06:01 04 Dezembro 2020
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    Ao contrário do que afirmou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o fogo na Amazônia não está ligado às populações originárias, afirma especialista ouvida pela Sputnik Brasil.

    Na abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro afirmou que o país é vítima de "uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal" e que a floresta brasileira é úmida e, portanto, "não permite a propagação do fogo em seu interior, os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas."

    A diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) Ane Alencar destaca que "os indígenas estão longe de serem os principais agentes do fogo na região" e que o fogo e o desmatamento, na verdade, estão diretamente ligados à exploração de terras públicas.

    "É bem importante entender que existem três elementos que fazem com que o fogo ocorra: o primeiro é quantidade e qualidade do material combustível, o segundo são as condições climáticas e o terceiro a fonte de ignição. No caso da Amazônia, a quantidade e qualidade do material combustível, hoje, é apresentado e oferecido pelo desmatamento. Então quanto mais desmatamento, ou mais exploração madeireira, mais material combustível vai ter para que haja o fogo", diz Alencar à Sputnik Brasil.

    De acordo com dados do IPAM, pelo menos 4.509 quilômetros quadrados de florestas derrubadas na Amazônia entre janeiro de 2019 e abril de 2020 aguardam pela queima na estação seca — e as florestas públicas não-destinadas foram a categoria fundiária com maior área derrubada e não queimada (29%).

    Presidente Jair Bolsonaro discursa na 75ª reunião anual da Assembleia-Geral da ONU
    © REUTERS / UNITED NATIONS
    Presidente Jair Bolsonaro discursa na 75ª reunião anual da Assembleia-Geral da ONU

    Alencar destaca que a grilagem e a especulação imobiliária estão ligadas ao desmatamento destas terras públicas. 

    "Não são pequenos produtores porque são grandes desmatamentos. Tem desmatamento de mil hectares, bem grandes. Para você ter uma ideia, para desmatar um hectare custa em torno de R$ 1 mil. Você imagina desmatar mil hectares, não é todo mundo que tem esse recurso para investir no desmatamento no meio da Amazônia", avalia a pesquisadora do IPAM. "É bem importante que isso fique claro. Hoje, o câncer do desmatamento é a especulação de terras que é feita por grileiros no coração da Amazônia"

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    fogo, desmatamento, Amazônia, Jair Bolsonaro
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