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    O número de jovens que nem estudam, nem trabalham atingiu alta histórica de 29,33% em meio à pandemia de COVID-19. Como reverter esse quadro e quais os impactos dessa desocupação para o futuro do Brasil?

    Pesquisa recente do instituto FGV Social mostra que o número de jovens que nem estudam, nem trabalham, os chamados "jovens nem-nens", atingiu recorde histórico durante a pandemia. A partir do último trimestre de 2019, a taxa de nem-nens, que se encontrava em 23,66%, saltou para 29,33%.

    Apesar da retração deste percentual para 25,52% em 2020, a alta taxa de desocupação na juventude brasileira aponta para graves problemas, tanto do ponto de vista social quanto econômico.

    "Este dado é bastante preocupante, dado que a nossa juventude é relativamente grande: são quase 50 milhões de pessoas [na faixa etária entre] 15 a 29 anos", explicou o diretor do FGV Social, Marcelo Neri, à Sputnik Brasil. "Essa não é só uma situação difícil para eles, mas também para todo o país."

    De acordo com o pesquisador, o número de jovens nem-nens "é uma medida de exclusão de atividades básicas fundamentais, é uma medida de pobreza".

    Pessoas aguardam despejo de ocupação na cidade do Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2020
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Pessoas aguardam despejo de ocupação na cidade do Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2020

    "Muitos jovens nem-nens estão em comunidades de baixa renda, somente nas periferias eles são 27%", alertou Neri. "O jovem que não investe em educação vai ficar com o futuro comprometido [...] e se ele não trabalha, não conseguirá ter renda."

    Apesar da preocupação imediata com essa categoria, principalmente durante a pandemia, as consequências deste aumento devem ser sentidas também a longo prazo.

    "Diversos estudos mostram que o efeito de uma grande recessão, como a que a gente está vivendo agora [...] deixa marcas. Porque é uma fase de ascensão trabalhista na vida do jovem, que sobe na vida até os 40, 50 anos", disse Neri.

    Quando a situação socioeconômica "impõe uma espécie de teto de vidro, você limita esse desenvolvimento, e isso gera cicatrizes que são difíceis de serem curadas", lamentou o especialista.

    Evasão escolar

    A pesquisa do FGV Social traz alguns dados surpreendentes, como a queda na evasão escolar durante a pandemia.

    De acordo com o instituto, a taxa de evasão atingiu seus níveis mais baixos da série histórica em todas as faixas etárias durante a crise sanitária.

    Alunos entrando em escola municipal na zona oeste de São Paulo, em 30 de novembro de 2017
    © Folhapress / Simon Plestenjak / UOL
    Alunos entrando em escola municipal na zona oeste de São Paulo, em 30 de novembro de 2017

    O número, no entanto, segue elevado: entre alunos de 15 e 29 anos, a evasão escolar em 2020 ficou em 57,59%, uma queda de cerca de quatro pontos percentuais em relação a 2019.

    "A evasão escolar cai talvez não pelas melhores razões. O que pode explicar [esse fenômeno] é o jovem não ter outra oportunidade, e por isso se apegar à instituição de ensino, à falta de cobrança de presença e mesmo à aprovação automática", elencou Neri.

    Segundo ele, no entanto, a pandemia forneceu uma oportunidade para que se invista em inclusão digital, que teria gerado resultados positivos para a manutenção dos jovens nas instituições de ensino.  

    "A inclusão digital é a cara do jovem, ele tem facilidade", disse o pesquisador. "Temos uma oportunidade institucional de promover essa inclusão, com o envio de conteúdos digitais."

    Além da inclusão digital, serão necessárias políticas públicas para reinserir o jovem nem-nem na sociedade de forma adequada.

    Jovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020
    © AP Photo / Andre Penner
    Jovem olha pela janela na comunidade Dique da Vila Gilda, Santos (SP), 8 de julho de 2020

    "Acho que seria importante a implementação de algum tipo de subsídio ao emprego do jovem [...] para que ele estude uma jornada razoável que possa ser conciliada com o trabalho", acredita Neri.

    Ele alerta, no entanto, que é "necessário olhar os tons de cinza: não é adequado para o jovem trabalhar oito horas e estudar. Isso não vai ser bom para os estudos".

    Blecaute de dados

    Para que políticas específicas sejam formuladas para os nem-nens, é importante manter os dados sobre essa categoria atualizados.

    No entanto, a aprovação do orçamento de 2021, adiou a realização do censo em um ano, o que pode fragilizar a base de dados tão necessária para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade social no Brasil.

    Para Neri, o cancelamento deste tipo de iniciativa "afeta muito a qualidade da pesquisa, uma vez que o censo dá a base para o plano amostral, no qual as pesquisas do IBGE e de outras instituições são feitas".

    "Estamos em um voo cego em plena pandemia", disse o pesquisador. "Precisávamos da retomada da pesquisa PNAD COVID-19, que foi interrompida em novembro".

    A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) COVID-19, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), foi realizada de maio a novembro de 2020, com o intuito de "estimar o número de pessoas com sintomas associados à síndrome gripal e monitorar os impactos da pandemia da COVID-19 no mercado de trabalho brasileiro", explica o IBGE.

    Pessoas em ônibus lotado em meio à pandemia, no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021
    © AP Photo / Bruna Prado
    Pessoas em ônibus lotado em meio à pandemia, no Rio de Janeiro, 30 de março de 2021

    Marcelo Neri está confiante, no entanto, que o censo será realizado em 2022, o que pode amenizar o "blecaute de dados" brasileiro.

    Até então, nos resta fazer votos para que os jovens nem-nens encontrem as condições necessárias para "investirem no futuro através da educação", ou "colherem seus frutos através do trabalho", concluiu Neri.

    Em maio de 2020, o instituto FGV Social, ligado à Fundação Getúlio Vargas, publicou a pesquisa "Juventudes, Educação e Trabalho: Impactos da Pandemia nos Nem-Nem", acusando aumento histórico na taxa de jovens brasileiros que nem estudam, nem trabalham.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    emprego, COVID-19, pandemia, Brasil, juventude, pesquisa, FGV
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