20:32 28 Novembro 2020
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    A pressão sobre o acordo Mercosul-UE devido à situação na Amazônia fez o vice-presidente Hamilton Mourão sugerir a diplomacia como solução. Sobre isso, a Sputnik Brasil ouviu um especialista da ESPM, que afirma que o Brasil precisa agir na área ambiental e usar interesses mútuos para salvar o acordo.

    Com a crescente pressão dos europeus e o recente anúncio francês de oposição ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, o Brasil se viu em uma situação delicada no plano internacional. Os europeus têm sido fortes críticos do desmatamento e das queimadas recordes na Amazônia durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, o que se tornou um problema nas negociações comerciais.

    Até agora, o parlamento da Valônia, na Bélgica, a Holanda e também a Áustria, afirmaram que não darão aval ao acordo. Além disso, a França se posicionou de forma contrária ao atual formato do acordo e quer incluir sanções aos países do Mercosul em caso de falta de ação contra as queimadas e o desmatamento na região.

    Presidente Jair Bolsonaro fala com o vice-presidente Hamilton Mourão na tomada de posse de Eduardo Pazuello como novo ministro da Saúde
    © REUTERS . Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro fala com o vice-presidente Hamilton Mourão na tomada de posse de Eduardo Pazuello como novo ministro da Saúde

    Na sexta-feira (18), o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, que também chefia o Conselho da Amazônia, afirmou durante uma transmissão ao vivo sobre Amazônia e Segurança, organizada pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), que a diplomacia brasileira deveria ser acionada para solucionar a tensão com os europeus e facilitar o acordo.

    Para Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo (ESPM-SP), antes da diplomacia o Brasil precisa agir de forma efetiva contra as queimadas e sair da defensiva no plano internacional. Uehara aponta que o meio ambiente, que era um "ativo" brasileiro diante do mundo, tornou-se um "passivo" no atual governo.

    "Precisamos sim de ações mais efetivas de combate aos incêndios e às queimadas, pela preservação do nosso meio ambiente, porque as imagens são bastante impactantes. Nessa semana vimos várias imagens de animais que foram queimados, mortos no Pantanal. Então, não é só a imagem da mata – o que já seria muito prejudicial – mas as imagens também dos animais mortos e que ficaram feridos impactam muito negativamente a imagem do Brasil neste momento" avalia Uehara em entrevista à Sputnik Brasil.

    O professor da ESPM afirma que nesse contexto as negociações diplomáticas entre o Brasil e os europeus serão infrutíferas caso incluam o confronto de posições – de um lado, o governo brasileiro defendendo o direito à atual política ambiental e, de outro, os europeus tentando impor uma mudança nesse sentido.

    "Se as negociações caminharem nesse sentido, nem o Brasil, nem o lado europeu vão se ver satisfeitos, porque cada um vai querer tomar suas decisões, cada um tem sua posição e perspectiva. Então, de fato, eu entendo que o avanço das negociações do Mercosul com a União Europeia para que o acordo entre em vigor, deve caminhar por uma negociação de interesses", afirma.
    Em Poconé, no Mato Grosso, um jacaré aparece morto devido às queimadas na região brasileira, em 31 de agosto de 2020.
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Em Poconé, no Mato Grosso, um jacaré aparece morto devido às queimadas na região brasileira, em 31 de agosto de 2020.

    Para Uehara, essa estratégia deve definir interesses convergentes entre os lados para avançar com as negociações em meio à crise de imagem no atual governo brasileiro.

    "O ponto negativo que vejo neste momento é que com as queimadas nós criamos um ponto de fragilidade em que o Brasil passou a ser visto como o responsável pelo entrave no avanço do acordo Mercosul-União Europeia, e virou o foco pelo telhado de vidro tanto para os países europeus [...] como também os nossos países vizinhos do Mercosul podem agora jogar sobre o Brasil a responsabilidade da falta de avanço no acordo Mercosul-União Europeia", ressalta.

    Política ambiental prejudica imagem do Brasil no mundo

    O especialista acredita que a situação do Brasil mudou "de maneira significativa" nos últimos dois anos no plano das relações internacionais, como mostra o caso das negociações do acordo entre os blocos continentais.

    "[A situação] era de um país que poderia se posicionar mais afirmativamente, jogando a responsabilidade da falta de avanço [do acordo] para a União Europeia e eventualmente para os países vizinhos, e agora nós acabamos assumindo uma posição - ou caindo em uma posição - defensiva, porque nós é que temos que nos justificar, nós é que somos foco das críticas pela falta de avanço", aponta.
    Voluntário combate chamas no Pantanal, no Mato Grosso, 13 de setembro de 2020
    © AFP 2020 / Mauro Pimentel
    Voluntário combate chamas no Pantanal, no Mato Grosso, 13 de setembro de 2020

    Uehara salienta que a evolução dos efeitos do aquecimento global ao redor do mundo afeta as populações e coloca as questões ambientais em evidência nas relações internacionais. Para ele, o Brasil precisa de "ações concretas" para conseguir melhorar sua imagem nesse cenário, que pressiona governos do mundo inteiro.

    "De fato, há uma preocupação global em relação a isso. Então não é só uma questão da União Europeia em relação ao Mercosul, mas é uma preocupação global que vem se estendendo e se aprofundando cada vez mais", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    União Europeia, Mercosul, França, Brasil
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