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    Eduardo Bolsonaro teria classificado o Hezbollah como entidade terrorista durante sua visita a Israel no início de março. Entretanto, a Sputnik Brasil falou com um orientalista sobre possíveis consequências desta declaração.

    Em 9 de março, a comitiva brasileira visitou o Estado judeu. De acordo com o documento sobre a viagem enviado à CPI e obtido recentemente pelas mídias, o filho do presidente e deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) expressou durante o encontro sua esperança que o Brasil classifique em breve o movimento Hezbollah como organização terrorista.

    Jorge Mortean, professor do curso de Relações Internacionais e especialista em Oriente Médio, comentou o assunto em entrevista à Sputnik Brasil.

    Primeiramente, ele relembrou que o país historicamente tem um posicionamento muito neutro e imparcial em relação à temática da organização libanesa Hezbollah, "seguindo mais as orientações e deliberações do que se debate e vem se debatendo ao longo dessas décadas no Conselho de Segurança da ONU''.

    Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (à esquerda), e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em cerimônia em Jerusalém, 15 de dezembro de 2019 (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / GIL Cohen-Magen
    Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (à esquerda), e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em cerimônia em Jerusalém, 15 de dezembro de 2019 (foto de arquivo)

    A razão principal por trás de tal imparcialidade, de acordo com o especialista, é que o assunto não cabe diretamente ao Brasil, já que não há ações do Hezbollah registradas seja no território brasileiro, seja implicando brasileiros no exterior.

    Mortean admite que o Estado brasileiro acompanha de perto as movimentações do grupo na região do Oriente Médio, e bem especificamente a movimentação financeira na tríplice fronteira entre o Brasil, Argentina e Paraguai, "mas nada que deflagre algo de fato ilegal, sob o ponto de vista jurídico, das normas internacionais'', segundo suas palavras.

    Quanto à declaração de Eduardo Bolsonaro, o professor acentuou que esta foi uma retórica pessoal. Ainda assim, tais anúncios devem ser promulgados oficialmente pela chancelaria, disse.

    "Por não ser especialista em relações internacionais, ele está na política atuando fortemente na frente de defesa de certos lobbies de nossa sociedade que não digerem o fato de o Brasil tomar uma posição mais cautelosa de neutralidade com relação a declarar ou não o Hezbollah como uma organização terrorista. Digo isso porque ele inclusive não teve nenhum poder deliberativo ao fazer certa declaração."

    Ainda mais, a proposta do deputado poderia expor o país a uma ameaça. O orientalista avisou que "uma vez o Brasil declarando, digamos hipoteticamente, o Hezbollah como uma organização terrorista, [pode fazer] que os corpos diplomáticos brasileiros estejam vulneráveis a qualquer tipo de retaliação dessa organização".

    Entre os israelenses e os árabes

    O governo Bolsonaro tem optado por uma política de forte estreitamento de laços com Israel. O especialista nota o fortalecimento da agenda de uma ala evangélica neopentecostal no governo brasileiro ultimamente.

    "Atendendo a agenda desse grupo social específico aqui no Brasil dentro da nossa política externa, ele não só nos compromete no ponto de vista ideológico, como eu falei, ou seja, nos tira de uma posição histórica diplomática de neutralidade, imparcialidade, diálogo, nos força a assumir lados, o que é prejudicial em termos da totalidade das nossas relações, do nosso caráter historicamente apaziguador dentro da arena internacional. Então, isso é um problema por si."

    Como consequência, esta aproximação de Israel, sendo uma questão sensível a toda a geopolítica do Oriente Médio, pode desagradar aos árabes, segundo Mortean.

    "Não que isso vá prejudicar a relação em termos profundos que haverá rupturas extremas, não, fica um sabor de desagrado, um desconcerto dentro dessa trilha histórica na arena internacional da qual o Brasil é conhecido."

    Árabes israelenses protestam contra violência policial contra sua comunidade, em Umm al-Fahm, Israel, 5 de março de 2021
    © REUTERS / Ammar Awad
    Árabes israelenses protestam contra violência policial contra sua comunidade, em Umm al-Fahm, Israel, 5 de março de 2021

    Porém, até agora o Brasil conseguiu permanecer imparcial. Em 2019, Israel negociou com o Brasil o reconhecimento do Hezbollah como organização terrorista durante a Assembleia Geral da ONU. Mas nenhuma declaração oficial foi feita a esse respeito.

    "O Brasil não cede logo de cara nas expressões israelenses dentro da ONU, naquela arena multilateral, justamente porque, primeiro, o Brasil ainda tenta em certos graus manter uma neutralidade, uma imparcialidade sob julgamento de certos temas sensíveis à comunidade internacional especificamente", considera o entrevistado, e a situação no Oriente Médio está entre estes.

    Mas, principalmente, a classificação oficial do Hezbollah como uma entidade terrorista pelo Estado brasileiro levaria a uma retaliação do grupo.

    "Isso de certa forma geraria um caos, nos traria esse problema ao Brasil que até hoje nós conseguimos evitar e de certa forma tentar apaziguar, intermediar sem muito sucesso, mas sempre com uma boa vontade, uma boa fé dentro da nossa diplomacia."

    Impacto à comunidade libanesa no Brasil

    O Brasil tem uma enorme comunidade libanesa. Por isso, tais declarações "despreocupadas" podem causar ''uma certa rusga'' dentro da comunidade de libaneses no país, sem ao mesmo tempo ter um impacto bem profundo nesta.

    Principalmente, aponta Mortean, porque essa comunidade não representa algo "monoblóquico". Há duas partes de libaneses no país: brasileiros descendentes de libaneses, emigrados no começo do século passado, e também libaneses natos emigrados ao Brasil a partir dos anos 1970 e mais recentemente.

    Soldados libaneses perto da fronteira com a Síria
    © Sputnik
    Soldados libaneses perto da fronteira com a Síria

    Além disso, a comunidade libanesa representa também uma pluralidade cultural, contendo cristãos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e drusos.

    "Então, essa declaração, ela atinge a comunidade inteira mesmo sendo direcionada a uma organização libanesa que responde majoritariamente pelos anseios xiitas daquele país."

    A Rússia e a maioria dos países no mundo não reconhecem o Hezbollah como uma organização terrorista. Então, "fazendo um jogo geopolítico de neutralidade, imparcialidade e diálogo [...] o Brasil sai ganhando e não cria novas inimizades. E, ao contrário, reforça amizades com todos os laços e também defende, portanto, os nossos interesses com esses países todos envolvidos", concluiu o professor.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Israel, Hezbollah, Eduardo Bolsonaro, declaração
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