16:16 26 Outubro 2020
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    Pandemia do coronavírus no Brasil no início de julho (50)
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    Segundo ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Haroldo Lima, os problemas no setor também refletem a batalha global no setor energético e problemas internos no Brasil.

    A ANP informou que a produção de petróleo no Brasil diminuiu 6,5% em maio de 2020, na comparação com abril, mas aumentou 1,3% em relação ao maio de 2019. Também de acordo com ANP, a produção de gás diminuiu 3% na comparação anual, e 7,8% na comparação mensal.

    De acordo com a entidade, a queda na produção pode alinhar como principais motivos a paralisação dos navios-plataforma Mangaratiba e Cidade de Angra dos Reis e a restrição na produção nas plataformas P67, P74 e P76, em função da pandemia do novo coronavírus.

    Em conversa com Sputnik Brasil, o engenheiro Haroldo Lima, consultor na área de petróleo e gás e ex-diretor-presidente da ANP, disse não acreditar que a queda na produção deve ser atribuída exclusivamente ao coronavírus.

    "Acho que não devemos perder de vista que o setor de petróleo já enfrentava problemas complexos desde antes do coronavírus", disse Haroldo Lima.

    Para ele, o deslocamento do poder global do eixo atlântico, liderado pelos Estados Unidos, para o eixo pacífico, liderado pela China e Rússia, desempenha um papel importante.

    Além disso, o modelo energético atual, protagonizado pela energia não poluente e aproximação da "Quarta Revolução Industrial", provoca uma crise de produção.

    "A emergência do coronavírus agravou tudo isso agudamente. Cortes substanciais da produção tornaram-se imperiosos", destacou o engenheiro.

    O especialista revelou que duas importantes reuniões foram realizadas recentemente para tratar desse tema. A OPEP+ realizou um encontro no dia 9 de abril e, no dia seguinte, os ministros da Energia do G20 também realizaram conversações sobre as mesmas questões.

    Para Lima, o grande aumento da produção no setor nos Estados Unidos desde o início do século, com o desenvolvimento da tecnologia para exploração de petróleo de xisto, estaria no centro do problema.

    "Com essa tecnologia, os Estados Unidos começaram a produzir uma quantidade muito grande de petróleo e passaram a ser o maior produtor de petróleo no mundo, superando a Rússia a Arábia Saudita", explicou.

    Quando surgiu o novo coronavírus, o mercado estava com grande oferta de petróleo. Dessa forma, a demanda caiu abruptamente, explicou o entrevistado. Em vez de cortar a produção, os países, sem conseguir entrar num acordo sobre o tema, seguiram com seus níveis de produção, e os preços despencaram.

    "Tem-se dito que isso aconteceu em função de uma queda de braço entre Arábia Saudita e a Rússia. Eu não vejo assim as coisas. Na realidade, o que está em causa é a necessidade dos produtores de petróleo barato deixarem de produzir para beneficiar os produtores de petróleo caro. Com isso a Rússia não concordou", afirmou o especialista.

    Em abril, chegou-se finalmente a um acordo sobre corte de produção de dez milhões de barris diários. No entanto, a medida foi insuficiente e veio tarde. Poucos dias depois, o preço do petróleo chegou a níveis negativos nas bolsas.

    "No atual momento, o mercado de petróleo se caracteriza pela imprevisibilidade e volatilidade. O coronavírus agravou tudo isso", afirmou Haroldo Lima.

    O ex-presidente da ANP também afirmou que atual política de produção no Brasil não estaria dedicada a garantir a segurança energética para o país, o que agrava o quadro.

    "Tudo foi vendido, ou está sendo vendido. Procura-se montar no Brasil um país neocolonial no setor petrolífero assim discriminado: produz-se petróleo para exportar, e importa derivados, que são os combustíveis, para o povo brasileiro", lamentou o interlocutor da Sputnik.

    Para ele, os níveis de produção de petróleo só poderão ser retomados depois do fim da pandemia e somente com um acordo geral entre os produtores de petróleo no mundo. No entanto, segundo Haroldo Lima, um eventual acordo pode acabar não sendo feliz para a indústria brasileira.

    "Nesse particular, a situação do Brasil é periclitante e lamentável. Porque o Brasil entra neste acordo como caudatário dos Estados Unidos, e não tem frente a essa discussão uma posição independente, que defenda os interesses próprios da nação brasileira. Por isso, para retomar uma política nacional de combustíveis precisamos resolver os problemas internos do nosso país", concluiu.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Pandemia do coronavírus no Brasil no início de julho (50)

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    Tags:
    ANP, petróleo, Brasil, COVID-19
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