09:35 22 Setembro 2021
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    Após a aparente mudança do discurso do governo brasileiro devido à dependência de insumo chinês para a produção de vacinas contra a COVID-19, o chanceler Ernesto Araújo voltou a fustigar a China em painel virtual de debate do Fórum Econômico Mundial.

    Sem citar nominalmente a China, o chanceler defendeu uma aliança com os EUA e "outros parceiros democráticos" para barrar a ascensão do "tecnototalitarismo" de países com "diferentes modelos de sociedade".

    O professor de Direito Internacional Público e de Relações Internacionais da Universidade de Relações Exteriores da China, Marcus Vinicius Freitas, em entrevista à Sputnik Brasil, afirmou que o posicionamento da diplomacia brasileira de crítica "direta ou velada" à China não contribui para um salto qualitativo no relacionamento entre os dois países.

    "Eu acredito que nós estamos em uma situação complicada já há algum tempo com relação àquilo que nós pretendemos construir com a China. Eu tenho falado e escrito que o Brasil precisa desenvolver com a China um relacionamento de parceria e não tratar a China somente como cliente", argumentou.

    O especialista lembrou que o Brasil e a China alcançaram no ano passado a marca de mais de US$ 100 milhões (R$ 543,2 milhões) no comércio bilateral. De acordo com Marcus Vinicius Freitas, este número pode dobrar se o Brasil tiver a "inteligência e a capacidade de desenvolver realmente um relacionamento mais profícuo" com a China.

    "As declarações [de Ernesto Araújo] neste momento, em que há esta necessidade maior de cooperação, não contribuem para que este relacionamento avance. Então nós corremos o risco de determinadas posições nos levarem a sermos não tratados de uma forma pior, mas sermos preteridos em um primeiro momento", afirmou o especialista.

    O chanceler da China, Wang Yi, enviou uma carta ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, na última sexta-feira (29), afirmando que os dois países são "parceiros estratégicos globais". Ele declarou que pretende ajudar o Brasil na liberação de insumos para a produção de vacinas.

    Pressão sobre Ernesto Araújo

    O atrito com a China e a mudança na administração dos EUA com a saída de Donald Trump gerou uma pressão sobre Ernesto Araújo dentro do governo. Na semana passada, o vice-presidente Hamilton Mourão chegou a insinuar que o chanceler poderia ser substituído do cargo de ministro das Relações Exteriores em breve.

    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo
    © Folhapress / Paulo Guereta / Photo Premium
    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo

    ​O especialista Marcus Vinícius Freitas, no entanto, lembrou que o ministro Ernesto Araújo é livre indicação do presidente da República.

    "Ao que parece, o presidente Jair Bolsonaro ainda está contente com a atuação do ministro. Então cabe ao presidente manifestar-se com relação àquilo que ele acredita que o ministro deve fazer. Eu creio que o ministro reflita aquilo que é o pensamento do presidente da República", observou.

    "O que é necessário é de alguma forma enfatizar ao presidente da República que a sua crença e a sua perspectiva pessoal não corresponde ao interesse do Brasil no curto, médio e longo prazo", acrescentou.

    O especialista destacou também que a simples troca de chanceler não necessariamente resolveria um atrito com a China causado por declarações de Araújo, pois o presidente "pode colocar outro chanceler que vai de alguma forma repetir esses equívocos que nós temos observado na nossa política externa".

    "Este tipo de manifestação às vezes expressa pelo ministro, que tenta ser o 'guardião da liberdade', me parece que não é muito acertada em razão dos interesses de longo prazo do Brasil", completou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Brasil, China, Ernesto Araújo, Bolsonaro, Jair Bolsonaro, diplomacia
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