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Queiroga faz apelo mundial por vacinas: 'Humilhação que salvará vidas', diz especialista

© REUTERS / Amanda PerobelliO ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga, observa a chegada de um carregamento de um milhão de doses da vacina da Pfizer, em Campinas, no Brasil, no dia 29 de abril de 2021
O ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga, observa a chegada de um carregamento de um milhão de doses da vacina da Pfizer, em Campinas, no Brasil, no dia 29 de abril de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 30.04.2021
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Cientista político ouvido pela Sputnik Brasil ressalta que o governo brasileiro desprezou os imunizantes contra a COVID-19 no início da corrida por doses e agora precisa "mendigar" vacinas a outros países que souberam se preparar para a crise.

Diante da escalada da pandemia e a insuficiente quantidade de doses de vacinas no país, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fez um apelo mundial por imunizantes.

Em videoconferência com o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, nesta sexta-feira (30), Queiroga pediu que países com estoque de vacinas compartilhem doses com o Brasil, um dos epicentros da pandemia no mundo atualmente.

Até o momento, apenas 14,95% da população brasileira receberam a primeira dose da vacina contra o coronavírus. Em números absolutos, a primeira injeção foi aplicada em 31.667.346 de pessoas. Já a segunda dose foi distribuída a 15.677.543 de brasileiros, o que equivale a 7,4% do total.

Ao mesmo tempo, o país atingiu a marca de 404.287 mortos por COVID-19 e 14.665.962 de casos da doença nesta sexta-feira (30).

"Reiteramos nosso apelo àqueles que possuem doses extras de vacinas para que possam compartilhá-las com o Brasil o quanto antes, de modo a nos permitir lograr avançar em nossa ampla campanha de vacinação, conter a fase crítica da pandemia e evitar a proliferação de novas linhagens e variantes do vírus", disse o ministro da Saúde na reunião virtual com a OMS.
© REUTERS / Christopher Black / OMSO diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em foto de 18 de janeiro de 2021, durante coletiva de imprensa em Genebra, na Suíca
Queiroga faz apelo mundial por vacinas: 'Humilhação que salvará vidas', diz especialista - Sputnik Brasil, 1920, 30.04.2021
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em foto de 18 de janeiro de 2021, durante coletiva de imprensa em Genebra, na Suíca

Segundo o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a atitude de Queiroga pode ser analisada por duas perspectivas distintas.

Em sua avaliação, o ministro mostra seriedade ao tentar buscar mais imunizantes em um momento de alto número de contágios e mortes, mas, ao mesmo tempo, escancara a incapacidade do governo em lidar com a pandemia até aqui.

"É humilhante, para um país como o Brasil, o ministro de Estado ter que mendigar vacinas a outros países, especialmente porque o presidente Bolsonaro e o ex-ministro [Eduardo] Pazuello desprezaram as vacinas e não tiveram a devida atenção ao cenário que se desenhava", afirmou Prando em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil.

Ele lembra que o Brasil poderia estar em uma situação bem mais favorável se tivesse se empenhado em negociar com produtores de vacinas desde o ano passado e também incentivado a aceleração da produção interna da CoronaVac, pelo Instituto Butantan, e do imunizante da AstraZeneca/Oxford, produzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"Mas vale ressaltar que ser submetido a uma humilhação que salvará vidas vale a pena", disse o cientista político. "O ministro faz a sua parte e está tentando, o que é um elemento positivo diante desta realidade catastrófica que vivemos".

Governo mudou a posição sobre vacinas?

A postura do ministro da Saúde com relação à busca por mais vacinas vai na contramão da política adotada pelo presidente Jair Bolsonaro de menosprezar a importância dos imunizantes como solução à pandemia de COVID-19.

Para Rodrigo Prando, a explicação à aparente liberdade do ministro em atuar em favor das vacinas está no início das investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid contra o presidente.

"A questão é que o governo se encontra acuado, especialmente pelo início da CPI, que investigará as ações e omissões do governo no combate à pandemia, principalmente na questão da aquisição de vacinas", afirmou o professor.
© Foto / Jefferson Rudy/Divulgação/Agência SenadoSenadores durante reunião da CPI da Covid
Queiroga faz apelo mundial por vacinas: 'Humilhação que salvará vidas', diz especialista - Sputnik Brasil, 1920, 30.04.2021
Senadores durante reunião da CPI da Covid

Porém, o cientista político não acredita que o presidente e o núcleo bolsonarista do governo mudaram sua visão sobre a importância da vacina.

"Não diria que é uma mudança, mas uma adequação a um cenário em que o presidente e o governo se encontram acuados. Este presidencialismo de confrontação nesses anos de governo Bolsonaro é um tipo de conduta boa na retórica, no ataque, mas tem sido péssimo na capacidade de governar e na liderança política", avaliou Prando.

O especialista afirma que a tentativa do ministro Queiroga junto à OMS é louvável, mas é "uma sinuca de bico".

"De um lado, tem que trabalhar a partir da perspectiva da ciência e da medicina e, de outro, precisa enfrentar os rompantes do presidente e dos bolsonaristas, que em grande parte das vezes são negacionistas e tratam a pandemia com desprezo", disse.

Segundo o professor, a situação de Queiroga é vivida, em menor ou maior grau, por todos os ministros do governo. Ele avalia que todos precisam submeter seu conhecimento técnico, científico, acadêmico e até político às idiossincrasias do presidente.

"É muito difícil tentar trabalhar em uma situação em que o presidente da República, que é a liderança máxima do país, não dá apoio e, ao contrário, muitas vezes atrapalha o trabalho do ministro, que é incessante na tentativa de equacionar e trazer algum sinal de esperança à população brasileira", afirmou.
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