22:24 14 Outubro 2019
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    Escultura de uma mão segurando uma bomba de óleo atrás da sede da empresa venezuelana PDVSA em Caracas

    'Golpe mais sensível': como sanções dos EUA afetariam Venezuela e mercado do petróleo?

    © AP Photo / Fernando Llano
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    No dia 28 de janeiro Washington impôs sanções contra a principal estatal petroleira da Venezuela, PDVSA, esperando assim privar o governo de Maduro de uma das principais fontes de rendimento.

    A Sputnik explica que efeito as restrições podem ter sobre a economia venezuelana e sobre os preços do petróleo mundiais, além das saídas que o governo venezuelano pode ter.

    Novas restrições

    As sanções contra Petroleos de Venezuela, S.A (PDVSA) foram anunciadas pelo secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin. Segundo ele, as principais fontes de lucros e de moeda estrangeira que as autoridades venezuelanas recebem estão relacionadas à PDVSA. Por meio de restrições, os EUA pretendem bloquear os ativos de Nicolás Maduro e "salvá-los" para o povo venezuelano.

    "Hoje bloqueamos US$ 7 bilhões (R$ 26 bilhões) em ativos [da empresa PDVSA]. Outros US$ 11 bilhões (R$ 40 bilhões) constituirão as rendas perdidas nas exportações [da PDVSA] neste ano", afirmou o assessor de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, durante um briefing na Casa Branca em 28 de janeiro.

    Além das sanções, a empresa subsidiária da PDVSA que opera nos EUA, a refinaria Citgo Petroleum Corporation, poderá continuar operando somente caso os lucros por ela obtidos permaneçam em contas bloqueadas nos EUA e não sejam transferidas para a PDVSA.

    Gigante petroleiro

    Em 1976, durante a presidência de Carlos Andrés Pérez, a indústria petroleira da Venezuela foi oficialmente nacionalizada e todas as empresas estrangeiras foram substituídas por venezuelanas, as quais, por sua vez, foram absorvidas pela PDVSA.

    Em 25 anos, a estatal se converteu na maior empresa de petróleo e gás da região e dominou a indústria da Venezuela, que possui as maiores reservas de petróleo no mundo.

    Em 2017 a Venezuela produzia diariamente cerca de 1,91 milhão de barris de petróleo por dia. Hoje em dia o país produz menos, cerca de 1,25 milhão de barris por dia.

    Quase a metade de todo o petróleo produzido na Venezuela é comprado pelos EUA. Segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), o volume das importações norte-americanas do petróleo e derivados da Venezuela corresponde a cerca de 500 mil barris por dia.

    Outros importadores significativos do petróleo venezuelano são a Índia, que compra 300 mil barris por dia, e a China, que compra diariamente 240 mil.

    A própria empresa afirmou nesta quarta-feira (30), em sua conta oficial no Twitter, que possui combustível suficiente para garantir o fornecimento dele para as 19 plantas de distribuição situadas em todo o território nacional.

    O que acontecerá com preços do petróleo mundiais? 

    De acordo com o ministro de Energia da Arábia Saudita, Khalid al-Falih, entrevistado pela Sputnik, a situação na Venezuela não teve impacto sobre o mercado de petróleo e não há necessidade de medidas adicionais.

    Não foi solicitada nenhuma reunião extraordinária da OPEP e seus parceiros não membros da OPEP sobre o caso venezuelano.

    Os EUA continuam comprando matérias-primas energéticas da Venezuela, portanto, as restrições não devem afetar o equilíbrio global de oferta e demanda.

    Por outro lado, os investidores vêm que existem riscos muito altos de substituição do líder venezuelano por um pró-americano. Juan Guaidó já ordenou que se redefina a composição do conselho de diretores da empresa. Tal cenário pode prever uma recuperação gradual do nível de produção do petróleo na Venezuela. Por sua vez, o aumento da produção de petróleo nos países exportadores leva ao crescimento da oferta global e afeta os preços.

