19:02 30 Outubro 2020
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    A opção da política externa brasileira de privilegiar os EUA em "detrimento de outros países" é uma "aposta equivocada" que não traz nenhum "benefício", disse especialista à Sputnik Brasil.

    Segundo Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), os fatos mostram que o Brasil vive uma relação de "amor" não correspondido com os Estados Unidos. 

    Um exemplo recente foi declaração do secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, sobre as restrições de viagens para os Estados Unidos. Nesta quarta-feira (8), o funcionário afirmou que a relação dos EUA com o Brasil não é diferente da estabelecida com nenhum outro país quando o assunto são as proibições de entrada em território norte-americano durante a pandemia do coronavírus. 

    "A declaração de Pompeo deixa claro de que se há algum tipo de relação especial com os Estados Unidos, esta é uma relação não correspondida. O Brasil declara seu amor aos Estados Unidos e não é correspondido de volta pelo país do presidente Donald Trump", disse Poggio. 

    No mês passado, os Estados Unidos proibiram a entrada no território norte-americano de pessoas que tenham estado no Brasil nos últimos 14 dias anteriores à viagem. A União Europeia impôs medida semelhante recentemente. A razão são os altos índices de contaminação por coronavírus no Brasil.

    Preocupação é apenas com reeleição

    O professor, especialista nas relações bilaterais entre EUA e Brasil, lembra ainda que as eleições presidenciais norte-americanas vão ocorrer em novembro, portanto Trump "não tem nenhuma preocupação que não seja sua própria reeleição". 

    "Se para isso ele precisa, inclusive, citar o Brasil como mau exemplo de combate à pandemia, que é o que ele tem feito, para em comparação dizer que os Estados Unidos estão em situação melhor, ele vai fazer. O que interessa para ele é sua reeleição, e a agenda bilateral entre Estados Unidos e Brasil é algo que não tem muita relevância nas questões de política externa de Trump nesse momento", opinou. 

    O especialista argumenta que se aproximar dos EUA, um importante parceiro do Brasil, e eventualmente formalizar algum tipo de acordo comercial, é algo natural e defensável. O que não pode ocorrer, segundo o professor, é que isso seja feito em detrimento da relação com outros países. 

    "Bolsonaro se aproxima dos Estados Unidos, se aproxima da administração Trump, e sai criticando a torto e a direito uma série de outros aliados do Brasil, como, por exemplo, a Argentina, a França e os chineses, que são nossos principais parceiros comerciais", ponderou Poggio. 

    Aproximação com Trump, não com os EUA

    Segundo o professor, a escolha brasileira é "frágil" e pode "desmoronar rapidamente", não trazendo nenhum "benefício" para o Brasil. O especialista ressalta ainda que a aproximação feita não é com o estado norte-americano, mas com a administração Trump. 

    "Essa é uma aposta equivocada, e vai se mostrar muito mais equivocada caso o Trump perca as eleições. A escolha da administração Bolsonaro não foi por uma aproximação com os Estados Unidos, mas uma aproximação com a administração Trump, com a pessoa do Donald Trump, e isso não é suficiente para uma aproximação entre países", disse. 

    Para comprovar sua tese, Poggio relembra que 24 membros da Comissão de Orçamento e Assuntos Tributários da Câmara de Representantes dos EUA assinaram carta, endereçada ao representante comercial do país, Robert Lighthizer, afirmando que o órgão era contrário a qualquer tipo de acordo com o governo Bolsonaro, que, segundo o grupo, demonstra falta de compromisso com os direitos humanos.

    ​"Relação de amizade e de pessoas não é relação entre países. A gente vê isso muito claramente no momento em que democratas do Congresso norte-americano se manifestam contrários a um acordo com o Brasil, um acordo comercial ou qualquer outro tipo de acordo. Porque a administração Bolsonaro não fez uma aproximação com os Estados Unidos como um todo, com a sociedade norte-americana, com o Congresso. Apostou todas as suas fichas na dita boa relação com Donald Trump", disse Carlos Gustavo Poggio.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    acordo, comércio, diplomacia, Jair Bolsonaro, Brasil, Donald Trump, EUA, COVID-19, pandemia, novo coronavírus
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