01:07 19 Abril 2021
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    Em meio às negociações para a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), um grupo mostra grande resistência ao novo tratado: os empresários do agronegócio da Europa.

    Para Leonardo Trevisan, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, esta resistência tem uma razão principal: o medo da concorrência com os produtos sul-americanos, sobretudo os brasileiros.

    "O que eles receiam é a possibilidade de observar que o produto brasileiro tem preço e qualidade melhor. É isto que os produtores europeus não desejam que aconteça", diz Trevisan, em entrevista à Sputnik Brasil.

    Em vídeo veiculado nas redes sociais no início de fevereiro, gigantes europeias do agronegócio mostraram motivos pelos quais a UE não deveria assinar o acordo com o Mercosul. Segundo os vídeos, o tratado traria diversos prejuízos para a Europa. O mesmo acontece com produtores de açúcar, que dizem que o acordo entre os blocos impactaria diretamente a vida de muitos trabalhadores europeus.

    Alertas como estes vão ao encontro da pressão feita pela Europa, sobretudo pelo presidente francês Emmanuel Macron, sobre o governo brasileiro em relação ao que é o maior entrave para a ratificação do acordo: a política ambiental. Atualmente, a UE e o governo brasileiro negociam o estabelecimento de um compromisso ambiental extra para convencer governos europeus e parlamentos a ratificar o tratado.

    "A principal tarefa do Brasil é não permitir qualquer reabertura das negociações, qualquer fatiamento das negociações, qualquer divisão deste processo", avalia Trevisan.

    Brasil virou 'culpado por retrocessos' na política ambiental

    Segundo o especialista, há dois pontos em que o governo brasileiro deve focar para que cumprir este objetivo. O primeiro deles é mostrar à Europa e ao mundo que o Brasil tem leis ambientais e demonstrar, com provas e evidências, que elas estão sendo cumpridas. "Mas para isto, precisamos mudar nosso comportamento", diz Trevisan, referindo-se à postura do governo Bolsonaro quanto a questões ambientais.

    Como exemplo de pontos em que é necessário mudar, o professor cita um fato recente: nesta quarta-feira (25), o Exército e a Polícia Federal entraram em litígio sobre quem deveria fazer a segurança da maior apreensão da história do Brasil de madeira ilegal, conforme publicado pela Folha.

    "Um confronto entre duas instituições do Estado brasileiro para proteger a Lei? Isto não fica bem, não fica conveniente. Precisamos mostrar ao mundo que cumprimos as leis que temos", ressalta o especialista.
    Voluntário tenta apagar fogo na rodovia Transpantaneira em Poconé, no Mato Grosso. O Pantanal foi atingido por recorde de queimadas em 2020
    © AP Photo / Andre Penner
    Voluntário tenta apagar fogo na rodovia Transpantaneira em Poconé, no Mato Grosso. O Pantanal foi atingido por recorde de queimadas em 2020

    Outro ponto sensível para a negociação entre sul-americanos e europeus é a mineração em terras indígenas. Segundo Trevisan, o Brasil precisa ser mais efetivo em controlar a exploração mineradora em terras indígenas: um estudo conduzido pelo Instituto Escolhas e divulgado nesta quinta-feira (25) mostra que o número de pedidos para a pesquisa mineral de ouro em terras indígenas bateu recorde em 2020.

    "Nos últimos anos, […] o Brasil passou da condição de ator de avanços na questão ambiental para a posição de culpado por retrocessos. Esta mudança […] traz danos de imagem muito graves aos produtos brasileiros, não só aos produtos do agronegócio. Recuperar esta posição de protagonismo favorável em questões ambientais é talvez a questão mais urgente da posição internacional brasileira atualmente", explica Trevisan.
    Garimpeiros trabalham em um garimpo no rio Rato, afluente do rio Tapajós, no Pará
    © Folhapress / Lalo de Almeida
    Garimpeiros trabalham em um garimpo no rio Rato, afluente do rio Tapajós, no Pará

    País pode assumir 'posição mais ativa em relação às negociações'

    Para Trevisan, o Brasil tem perdido diversas oportunidades de recuperar a condição de protagonismo desde a assinatura do documento que encaminhava o tratado com a União Europeia, em junho de 2019. Mais uma oportunidade, no entanto, parece aparecer para o Brasil. Segundo o especialista, Bruxelas já percebeu que terá de competir com a economia chinesa, cada vez maior e mais influente em todo o mundo. Caso a UE perca influência na América Latina, a China pode ocupar o espaço que atualmente é da Europa.

    "Esta posição abre uma possibilidade para o que o Brasil haja de uma outra maneira e tenha uma posição mais ativa em relação às negociações", diz Trevisan.

    Para que o Brasil volte a ocupar um destaque central nos debates ambientais, no entanto, o país precisa melhorar sua imagem internacional, oferecendo garantias reais de proteção ambiental. A solução para isso, segundo Trevisan, é simples: basta seguir a própria Constituição nacional.

    "Não é isso o que temos feito. […] Somos vulneráveis sem necessidade de ser. Se nós apenas cumpríssemos as leis que nós temos, talvez tivéssemos todos os argumentos necessários para rebater todas estas acusações [de prejuízo ao meio ambiente]", finaliza o professor.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Emmanuel Macron, protecionismo, América do Sul, Europa, Jair Bolsonaro, União Europeia, Acordo de Livre Comércio entre União Europeia e Mercosul, Mercosul, Brasil
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