02:18 21 Novembro 2018
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    Fumaça em Ghouta Oriental, Síria (foto de arquivo)

    Por que Ghouta Oriental repete destino de Aleppo?

    © REUTERS / Bassam Khabieh
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    Combates intensos, uso de civis como escudos humanos e extremistas que bloqueiam corredores humanitários. No mapa da Síria e no espaço informacional praticamente surgiu uma "segunda Aleppo" – os subúrbios de Damasco de Ghouta Oriental, onde há várias semanas não cessa o tiroteio feroz.

    As tropas governamentais sírias, com apoio da aviação russa, estão tentando eliminar esse antigo foco de tensões na guerra civil síria. Contudo, o cenário dos eventos se parece muito com o destino que viveu outra cidade síria, Aleppo.

    'Farpa' de Damasco

    Ghouta Oriental ocupa um território de pouco menos de cem quilômetros quadrados e sua população antes da guerra correspondia aproximadamente a 400 mil pessoas. A oposição armada e extremistas conquistaram essa área em 2012 e têm mantido seu controle até agora apesar de estarem cercados por todos os lados pelo exército sírio. No momento, em Ghouta Oriental estão operando quatro grupos armados: Tahrir al-Sham, que é sucessora da Frente al-Nusra (organização terrorista proibida na Rússia), Faylaq al-Rahman, Ahrar al-Sham e Jaysh al-Islam. De acordo com os militares sírios, a quantidade de terroristas em Ghouta Oriental é estimada entre 10 e 12 mil combatentes.

    A eliminação dos terroristas é dificultada pela arquitetura da cidade. Os combatentes utilizam edifícios altos para vigilância sobre os destacamentos do exército sírio e para coordenar seu fogo de artilharia. Os povoados situados nas fronteiras dos territórios controlados por extremistas foram convertidos em bastiões fortificados com barricadas e fossos antitanque bem protegidos. O sistema ramificado de túneis permite que os combatentes enviem facilmente reforços ao longo de toda a linha de contato e se protegerem dos ataques da aviação e artilharia.

    A concentração máxima de combatentes, segundo a inteligência síria, é observada nas cidades de Douma, Ein Tarma, Saqba e Harasta. A última está situada na rodovia M5 que liga Damasco a Homs. Para evitar serem atacadas a tiros, as tropas sírias têm sido forçadas a usar estradas longas de rodeio.

    Contudo, o maior perigo para Damasco apresenta a área de Jobar, no extremo oeste do território controlado pelos terroristas. O bairro está situado dentro dos limites administrativos da capital do país, a somente 5 a 10 quilômetros do centro da cidade.

    De acordo com o major-general russo Yuri Evtushenko, os ataques a tiros contra a capital não param nem por um dia.

    "Apesar das declarações do grupo Jaysh al-Islam sobre a trégua, a partir do território controlado por ele continuam os ataques com morteiros contra Damasco", afirmou.

    "Durante a última semana, os terroristas lançaram das áreas de Ghouta Oriental 228 minas e projetis contra zonas residenciais da capital síria. Como resultado, quatro pessoas morreram e mais de 50 ficaram feridas, inclusive 16 crianças."

    Em 24 de fevereiro, o Conselho da Segurança da ONU aprovou a resolução que prevê uma trégua humanitária na Síria durante um período de 30 dias. A fim de evitar vítimas entre civis de Ghouta Oriental, desde 27 de fevereiro foi introduzida uma pausa humanitária adicional das 9h00 às 14h00 locais, durante a qual os moradores podem abandonar a zona dos combates. Porém, nesta terça-feira (27), extremistas atacaram a tiros um dos corredores humanitários, demonstrando sua recusa em honrar compromissos.

    Frente informacional

    Além de vantagens militares, o controle sobre Ghouta Oriental proporciona aos terroristas certas vantagens políticas. De fato, a cidade representa a última alavanca de pressão contra Bashar Assad por parte da oposição armada. Enquanto os combatentes a mantiverem, Damasco é forçada a manter as conversações. Contudo, a libertação de Ghouta Oriental permitiria ao governo sírio desviar o perigo da capital, eliminar uma grande formação inimiga e passar a concentrar esforços em outras áreas problemáticas, mais precisamente, em Idlib.

