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    Brasil afronta COVID-19 no fim de abril de 2021 (62)
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    Após o Brasil ultrapassar EUA, México e Peru como o país com o maior número de mortes pela COVID-19 por milhão de habitantes nas Américas, a Sputnik Brasil conversou com dois especialistas para analisar os fatores que levaram o país a esses números e como evitá-los no futuro.

    Segundo o levantamento feito pela organização Our World in Data, o Brasil ultrapassou nas últimas duas semanas os Estados Unidos, o México e o Peru, se tornando o país com mais mortes por COVID-19 do continente americano em relação à sua população.

    De acordo com a Our World in Data, o Brasil tem atualmente 1.756 óbitos por milhão de habitantes e ultrapassou o México no dia 7 de abril, o Peru no dia 13 e os EUA no dia 14. Segundo o levantamento, os dez países com mais óbitos para cada um milhão de habitantes das Américas são: Brasil (1.756), Peru (1.722), EUA (1.713), México (1.646), Panamá (1.434), Colômbia (1.342), Chile (1.317), Argentina (1.310), Bolívia (1.083), Equador (1.003). 

    Até o início de fevereiro, quando o Brasil registrava cerca de uma mil mortes por dia, ele ocupava a sétima posição do continente em óbitos proporcionais, atrás de EUA, México, Peru, Panamá, Colômbia e Argentina. Agora, com a escalada de mortes no país, que chegou a superar o número de 4 mil óbitos por dia, o Brasil foi gradualmente ganhando posições, até chegar ao topo da lista no continente.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, os especialistas Gonzalo Vecina Neto - médico sanitarista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), fundador e primeiro diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) - e Guilherme Werneck - médico epidemiologista, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ - são unânimes em apontar um principal responsável por esse aumento significativo dos números: o governo federal.

    "O governo não atuou no sentido de impedir o início da disseminação da doença no país, minimizou o problema, investiu em medidas que não têm eficácia reconhecida, [...], não aparelhou adequadamente os hospitais para a assistência à saúde [...], o sistema de vigilância não conseguiu também ser instrumentalizado para atuar da forma mais adequada, faltaram testes, faltou organização, faltou concatenação e coordenação do Ministério da Saúde com os outros entes federativos", afirma Werneck.

    Para o epidemiologista da UERJ, o país poderia ter feito muito melhor, pois "tem um Sistema Único de Saúde (SUS), pesquisadores, profissionais de saúde, um sistema de atenção básica à saúde e uma estratégia de saúde da família que poderiam ter sido chamados para atuar de forma mais efetiva no controle da pandemia".

    No entanto, ele ressalta que a resposta do governo foi sempre disponibilizar menos recursos e não atuar para a prevenção. "De fato, o governo atuou a favor da disseminação do vírus na comunidade, então nós poderíamos ter feito melhor. Certamente teríamos feito melhor com qualquer outro governo que levasse a sério esse problema", opina Werneck.

    Vecina, por sua vez, aponta outro exemplo importante da falta de governo, que se reflete na forma como a pandemia se dissemina pelo país, atingindo mais intensamente a população mais pobre, que não tem condições de fazer isolamento social.

    "No Brasil, quem está morrendo mais é o pobre, [...] e o pobre tem que sair todos os dias na rua para buscar comida, ele não tem comida guardada em casa. O fim do auxílio emergencial, e a demora do início do novo auxílio emergencial, junto com a nova variante amazônica que está circulando violentamente no Brasil todo, criou uma tempestade perfeita", afirma Gonzalo Vecina.

    Para o fundador da ANVISA, essa "tempestade perfeita" acabou determinando um aumento muito grande do número de casos e, consequentemente, do número de óbitos. Além disso, Gonzalo ressalta que o governo apresentou absoluta falta de gestão ao permitir que, "no meio do caminho", ainda ocorresse o colapso da assistência hospitalar, com falta de oxigênio, medicamentos e outros insumos, que contribuíram ainda mais para que o Brasil atingisse a marca sinistra de campeão em óbitos nas Américas. 

