06:16 03 Dezembro 2020
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    Os invertebrados da espécie Enteroctopus dofleini têm neurônios em cada um dos seus tentáculos e conseguem editar seus genes para se adaptarem ao ambiente onde vivem.

    O cérebro do polvo é comparável em complexidade ao de um cão. Sua estrutura é fundamentalmente diferente do cérebro dos vertebrados, o que não parece impedir seu uso efetivo.

    Estes cefalópodes são capazes de editar seu próprio genoma, se adaptando às condições mais desfavoráveis, e podem muito bem competir com os humanos no futuro.

    No final dos anos 1990, cientistas canadenses observaram oito polvos jovens Enteroctopus dofleini. Cada um recebeu quatro potes plásticos vazios flutuantes, dois pretos e dois brancos.

    Os potes não afundavam, o que deixou os animais muito interessados neles, agarrando-os com os tentáculos ou jogando-os fora com um jato de água. A atenção dos polvos durou meia hora, após o qual eles perderam o interesse pelos objetos.

    Esse comportamento não tinha sentido adaptativo, então os cientistas decidiram que os animais estavam apenas se divertindo. Assim, os cefalópodes se tornaram os primeiros invertebrados nos quais os biólogos identificaram a capacidade de jogar. Antes disso, o comportamento recreativo era observado apenas em mamíferos e aves.

    Um pouco mais tarde, um estudo internacional de 2006 descobriu que o desejo de se divertir não depende do sexo e da idade dos polvos. Os biólogos deixaram cair cubos de lego nos aquários, e tanto os machos como as fêmeas se interessaram por eles.

    Os estudos têm mostrado que os cefalópodes têm rudimentos de personalidade e sabem distinguir as pessoas. Em experimentos realizados por cientistas canadenses, os animais reagiram de forma diferente a cada um de dois voluntários, mudando a cor e a direção dos tentáculos.

    Um outro estudo em 2016 da Universidade de Sussex, Reino Unido, soube que estes invertebrados inteligentes eram capazes de resolver tarefas complexas, com as quais nem eles, nem seus ancestrais, se tinham deparado antes.

    Imagem de polvo no mar (imagem referencial)
    Imagem de polvo no mar (imagem referencial)

    Além disso, algumas espécies, como o grande polvo listrado do Pacífico, têm um comportamento social e matrimonial bastante complexo, vivendo em grupos de quarenta indivíduos e caçando juntos.

    Durante a época de acasalamento, o macho e a fêmea podem não se separar por vários dias, compartilhando alimentos e até mesmo se "beijando", se tocando com as "bocas" e ventosas dos tentáculos.

    Oito tentáculos inteligentes

    Todas estas características nos cefalópodes marinhos se formaram paralelamente à evolução dos vertebrados. Seu último ancestral comum viveu há quase 800 milhões de anos, o que afetou não só sua aparência, mas também sua estrutura interna.

    Além dos três corações, estes animais têm um cérebro muito incomum, contendo quase 500 milhões de células nervosas. São menos que os 85 bilhões de células humanas, mas bastante comparáveis ao número de neurônios no cérebro de um cão.

    No entanto, as células nervosas dos polvos são maiores, e distribuídas por todo o corpo. Se nas pessoas a maior parte dos neurônios está concentrada no cérebro, este órgão representa apenas cerca de dez por cento nos cefalópodes. Outros 30% das células nervosas estão nos órgãos externos do sistema visual. Os demais estão nos gânglios, aglomerados de neurônios nas extremidades.

    Por outras palavras, cada tentáculo de polvo é uma espécie de minicérebro, que, como descobriram os cientistas da Universidade Hebraica de Jerusalém, pode agir de forma independente. Os membros do corpo "decidem" a reação comportamental necessária desencadeada pelo órgão central.

    Ao mesmo tempo, os tentáculos do polvo são capazes de realizar ações independentes bastante complexas: mudar a cor ou distinguir entre um membro de outro animal e o seu próprio.

    Além disso, um tentáculo amputado se move e responde a estímulos durante uma hora inteira, sendo capaz de segurar alguns objetos, empurrando outros para longe, e podendo até rastejar para longe do resto do corpo.

    Polvo e peixe em águas profundas (imagem referencial)
    Polvo e peixe em águas profundas (imagem referencial)

    Além disso, os polvos têm grande acuidade visual. A pupila dos seus olhos é mais perfeita que a do homem, e também possuem excelente memória a curto e longo prazo.

    Genes ao seu alcance

    Segundo um grupo internacional de pesquisadores, as capacidades cognitivas dos polvos e seu cérebro bastante grande são resultado da feroz competição com peixes e vertebrados marinhos.

    Há cerca de 100 milhões de anos, a diversidade de peixes aumentou drasticamente, durante a chamada revolução marinha mesozoica. Como resultado, os ancestrais das lulas e polvos tiveram não só que lutar por comida e espaço para viver com os peixes, mas também aprender a fugir dos predadores.

    Isso provocou a perda da concha externa (muitos vertebrados marinhos aprenderam a quebrar conchas de moluscos), o movimento reativo, a rápida mudança de cor em resposta a estímulos, o característico saco de tinta e a sua inteligência mais avançada entre os invertebrados.

    Além disso, um estudo publicado na revista Cell Press diz que os polvos conseguiram aprender a editar seus próprios genes, que os ajuda a se adaptarem ao ambiente e os torna ainda mais inteligentes. Se trata da alteração do ácido ribonucleico (RNA) matricial, que é um transportador intermediário de informações, sendo sintetizado na matriz do DNA e servindo como uma espécie de instrução para a construção de proteínas.

    Quando tudo corre bem, a sequência de aminoácidos na proteína corresponde exatamente à ordem dos nucleotídeos no gene que a codifica.

    No entanto, por vezes, durante a síntese do mRNA, o nucleotídeo adenosina transforma-se em inosina, graças a fermentos especiais. Tal alteração permite um ajuste muito preciso das funções proteicas, mas é raramente utilizado. No organismo humano, estas proteínas não são mais que três por cento, enquanto nos polvos, segundo cálculos dos pesquisadores, elas constituem até 60 por cento.

    Além disso, entre as proteínas criadas a partir do mRNA alterado, estão algumas responsáveis pela conexão entre os neurônios. Muito provavelmente, são elas que permitem que os cefalópodes se envolvam em cenários comportamentais complexos. No entanto, a redação do mRNA retarda as mudanças genômicas e, como consequência, a evolução dos próprios polvos.

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