    Que opções Maduro tem sobre a mesa? 

    Analistas estimaram de formas diferentes as consequências da imposição de sanções sobre a economia da Venezuela. Assim, em entrevista à Sputnik, Dmitry Marinchenko, diretor do grupo dos recursos naturais e matérias-primas da agência de ranking internacional Fitch, acredita que as restrições dos EUA levarão à queda de produção do petróleo na Venezuela, ao crescimento dos preços mundiais do petróleo e aumentarão a probabilidade de falência da estatal.

    "A queda de produção do petróleo na Venezuela agora, provavelmente, vai diminuir, fornecê-lo aos EUA, e até talvez à Índia, se tornará impossível. Além disso, a Venezuela perderá acesso às suas refinarias nos EUA", apontou.

    Isso fará com que a empresa tenha dificuldades em devolver os pré-pagamentos e em continuar vendendo o petróleo, reforçou o analista.

    "Um resultado possível seria a aceleração do processo de mudança de poder [na Venezuela] e algum crescimento do preço do petróleo", apontou Marinchenko.

    Entretanto, outros analistas acreditam que a Venezuela poderia suavizar o efeito negativo das sanções petroleiras dos EUA. Por exemplo, em entrevista a The New York Times, Paola Rodriguez-Masiu, da empresa de consultoria norueguesa Rystad Energy, apontou que, embora as sanções dos EUA sejam um golpe significativo contra os fluxos do dinheiro controlado pelo governo de Maduro, "seu efeito não será tão pesado como os EUA esperam".

    "Aqueles volumes de petróleo que a Venezuela agora exporta para os EUA, podem ser transferidos [por Caracas] para outros países e vendidos por um preço mais baixo.”

    A analista sugeriu também que muitos países poderão comprar petróleo venezuelano caso este seja oferecido “com um grande desconto”.

    Uma das possibilidades para Maduro pode ser também a busca de mercados alternativos. De fato, a Venezuela já coloca parte de suas exportações do petróleo na China e na Índia, contudo, obtendo menos receitas, já que estas são usadas para pagar as dívidas assumidas por Caracas. Além disso, a reorientação para outros mercados envolveria uma revisão da logística e do negócio, demorando todo o processo.

    Poderia o petro ajudar a economia venezuelana? 

    O projeto da moeda virtual da Venezuela, o petro, pode ajudar na recuperação do PIB do país caso se torne um elemento adicional da economia e não uma alternativa, segundo economistas entrevistados pela Sputnik.

    A criptomoeda da Venezuela, assegurada pelo petróleo, foi lançada em fevereiro de 2018.

    Como o petro ainda não se tornou um elemento da economia do dia-a-dia dos venezuelanos, ou seja, a população não o usa para pagar em postos de gasolina, mercados, para pagar impostos, as autoridades do país são aconselhadas a introduzir a cripomoeda no mercado interno de forma mais ativa, segundo a assessoria da Associação de Cripomoedas e Blockchain da Rússia.

    O presidente da agência analítica BusinessDrom, Arseny Poyarkov, acredita que um rebranding poderia ajudar a "reanimar" o projeto.

    "Pode ser a denominação, pode ser a mudança do nome da moeda, pode ser uma transferência convencional para a criptomoeda", apontou, explicando que para uma moeda estar em demanda por trás dela deve haver uma economia estável, ou ao menos previsível.

    "Portanto, a criptomoeda pode ajudar a economia venezuelana, mas só como uma ferramenta final e adicional para controlar a emissão de dinheiro."

    Já Olga Neroda, analista do mercado de criptomoedas, assinalou que a moeda virtual não deve representar uma alternativa para a moeda principal, mas servir como um elemento para resolver tarefas específicas.

    "Pode ser mesmo para contornar as sanções. O importante é que a moeda esteja em demanda", indicou.

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    Tags:
    petróleo, sanções, PDVSA, Nicolás Maduro, Venezuela, EUA
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