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Carnaval fora de época pode dar ao Brasil duas datas da folia no calendário por ano?

© Sputnik / Luana RayssaPassista samba pela escola Unidos da Ponte, em 20 de abril de 2022, no Rio de Janeiro.
Passista samba pela escola Unidos da Ponte, em 20 de abril de 2022, no Rio de Janeiro. - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2022
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Nos últimos dois anos, a pandemia de COVID-19 enterrou uma das festas brasileiras mais populares do mundo: o Carnaval, geralmente realizado nos meses de fevereiro e março. Para alegria de quem aprecia um bom samba, a folia voltou aos sambódromos do Rio de Janeiro e de São Paulo a partir da noite de quarta-feira (20).
O primeiro ciclo das festividades se deu no começo de março com foco nos blocos de rua. Agora, os majestosos desfiles voltam à Marquês de Sapucaí, no Rio, e ao Anhembi, em São Paulo.
A dobradinha de Carnaval suscitou os desejos mais profundos de quem gosta da energia do samba: seria possível a organização de dois Carnavais por ano no Brasil?
Desfile da escola de samba União da Ilha no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, na noite de quarta-feira (20). - Sputnik Brasil, 1920, 21.04.2022
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Após 2 anos sem folia, Carnaval carioca retoma desfiles no Sambódromo
A Sputnik Brasil conversou com os principais carnavalescos e pesquisadores do tema para entender se a ideia é viável.
Além disso, procuramos o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), a fim de saber o que ele pensa sobre a questão.

"Um só está bom [risos]", resumiu o político, conhecido por ser um fã notório da folia.

© Folhapress / Fotoarena / Celso PupoPrefeito Eduardo Paes samba com destaque da Acadêmicos do Cubango no Sambódromo carioca, em 20 de abril de 2022.
Prefeito Eduardo Paes (PSD) samba com destaque da Acadêmicos do Cubango no Sambódromo carioca, em 20 de abril de 2022.  - Sputnik Brasil, 1920, 21.04.2022
Prefeito Eduardo Paes samba com destaque da Acadêmicos do Cubango no Sambódromo carioca, em 20 de abril de 2022.

Ritos, ciclos e tradições

Especialistas consultados pela Sputnik Brasil vão de acordo com as conclusões do prefeito do Rio de Janeiro.
Para o professor e pesquisador Luiz Antonio Simas, coautor do livro "Dicionário da História Social do Samba", trata-se de uma hipótese fora de cogitação.

"Temos que lidar com o que está acontecendo como uma redução de danos diante do que aconteceu com o Carnaval em virtude da pandemia. Porque o Carnaval não é uma festa que deve ser mensurada, exclusivamente, a partir do retorno que pode dar em relação à economia, ao turismo etc. Existem componentes simbólicos do Carnaval que são muito fortes. O Carnaval é uma festa que, simbolicamente, está muito vinculada ao calendário da Quaresma, à Páscoa. Podem existir, evidentemente, outros eventos e devem existir outros eventos ao longo do ano que, de repente, até tenham algum tipo de relação com o Carnaval. Mas [duplicar] o Carnaval propriamente dito, eu acho que não", avalia.

© Sputnik / Cris GomesCarro alegórico da Unidos de Bangu, em 20 de abril de 2022, no Rio de Janeiro.
Carro alegórico da Unidos de Bangu, em 20 de abril de 2022, no Rio de Janeiro.  - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2022
Carro alegórico da Unidos de Bangu, em 20 de abril de 2022, no Rio de Janeiro.
A pesquisadora, jornalista e escritora Rachel Valença, integrante da Galeria da Velha Guarda da escola de samba Império Serrano e do júri do Estandarte de Ouro (prêmio extraoficial dado aos melhores do Carnaval carioca em diversos quesitos) reflete sobre a questão pelo mesmo viés.

"Não olho pelo prisma do viável: meu ponto de vista é cultural. Carnaval só há um, e obedece, por mais estranho que pareça, ao calendário litúrgico. É o início do período da Quaresma católica que determina a data do Carnaval. Embora foliões não sejam necessariamente religiosos, o Carnaval tem seus ritos próprios e um ciclo. A alegria começa nas festas de fim de ano e culmina no Carnaval. Vejo o desfile das escolas de samba, por exemplo, como uma celebração da vida, não como um espetáculo a ser vendido a turistas. É muito bom que gente do mundo inteiro se sinta atraída pelo que as escolas apresentam, mas é preciso respeitá-las. Mexer em sua tradição para atrair turistas e faturar não é recomendável", analisa a coautora do livro "Três Poetas do Samba-Enredo: Compositores que Fizeram História no Carnaval".