    No momento, a situação em Ghouta Oriental se parece muito com a que viveu Aleppo no último trimestre de 2016. Damasco enviou a maior parte de suas tropas para libertar essa enorme cidade, o que desacelerou consideravelmente a ofensiva em direção de Deir ez-Zor. Tal como em Ghouta Oriental, os combatentes da "oposição moderada" não deixavam os civis saírem da cidade, utilizando-os como escudos humanos, se apropriavam de toda a ajuda humanitária e conduziam uma propaganda agressiva na Internet, acusando a Rússia e o governo de Assad da utilização de métodos desumanos de guerra. Tal como nesta ocasião, o ataque informacional foi imediatamente apoiado pela mídia ocidental, bem como por numerosos "ativistas".

    Capacetes Brancos evacuam uma vítima em Hamra, um distrito então dominado por rebeldes em Aleppo, em 20 de novembro de 2016
    © AFP 2018 / THAER MOHAMMED
    Capacetes Brancos evacuam uma vítima em Hamra, um distrito então dominado por rebeldes em Aleppo, em 20 de novembro de 2016

    Desde o início de fevereiro, na Internet surgiu uma enorme quantidade de contas temporárias espalhando notícias "sensacionais" falsas. Um tentou apresentar uma foto de destruições na Faixa de Gaza como se mostrasse as ruínas de Douma. Outro comunicou que os "Su-57 russos eliminaram Ghouta Oriental da face da Terra". De repente surgiram os "voluntários" dos "Capacetes Brancos" que se apressaram a "libertar" atores maquiados dos destroços de edifícios da cidade. Eles sempre apareceram nos locais em que o exército sírio começava vencendo, mas por um motivo qualquer sempre ignoraram Raqqa e Mossul iraquiana – cidades bombardeadas pelos norte-americanos. Contra as "atrocidades do regime" até se expressou a menina meio mítica Bana, que publicava comunicados em sua conta no Twitter de Aleppo cercada em uma excelente língua inglesa.

    Todas essas falsificações foram ativamente apoiadas pela mídia norte-americana que desenrolou sua histeria habitual. Esta não hesita em citar as notícias fantásticas sobre "milhares de crianças mortas" sem mencionar nenhuma fonte que mereça qualquer confiança. Geralmente trata-se de "fatos" apresentados por "oposicionistas moderados" anônimos, mas as "mentiras" de Damasco e Moscou permanecem ignoradas. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores russo, a circulação de informações duvidosas continuará, contribuindo assim para o agravamento da situação.

    "Nós nunca apoiaremos quaisquer ações que visem proteger os terroristas", afirmou nesta segunda-feira (26) o chanceler russo, Sergei Lavrov.

    "Na mídia surgiram falsificações de que […] em Ghouta Oriental foi utilizado cloro como substância venenosa, citando um personagem anônimo qualquer que vive nos EUA. Certamente aparecerão outras falsificações. Nós sabemos de onde vêm. As tentativas desse tipo têm como único objetivo difamar as forças governamentais sírias, culpá-las de todos os pecados e crimes de guerra a fim de realizar gradualmente aquelas ações que estamos observando nas áreas orientais da Síria, onde os EUA estão executando, como eu estou convencido, o cenário de criação de quase-estados, um cenário de divisão da Síria", afirmou Lavrov.

    Homem com crianças em Ghouta Oriental
    © AP Photo / Salve as crianças
    Homem com crianças em Ghouta Oriental
    É evidente que quantos mais êxitos o exército sírio atingir, mais os países do Ocidente o culparão de todos os pecados mortais. Entretanto, o interesse da mídia norte-americana e dos governos da OTAN pela situação em Ghouta Oriental desaparecerá assim que os extremistas abandonem a cidade. Assim foi em Aleppo: nenhum dos países ocidentais enviou ajuda humanitária aos moradores da cidade libertada.

    O exército sírio dificilmente conseguirá recuperar o controle sobre os subúrbios de Damasco de forma rápida, a limpeza de cada bairro e de cada rua levará vários meses. Ou seja, o crescimento de notícias falsas em redor de Ghouta Oriental está longe do fim.

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    Tags:
    guerra de informações, terroristas, mídia, Ghouta Oriental, Aleppo, Damasco, Síria
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