15:14 04 Junho 2020
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    Resta apenas um único superministro no governo do presidente Jair Bolsonaro, mas até quando? A questão envolve o futuro do chefe do Ministério da Economia, Paulo Guedes, e apesar da recente mensagem de apoio recebida, ele deverá cair, segundo um analista ouvido pela Sputnik Brasil.

    Diante do burburinho ao longo do fim de semana, Bolsonaro tentou fortalecer a ideia de que Guedes não deixará o seu governo, garantindo que cabe ao economista liberal, famoso por sua formação na Escola de Chicago e pelo sucesso no mercado financeiro, os rumos da economia brasileira.

    "Acabei mais uma reunião aqui tratando de economia. E o homem que decide a economia no Brasil é um só: chama-se Paulo Guedes. Ele nos dá o norte, nos dá recomendações e o que nós realmente devemos seguir", declarou nesta segunda-feira (27) o presidente ao lado do ministro da Economia, em frente ao Palácio do Alvorada.

    Contudo, a fala presidencial não pôs fim à incerteza em torno do futuro de Guedes no governo, a começar pelo mal-estar criado – e ainda não desfeito – pelo chamado Plano Pró-Brasil, lançado pela ala militar do governo na semana passada e sem a presença do ministro ou qualquer integrante da sua equipe.

    Ouvido pela Sputnik Brasil, o cientista político Christopher Mendonça, professor do Ibmec-BH, relembrou o projeto que classificou como "controverso" para mostrar o que seria uma fraqueza já vivida por Guedes no governo. As quedas recentes de Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro das pastas da Saúde e da Justiça, respectivamente, não tiram pressão do "Posto Ipiranga" de Bolsonaro.

    "O anúncio do Pró-Brasil, que é uma perspectiva de investimentos na infraestrutura, é controverso. Primeiramente porque foi formulado por ministros de outras pastas e não da Economia, a saber: o ministro da Infraestrutura e o ministro da Integração Nacional sem a participação necessária do poderoso ministro Paulo Guedes", avaliou.

    "A meu ver, Guedes passará por um processo de desidratação, advinda principalmente do mau desempenho econômico, ocasionado sobretudo pela COVID-19, já amplamente divulgado pelos amplos meios de tratamento das questões econômicas, e por fim pela suspensão da cartilha liberal proposta pelo então superministro", prosseguiu Mendonça.

    Desde o início do governo, em 2019, Guedes já vem enfrentando problemas para implementar a sua agenda liberal, um dos elementos que ajudou a atrair apoio para Bolsonaro na campanha eleitoral. A pandemia do novo coronavírus, que vem demandando assistência do Estado à população por todo o mundo, acabou impondo um elemento para o qual o ministro não estava pronto.

    Ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, debatendo a reforma da Previdência
    © Foto / Agência Brasil/ Fabio Rodrigues Pozzebom
    Ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, debatendo a reforma da Previdência

    "O que nós observamos é que Paulo Guedes começa agora a perder mais a sua importância política e deve ser um dos próximos ministros a ser queimados no gabinete do presidente, por duas razões que eu já elenquei anteriormente. A primeira delas são os índices econômicos que as próximas pesquisas já devem observar os seus impactos negativos, a maioria deles em razão do coronavírus, e depois pelo abandono de questões relacionadas ao liberalismo. A necessidade é de que se façam mais políticas assistencialistas, o que foge do escopo trazido inicialmente pelo presidente e, em consequência, pelo ministro da Economia", ponderou.

    O mau desempenho da economia brasileira desde que assumiu o cargo de ministro, adicionando o presente nada otimista trazido pelo avanço da COVID-19, conta ainda com outro elemento que pode ocasionar a queda de Guedes, segundo o cientista político ouvido pela Sputnik Brasil: a ausência de maior traquejo político para lidar com o Congresso.

    "O ministro da Economia, que sequer tem alguma filiação partidária, tem muito mais uma capacidade técnica do que especificamente força política. Nas últimas vezes em que o ministro esteve presente em comissões da Câmara e do Senado, observou-se que o ministro é pouco hábil na construção de diálogos políticos", relembrou Mendonça, sem esquecer que Guedes colocou o cargo à disposição de Bolsonaro em mais de uma ocasião, sempre após embates com os parlamentares.

    Aos críticos de Guedes, o professor do Ibmec-BH faz um alerta. De acordo com ele, o Congresso tem a sua parcela de responsabilidade sobre o desempenho econômico do Brasil. Ele apontou que o Legislativo "tem de forma sucessiva aprovado pacotes que interferem de maneira muito brutal no caixa da União", algo que desgasta o ministro da Economia.

    "Nas próximas semanas, o que nós veremos é um aumento do espaço entre o Congresso e o Palácio do Planalto, com o primeiro seguindo no sentido de atender os interesses específicos das suas bases eleitorais, e o presidente Bolsonaro, através do seu ministro da Economia, pensando nas questões macroeconômicas, que também são de extrema relevância. Essa divisão entre esses dois poderes pode ocasionar em uma perda de força do Ministério da Economia e o aumento muito grande dos embates entre o presidente e os congressistas", concluiu.

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    Tags:
    mercado financeiro, demissão, neoliberalismo, liberalismo, comércio, Ministério da Economia do Brasil, economia mundial, macroeconomia, economia, Ibmec, Sergio Moro, Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, Brasil
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