfação com a proteção ambiental, revela o pesquisador: menos de 19% dos jovens estão contentes com a mesma.

    Neri frisou também a queda de confiança dos jovens brasileiros nas instituições do país, com uma média mais baixa do que a mundial.

    "Esse é um processo que vem acontecendo desde 2013, nas manifestações que houve no Brasil, é uma coisa bastante clara", explicando que a confiança dos jovens no governo federal, honestidade das eleições, medo de violência - "todos esses pontos pioraram muito".

    Embora o medo de crimes tenha diminuído entre os jovens durante a pandemia do novo coronavírus, Marcelo Neri explica que "houve uma espécie de troca", já que sensações como "preocupação e raiva" pioraram.

    Jovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020
    © AP Photo / Andre Penner
    Jovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020

    "O Brasil aumentou muito a quantidade de sensações negativas [...]. E durante a pandemia piorou também as sensações positivas, como alegria ou a própria satisfação com a vida."

    'Brasileiro, profissão esperança'

    Entretanto, o analista confessa que, ao longo de 15 anos acompanhando as estatísticas, há um otimismo paradoxal do jovem brasileiro mesmo nas situações mais difíceis que não deixa de surpreendê-lo.

    "É um dado meio paradoxal. Se você perguntar para um brasileiro essa pergunta de satisfação com a vida daqui a 5 anos, o brasileiro durante 9 anos foi o primeiro lugar do ranking global [...]. E o brasileiro estava [nos primeiros lugares] mesmo durante a recessão, nunca passou do terceiro lugar. Então esse 'Brasileiro, profissão esperança', é uma coisa resiliente no Brasil, mas leva a uma grande capacidade de frustração, e o jovem brasileiro em particular. Então o jovem brasileiro ele dá uma nota, agora, durante a pandemia, deu uma nota de 8.9 daqui a cinco anos em média [na escala de 0 a 10] e isso é sistemático. Então eu acho que ajuda a pegar certos padrões culturais".

    O analista finalizou, dizendo que, apesar do otimismo geral do brasileiro, ainda há muita coisa para melhorar no país, como a proteção do meio ambiente, a educação, para que este otimismo tenha bases. 

    "Eu acho que algumas coisas preocupam, como a questão do meio ambiente, que definirá o meio no qual [a geração jovem] vai estar fisicamente daqui há alguns anos. A educação, que é estratégica. Foi uma queda muito grande. E tem mais uma coisa: a própria educação no Brasil avançou nos últimos 40 anos, mas a produtividade não. Então o Brasil tem essas dificuldades. Acho que se a gente fizer a coisa certa dá para ser otimista, mas a gente tem que fazer a coisa certa. É um otimismo condicionado no máximo", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil lidando com COVID-19 no início de junho de 2021 (42)

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    Tags:
    FGV, educação, jovem, jovens, novo coronavírus, pandemia, COVID-19, Brasil
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