Ao que levará troca de acusações mordazes entre Israel e Turquia?

© AFP 2022 / RONEN ZVULUN, OZAN KOSECombinação de fotos do premiê israelense, Benjamin Netanyahu (à esquerda) e presidente turco, Recep Tayyip Erdogan (foto de arquivo)
Combinação de fotos do premiê israelense, Benjamin Netanyahu (à esquerda) e presidente turco, Recep Tayyip Erdogan (foto de arquivo) - Sputnik Brasil
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Recentemente, o grau de tensões entre os lideres turco e israelense atingiu um novo patamar em meio a relatos sobre os alegados preparativos para um ataque maciço por parte de Ancara. A Sputnik explica no que consiste o dilema geopolítico das relações entre os dois Estados e prognostica se este pode resultar em um conflito armado real.

Mesmo tendo sido um dos primeiros países a reconhecer Israel como Estado, a Turquia tem aumentado drasticamente a retórica anti-israelense ao longo da última década, em primeiro lugar devido à questão palestina. Claro que os recentes passos da opressão contra a população árabe na região, por exemplo, o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel pelos EUA, não contribuíram nada para o abrandamento de postura turca.

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De amigos a rivais

Após um longo período de estreita cooperação, inclusive no campo militar, os países se depararam com um agravamento drástico das relações em 2009, quando Israel estava travando a maciça operação Chumbo Fundido na Faixa de Gaza, sendo que esta ação levou as vidas de quase 1,5 mil palestinos.

Ao concluir a operação, as autoridades israelenses decidiram reforçar o bloqueio marítimo e terrestre do respectivo território com o fim de isolar a chefia do grupo Hamas, que chegou ao poder em setembro de 2007. Desde aí, o problema do bloqueio tem sido a pedra angular nas relações turco-israelenses.

Na época, Erdogan se atreveu pela primeira vez a pronunciar acusações diretas em relação a Israel, falando em voz alta sobre o "genocídio de palestinos" organizado pelo Estado Judeu. Mais que isso, ele até se recusou a ficar no mesmo palco com o então presidente israelense, Shimon Peres, em um dos maiores eventos internacionais, o Fórum Econômico Mundial de Davos.

A partir daí as relações turco-israelenses têm tido um caráter bem incerto, com várias ascensões e quedas bruscas. Mas, entre todas elas houve um incidente a uma escala tão séria que suas repercussões estão sendo sentidas até hoje.

Flotilha da Liberdade

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Maio de 2010 marcou um ponto sem retorno para os dois países. Na época, uma flotilha formada por organizações não governamentais com cargas de ajuda humanitária saiu de um porto turco para tentar furar o bloqueio marítimo da Faixa de Gaza e entregar víveres aos palestinos carenciados.

A ponto de entrar na respectiva área marítima, o navio foi interceptado pelas forças de segurança israelenses, resultando na morte de 9 cidadãos turcos que estavam a bordo. O motivo para isso foi o alegado fato de os ativistas da flotilha possuírem armas e terem intenções agressivas, o que na realidade nunca foi diretamente confirmado.

Claro que após tal incidente, tendo em consideração que Israel negava todas as pretensões que lhe eram apresentadas, caracterizando a compostura do seu exército como exclusivamente profissional e justificada, os dois países entraram em uma fase da chamada "Guerra Fria" regional. Logo, Ancara passou por expulsar o embaixador israelense e suspendeu todos os acordos bilaterais existentes.

Por muitos anos, o caso da Flotilha de Liberdade foi o maior pomo de discórdia entre os dois Estados. Enquanto a Turquia exigia desculpas e compensações às famílias dos ativistas mortos no incidente, Israel negava todas as acusações e insistia em sua versão do acontecido. Entretanto, vale assinalar que em 2013 Netanyahu chegou a pedir desculpas a Erdogan por telefone, mas, segundo se relata, por estar sob grande pressão por parte do ex-líder norte-americano, Barack Obama.

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Até hoje, os cidadãos turcos continuam podendo recorrer a tribunais internacionais com demandas judiciais contra os soldados israelenses que tomaram parte da operação.

Perspectivas de 'détente'

Quanto à situação recente, quando toda a mídia explodiu com manchetes pretensiosas após os dois líderes terem trocado declarações graves, se acusando um ao outro de terrorismo, esta também tem a ver com o omnipresente problema palestino. Ele se agravou, nomeadamente, no final da semana passada em resultado das maciças manifestações da população árabe na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, levando à morte de 16 pessoas pelas forças israelenses.

Erdogan, sendo um líder cada vez mais ambicioso do mundo árabe, se apresenta no papel de uma espécie de "gendarme" no Oriente Médio, acusando o governo israelense de ser ocupante e terrorista, enquanto Netanyahu também usa seus "trunfos" contra o adversário, o acusando de ter matado população civil em suas campanhas militares, inclusive na última em Afrin.

Algumas edições, como, por exemplo, a Express britânica, até começaram a falar sobre supostos preparativos das partes para um eventual conflito armado de larga escala. Assim, a mídia informa sobre a criação de um grupo de ataque turco composto por 100 aviões e 500 helicópteros de assalto que, supostamente, poderiam invadir o território israelense no marco de uma operação militar de proporções inéditas.

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Já os especialistas em geopolítica evitam predizer cenários tão apocalípticos, mas assinalam que há poucas perspectivas de uma melhora nas relações em um futuro próximo. A questão é que as partes apresentam uma à outra pretensões altamente contraditórias, não estando nenhuma deles disposta a ceder, o que não facilita nada o processo de negociações.

Então, quais são estas exigências? A mais importante e, de fato, impossível de ser realizada, é a quebra do bloqueio israelense à Faixa de Gaza. Neste aspecto, é bem evidente que Israel nunca aprovará tal medida. A única chance é um possível abrandamento da postura de Erdogan, especialmente no contexto da luta pelo gás israelense, porém, julgando pela configuração do seu rumo político dos últimos anos, esta perspectiva também parece pouco viável.

Ademais, os dois lados se envolvem em relações com terceiros, irritando um ao outro. Assim, Ancara até hoje continua apoiando o agrupamento Hamas, a maior força política na Faixa de Gaza, considerada por Israel e muitos países ocidentais como terrorista. Ao mesmo tempo, Israel, por exemplo, fraterniza demonstrativamente com o Chipre, cujo norte é entendido por Ancara como seu território, embora designado pela comunidade internacional como uma área ocupada.

O futuro das relações turco-israelenses depende de todo um leque de fatores, mas, em primeiro lugar, das prioridades que os dois governos estabelecerem para si próprios. Caso a racionalidade econômica e geopolítica e as vantagens comerciais e estratégicas vençam, podemos esperar por um descongelamento gradual das relações. Já se as duas potências não conseguirem sacrificar seus interesses geopolíticos pelo bem econômico e estabilidade, corremos o risco de evidenciar uma nova grande guerra na região já de si extremamente perturbada.

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