    Homem de máscara contra coronavírus na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, durante feriado do Carnaval
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Homem de máscara contra coronavírus na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, durante feriado do Carnaval
    Os dois especialistas também concordam que, para reduzir a mortalidade de COVID-19, existem dois eixos principais, que devem ser combinados: as chamadas medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, atenção com a higiene e isolamento social, e o avanço das campanhas de vacinação.

    Para Werneck, contudo, o país não está indo bem em nenhum desses dois eixos, o que justificaria os altos números de mortalidade.

    "Não há um esforço coletivo nacional para que se implemente medidas de âmbito nacional e subnacional, de restrição maior do contato físico entre as pessoas [...] e na vacinação, nós também estamos indo muito devagar, resultado de uma inação do Ministério da Saúde em relação à obtenção de doses necessárias para vacinar rapidamente a população brasileira", afirma Werneck.

    Para Gonzalo Vecina, como o número de vacinas ainda é insuficiente e o programa segue muito devagar, a única opção, neste momento, são as medidas de distanciamento social.

    Além disso, o ex-diretor e fundador da ANVISA afirma que é preciso olhar para exemplos bem sucedidos feitos dentro do território nacional, como aconteceu no município de Araraquara, no interior de São Paulo, que conseguiu reduzir a mortalidade e as internações no município, após implementar um lockdown.

    "Araraquara, aqui no estado de São Paulo, fez um lockdown direitinho, e mostrou para o Brasil o que é um lockdown [...] que é um conjunto de ações concatenadas para fazer as atividades não essenciais pararem", comenta Vecina.

    Guilherme Werneck, por sua vez, lembra que o exemplo de Araraquara é muito interessante, mas acredita que, neste momento, soluções mais localizadas têm influência limitada, e que o país deveria apostar em um lockdown nacional.

    "Em pequenas cidades como Araraquara, no interior de São Paulo, obteve-se resultados significativos, mas não basta fazer isso em uma ou outra cidade, em um ou outro estado, nós precisamos fazer isso, de forma mais radical, no país inteiro, e a recomendação seria: vamos parar as atividades de forma mais radical por três semanas - 21 dias - que nós poderemos, a partir daí, observar uma melhoria e a redução substancial de casos e óbitos no país", afirma o professor da UERJ.

    Sobre a questão da vacina, tanto Werneck quanto Vecina assinalam que ela é muito importante, e que o país deveria fazer um esforço para conseguir mais doses e acelerar seu programa de imunização, mas ambos ressaltam que só o imunizante não é suficiente e que as pessoas terão que manter as chamadas medidas não farmacológicas por muito tempo.

    "A vacinação, ela ainda demora um tempo para alcançar as coberturas vacinais, ou seja, o percentual da população brasileira completamente vacinada, o que só deve acontecer no início do ano que vem. Até lá, é preciso que outras medidas sejam mantidas e implementadas simultaneamente, entre elas as restrições do contato entre as pessoas, o distanciamento social, e as medidas de proteção individual. Somente com a articulação entre essas duas ações é que nós poderemos enfrentar a pandemia de forma mais adequada", opina Werneck.

    Pessoas fazem fila para receber a vacina contra a COVID-19, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, no dia 31 de março de 2021
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Pessoas fazem fila para receber a vacina contra a COVID-19, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, no dia 31 de março de 2021
    Já Vecina lembra que as medidas não farmacológicas vão continuar imperando por bastante tempo, pois, além de vacinar toda a população adulta, o que só deverá acontecer no início do ano que vem, o Brasil também terá que começar a imunizar as crianças e adolescentes, que compreendem cerca de 50 milhões de pessoas, assim que todos os testes forem concluídos e a imunização for autorizada. Ainda assim, o especialista ressalta que há muitas incertezas em relação à proteção e à imunidade conferidas pelas vacinas contra a COVID-19.

    "Só a partir das crianças e jovens vacinados, é que nós vamos poder relaxar, dependendo da eficácia do que nós tivermos feito com as vacinas. Nós vamos ter que observar, nós não sabemos quanto tempo dura a imunidade conferida pelas vacinas que nós utilizamos. Então, no meio do caminho, ainda existem alguns obstáculos", conclui Vecina. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil afronta COVID-19 no fim de abril de 2021 (62)

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    opinião, levantamento, mortes, distanciamento, vacina, COVID-19, Brasil