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O que sabemos sobre o interesse de organizações criminosas por material radioativo no Brasil?

© AP Photo / Rick BowmerPlaca de alerta de radioatividade (foto de arquivo)
Placa de alerta de radioatividade (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2022
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Dois homens foram presos nesta semana após tentarem negociar material radioativo ilegal e falso. Em entrevista à Sputnik Brasil, Madison Coelho de Almeida, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), comentou as características do tráfico de urânio no Brasil.
Embora laudos técnicos tenham constatado que o material ofertado por dois homens como urânio, na Grande São Paulo, não passa de uma rocha comum, o fato levantou algumas questões sobre a natureza do tráfico de material radioativo no Brasil.
Dúvidas acerca da procedência desses minerais, assim como o seu possível futuro destino e o uso para material bélico nuclear, viraram alvo de especulação na imprensa brasileira, principalmente após denúncias de que o crime organizado estaria por trás da prática.
Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais notório o envolvimento de facções criminosas, como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho, em atividades de garimpo ilegal, principalmente em territórios mais distantes da fiscalização do poder público, nos rincões do país.
© Folhapress / Ricardo BorgesPastilha de Urânio produzida na INB (Indústrias Nucleares Brasileira), no Rio (foto de arquivo)
Pastilha de Urânio produzida na INB (Indústrias Nucleares Brasileira), no Rio (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2022
Pastilha de Urânio produzida na INB (Indústrias Nucleares Brasileira), no Rio (foto de arquivo)
Conforme explicou Madison de Almeida, o "Brasil é um país muito rico em minérios, e com dimensões continentais". Por essa razão, o "trabalho de fiscalização do seu solo é muito complexo". Ele disse que existem estimativas sobre a quantidade de urânio no solo brasileiro, mas "não é possível dizer se o material é extraído ilegalmente".

Solo rico, pouca extração

Para entender a atuação dos grupos criminosos, é preciso deixar claro alguns aspectos sobre a produção de urânio no Brasil. Do mineral retirado da mina, em forma de rocha, 99,3% é do tipo 238, o mais comum.
Desse total, apenas 0,7% restante é urânio 235, utilizado para geração de energia e construção (depois de inúmeros processos envolvendo a mais alta tecnologia moderna) das bombas atômicas. Após a extração, o material radioativo é processado e transformado em "yellow cake", um pó amarelo que será transportado para países da Europa, onde se faz o refino do urânio brasileiro.
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Atualmente, há algumas minas para extração de urânio no país. A maior delas fica em Caetité, no estado da Bahia. Mapas e dados apontam, ainda, que há urânio no Ceará, Paraná e Minas Gerais. Embora o Brasil tenha a nona maior reserva mundial do elemento, a falta de prospecção e estudo do solo atrapalha a extração.
É neste ambiente de ausência de dados que agem os grupos clandestinos e de traficantes. Madison Coelho de Almeida disse não ter conhecimento de minas sendo exploradas sem o conhecimento das autoridades brasileiras.
Como o governo federal detém o monopólio sobre a cadeia de urânio nacional, a possibilidade de haver desvios de materiais e episódios de corrupção na produção nacional é uma questão pertinente. O especialista, porém, rejeita essa possibilidade.

Segundo ele, "não tem havido problemas no desvio da extração de urânio, e a produção transcorre normalmente". Para Almeida, o problema do tráfico de material radioativo decorre de outro fator, a possibilidade, não confirmada, de exploração do solo brasileiro por criminosos.

Citando casos de garimpo na Amazônia, o diretor da CNEN entende que o Brasil, "país muito rico em minerais", é dono de áreas rochosas que, na prática, não são, necessariamente, propriedade do Estado. Ele destaca que, segundo estudos, o país tem um potencial de 300 milhões de toneladas de urânio. Desse total, "uma pequena quantidade é extraída legalmente".
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Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, o governo quer retomar o Programa Nuclear Brasileiro, que prevê, entre outras ações, o estudo de mapeamento de novas jazidas no país. Atualmente, o Brasil mapeou apenas 30% das possibilidades em seu território. O ministro Bento Albuquerque estima que o país "deve conseguir ter uma capacidade ainda maior de reserva de urânio".