© Folhapress / Eduardo KnappCortejo do bloco Galo da Madrugada toma a avenida Pedro Álvares Cabral, no bairro do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, em 25 de fevereiro de 2020.
Cortejo do bloco Galo da Madrugada toma a avenida Pedro Álvares Cabral, no Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, em 25 de fevereiro de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2022
Cortejo do bloco Galo da Madrugada toma a avenida Pedro Álvares Cabral, no bairro do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, em 25 de fevereiro de 2020.
Para Felipe Ferreira, professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do corpo de jurados do Estandarte de Ouro, a ideia pode ser "viável, mas não recomendável".

"Este Carnaval de abril não é um teste porque não houve o Carnaval de fevereiro. Fazer dois Carnavais significa dois desfiles de escolas de samba, e não foi o que aconteceu; na verdade foi um adiamento do Carnaval. Não é um ano que teve dois Carnavais. Acho que se esse Carnaval de abril der certo, pode-se pensar em um evento com blocos e escolas, um evento que fosse uma espécie de lançamento ou fechamento do ciclo do Carnaval. Os dois Carnavais acabam competindo um com o outro e um esvaziando o outro. Pode-se organizar dois Carnavais. Mas não sei se é desejável. Um Carnaval por ano, essa coisa cíclica do Carnaval anual é importante. É viável, mas não acho recomendável", aponta ele, que também é autor de diversos livros sobre o tema — entre os quais "O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro".

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, durante cerimônia. - Sputnik Brasil, 1920, 17.01.2022
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Após sugerir veto ao Carnaval, governador do Rio de Janeiro canta em evento gospel lotado (VÍDEO)

Produção e economia do Carnaval

Simas recorda, também, o trabalho hercúleo das equipes de escola de samba na produção e na organização do desfile.

"O desfile de escola de samba, por exemplo, demanda um tempo bastante considerável para ser preparado. Não tem condições de você fazer dois desfiles de escola de samba, um em fevereiro e o outro em junho. Isso é uma loucura. Desfile de escola de samba demanda a preparação de um enredo, a elaboração de um samba de enredo, um trabalho longo e minucioso de carnavalescos, figurinistas, costureiras, escultores, marceneiros", enumera.

© Folhapress / Bruno SantosBloco Cordão do Boi Tolo, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, em desfile no dia 23 de fevereiro de 2020.
Bloco Cordão do Boi Tolo, no bairro Gamboa, no Rio de Janeiro, em desfile no dia 23 de fevereiro de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2022
Bloco Cordão do Boi Tolo, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, em desfile no dia 23 de fevereiro de 2020.
Além disso, é preciso contemplar o aspecto humanístico dos trabalhadores do Carnaval, na avaliação de Valença.
Ela indica que já estão comprovados os benefícios financeiros que o Carnaval traz para a cidade, que deve dar sua contrapartida aos grupos que organizam as festividades, muito além de pensar em faturamento e resultados econômicos.

"Em recente estudo da Fundação João Goulart, da Prefeitura do Rio, 'Carnaval de Dados', foi numericamente mostrado o impacto do Carnaval na economia carioca. Acho que a cidade precisa retribuir essa contribuição das escolas de samba e blocos, apoiando-os e sobretudo respeitando-os. Pensar só em faturamento, por exemplo, é desrespeito. Por exemplo: a cidade não está vivendo neste abril em clima de Carnaval, como acontece em fevereiro. Então o sambista, que é um ser humano, trabalhará no dia 22 e terá de dar nó em pingo d'água para desfilar naquela madrugada de sexta para sábado. A isso eu chamo falta de respeito", critica.

© Sputnik / Cris GomesPassista da escola de samba Acadêmicos do Cubango, em 20 de abril de 2022.
Passista da escola de samba Cubango, em 20 de abril de 2022.  - Sputnik Brasil, 1920, 22.04.2022
Passista da escola de samba Acadêmicos do Cubango, em 20 de abril de 2022.
Ferreira, por sua vez, coloca em questão os eventuais benefícios econômicos e turísticos da manutenção de dois Carnavais por ano.

"Não sei se pode favorecer o turismo. Pode desfavorecer, na medida em que tenha dois Carnavais, porque isso pode dividir muito as pessoas. Quando você tem um grande evento, esse evento acaba catalisando o público. As pessoas que se interessam em vir motivam outras pessoas também. Não é à toa que grandes festivais, como o Rock in Rio, acontecem periodicamente, e não todo ano. Uma coisa que começa a ser muito repetitiva acaba ficando um pouco esvaziada. Não vejo vantagem imediata em se ter dois Carnavais. Talvez haja menos gente em dois períodos do ano", conclui.

Elementos de decoração de carro alegórico estão no chão da Escola de Samba Unidos de Bangu, no Rio de Janeiro, Brasil, 9 de fevereiro de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 10.02.2021
Brasil sem Carnaval 2021: o que deveria alegrar foliões agora não passa de entulho
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