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    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)
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    O presidente Jair Bolsonaro quer envolver o Exército nas campanhas de vacinação no Brasil. Será que é uma boa ideia usar os militares em qualquer situação de crise? Especialista ouvido pela Sputnik comentou o assunto, e disse estar preocupado com uma ruptura institucional.

    O apreço de Jair Bolsonaro pelo Exército do Brasil não é recente. Quando deputado, o atual presidente era visto como um defensor do corporativismo militar. Uma vez eleito chefe de Estado, no início de 2019, Bolsonaro logo inflou seu governo com a presença de oficiais das Forças Armadas.

    Em julho de 2020, o TCU projetou que havia 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos civis no governo. No último dia 6, a Folha de São Paulo reportou que, com a chegada do general Joaquim Silva e Luna na Petrobras, o número de militares na cúpula das maiores estatais com participação da União consolidará uma marca história: 92 cargos.

    Ao que tudo indica, o Exército brasileiro é uma nova espécie de Posto Ipiranga do governo, responsável pela resposta de todas as crises no Brasil. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro disse que militares poderão auxiliar na imunização da população, ampliando o leque de atribuições das Forças Armadas.

    Para Márcio Coimbra, cientista político e coordenador na Faculdade Presbiteriana Mackenzie, em Brasília, a ajuda dos militares na questão da vacinação é um bom indicativo. O especialista ressaltou, contudo, que é preciso "ter muito cuidado em relação a esta aproximação" do governo federal com o Exército.

    O presidente Jair Bolsonaro participa da entrada solene dos novos alunos pelo portão da Escola Preparatória de Cadetes (EsPCEx), em Campinas, interior de São Paulo.
    © Foto / Isac Nóbrega/Divulgação/Presidência da República
    O presidente Jair Bolsonaro participa da entrada solene dos novos alunos pelo portão da Escola Preparatória de Cadetes (EsPCEx), em Campinas, interior de São Paulo.

    Crise de vacinas? Militares na imunização

    Em entrevista à Sputnik, Márcio Coimbra fez uma série de alertas sobre o excesso de militares em cargos civis do governo de Jair Bolsonaro. Na opinião dele, contudo, dada a gravidade da crise de COVID-19 no Brasil, a ajuda o Exército poderá ser bem-vinda.

    "A missão da vacinação com a ajuda dos militares é muito bem-vinda. Nós vimos isso em diversos países do mundo, especialmente nos EUA. Os militares tem essa capacidade de deslocamento, de organização e logística, que pode nos ajudar muito na vacinação em um momento de crise como essa que estamos vivendo", afirmou.

    O presidente da República, Jair Bolsonaro é recebido pelo comandante do Exército, general-de-exército Edson Leal Pujol, para Solenidade de Promoção de Oficiais-Generais
    © Foto / Agência Brasil / Isac Nóbrega / PR
    O presidente da República, Jair Bolsonaro é recebido pelo comandante do Exército, general-de-exército Edson Leal Pujol, para Solenidade de Promoção de Oficiais-Generais

    Em seguida, ele avisou: "Mas, a gente precisa ter muito cuidado em relação a esta aproximação". O especialista entende que é preciso fazer este gesto (participação do Exército na vacinação) como uma missão de Estado, e não de governo. "As Forças Armadas representam o Estado, e não o governo", frisou o especialista.

    Para Márcio Coimbra, "precisamos olhar essa situação de uma forma muito pontual, e como mais uma ação que os militares fazem de forma específica para determinado ponto", como a questão ambiental, ou mesmo a segurança das fronteiras.

    O professor defendeu que o Exército não pode ser utilizado como uma política de governo, e que há uma confusão por parte do presidente Jair Bolsonaro neste assunto.

    "Ele não entende a diferença entre Estado e governo, e usa as forças do Exército para ações onde ele acha que há um peso da presidência, mas não pode ser desta forma", afirmou.

    Há riscos para o Brasil?

    Desde o início de seu mandato, Bolsonaro faz pronunciamentos para cadetes do Exército brasileiro e participa de formaturas assiduamente.

    Nesta semana, ele acordou com senadores de sua base aliada que os oficiais das Forças Armadas sejam a única categoria que deve ser contemplada com reajuste salarial em 2021. O restante dos servidores seguirá com o salário congelado até dezembro. Analogamente, há a questão já mencionada sobre cargos no governo.

    ​Para Márcio Coimbra, "não é proveitoso para o Brasil, de um modo geral, ter um presidente que recorra tanto às Forças Armadas. Isso é bom para o presidente, porque ele alicerça seu apoio e estada" no Exército brasileiro. 

    'Estão esticando a corda'

    Em diversas ocasiões, como em seu próprio aniversário, no último domingo (21), Bolsonaro disse que "estão esticando a corda". Sempre que o faz, em seguida ele cita o Exército brasileiro, sugerindo que tem apoio e respaldo. Márcio Coimbra entende que há uma clara mensagem neste comportamento do presidente. 

    "Ele faz ameaças veladas usando as Forças Armadas de forma subentendida. Isso está errado. O Bolsonaro fala em tiranos, diz que estão esticando a corda, que o nosso Exército é o verde oliva [...] Na verdade, Bolsonaro usa o Exército para intimidar seus opositores, distorcendo os conceitos de democracia e liberdade", frisou o professor.

    Ele ainda disse que as Forças Armadas se sentiram incomodadas com estes recentes apelos, mas precisam se posicionar. O que o presidente Bolsonaro está fazendo é perigoso, concluiu.

    Exército Brasileiro realiza patrulhamento nas ruas de Fortaleza durante crise da segurança pública no Ceará, em fevereiro de 2020
    © Folhapress / Jarbas Oliveira
    Exército Brasileiro realiza patrulhamento nas ruas de Fortaleza durante crise da segurança pública no Ceará, em fevereiro de 2020

    "As Forças Armadas hoje ocupam postos dentro do governo, e isso de alguma forma confunde as funções de uma instituição de Estado. O melhor é não termos oficiais da reserva e, especialmente, da ativa, em postos do governo, que não sejam destinados à Defesa".

    E se a corda romper?

    Questionado sobre uma possível ruptura da ordem democrática no Brasil, Márcio Coimbra disse que não quer "acreditar que haja respaldo do Exército para isso". Ele relembrou o papel das Forças Armadas ao longo da história do país, e disse que elas tiveram uma imagem muito arranhada durante o período em que estiveram no poder, de 1964 a 1985. 

    "As Forças Armadas passaram por uma longa reconstituição de sua imagem, e não podem perder isso". Ele relembrou que o primeiro passo em falso em relação a isto foi dado no governo de Michel Temer, com a nomeação do general Luna para o Ministério da Defesa.

    "A grande ideia que nós temos, e todo país democrático, com relação a criação de um Ministério da Defesa, com as três forças do Exército abaixo dela, é colocar o Ministério da Defesa sob comando civil. O Michel Temer errou naquele momento", disse o especialista. 

    Por fim, o professor criticou as Forças Armadas por assumirem cargos de civis no governo federal. "O Brasil precisa olhar com muito cuidado para esta militarização do governo, porque é esta militarização que pode levar a uma situação extrema, a um movimento de ruptura da ordem", concluiu.

    O ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), General Augusto Heleno.
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), General Augusto Heleno.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    COVID-19, oposição, ruptura da ordem constitucional, ruptura democrática, Constituição, Brasil, Exército, forças militares, militares, Jair Bolsonaro
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