'Manipulação não é tarefa comum'

O desenvolvimento de uma indústria nuclear não é tarefa fácil, pois não depende apenas da riqueza rochosa dos países. "O urânio, na verdade, passa por diversos processos até se transformar em energia", explica Madison de Almeida.
Após ser isolado da rocha e passar por um longo procedimento para virar um pó amarelo, o material é levado para uma espécie de refinaria para ser purificado e enriquecido com a dosagem de urânio 235 necessária para seu objetivo. O urânio (combinado com flúor) passa por uma centrífuga, que separa os átomos para obter uma porcentagem maior do urânio 235. Parar gerar energia elétrica, é preciso cerca de 3% de urânio 235 na amostra. Para o uso na medicina, é necessário 20%. Para construir a bomba nuclear, é preciso 95%.
© AP Photo / Vahid Salemi, FileTécnico iraniano em instalação de enriquecimento de urânio
Técnico iraniano em instalação de enriquecimento de urânio - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2022
Técnico iraniano em instalação de enriquecimento de urânio
Esse processo de aumentar a quantidade de urânio 235 é chamado de enriquecimento de urânio. Para gerar a energia em si, ocorre um processo chamado "fissão nuclear", dentro do reator de uma usina de geração de energia. Na prática: é a quebra do núcleo do urânio que gera energia. A única usina no país de enriquecimento de urânio fica na cidade de Resende (RJ).
O pó sai da mina, passa por um processo de refinamento e vai para o enriquecimento. Após o processo, o urânio vai para as usinas nucleares. Estas, por sua vez, são duas: as usinas de Angra 1 e Angra 2, também no estado do Rio de Janeiro. Atualmente, entre 3% e 5% da energia brasileira vem das usinas termonucleares.
© Folhapress / Rafael AndradeVista das usinas de energia nuclear Angra 1 e 2, no bairro de Itaorna, no município de Angra dos Reis, no sul do estado do Rio de Janeiro. O complexo nuclear na região deve crescer com a construção da usina de Angra 3
Vista das usinas de energia nuclear Angra 1 e 2, no bairro de Itaorna, no município de Angra dos Reis, no sul do estado do Rio de Janeiro. O complexo nuclear na região deve crescer com a construção da usina de Angra 3 - Sputnik Brasil, 1920, 14.04.2022
Vista das usinas de energia nuclear Angra 1 e 2, no bairro de Itaorna, no município de Angra dos Reis, no sul do estado do Rio de Janeiro. O complexo nuclear na região deve crescer com a construção da usina de Angra 3

Tráfico: o destino e o uso do urânio

Levando em consideração todas as dificuldades para a manipulação de um material radioativo, é preciso entender quais são os riscos por trás do interesse de organizações criminosas por material radioativo no Brasil, assim como quais são os principais destinos para o urânio traficado. Esses questionamentos, no entanto, segundo Madison de Almeida, "levantam mais dúvidas do que certezas".
Ele explicou que o ciclo de tratamento do urânio é "feito pelo Estado brasileiro por meio de suas agências e indústrias". Segundo ele, "a indústria nacional depende de grande cadeia produtiva para manipular o urânio da forma correta", até transformá-lo em energia.
"Somos autônomos na tecnologia de processamento, e é muito improvável que traficantes tenham acesso a uma tecnologia que o Estado brasileiro não dispõe: o enriquecimento acima de 90%", disse o especialista. Segundo ele, "é a partir daí que se torna muito difícil descobrir o que esses traficantes estão fazendo, e como agem".
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A recente denúncia na grande São Paulo, revelada nesta semana, culminou na apreensão do material supostamente radioativo, que acreditavam se tratar de urânio.
O autor da denúncia acrescentou que os suspeitos propuseram, por meio de mensagens de texto, vender o material "utilizado para dispositivos bélicos", de acordo com registros policiais, por US$ 90 mil o quilo (cerca de R$ 422 mil). Embora, nesse recente caso, o urânio tenha se revelado falso, vale o questionamento: e se fosse verdadeiro, qual seria o seu destino?

"A Comissão Nacional de Energia Nuclear não tem como saber o que esses traficantes estão fazendo. Como um traficante desse passa pelas etapas de processamento? Isso não é possível determinar", afirma Almeida.

"Esse enriquecimento de urânio 235 acima de 90% é o que leva à construção de um artefato bélico. Isso é algo que poucos países dominam. Por isso, para nós [da CNEM], essa é uma pergunta sem resposta", concluiu o pesquisador.

Caso inesquecível

Em 2019, uma operação da Polícia Federal em Goiás e outros seis estados investigou uma quadrilha suspeita de tráfico intenso de pedras preciosas e minérios, como o urânio. Os suspeitos, segundo a PF, podem ter fornecido o material radioativo para radicais extremistas. Ao todo foram expedidos 58 mandados de prisão.
A polícia informou ainda que os produtos saíam do Brasil com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, passando por Portugal, Bélgica e Israel, antes de chegar ao grupo extremista para quem o contrabando estava direcionado, cujo nome não foi divulgado.
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