03:37 30 Maio 2020
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    Muitos jornalistas financeiros e economistas estariam desvalorizando o ouro como ativo financeiro para justificar a posição preeminente do dólar dos EUA como investimento principal.

    O jornal financeiro The Wall Street Journal relata que, por causa do coronavírus e das medidas para combater a pandemia, o mundo iniciou uma verdadeira corrida pelo ouro.

    A rara situação pode fazer com que jornalistas e financeiros que viram e trabalharam durante a crise 2008-2009 chamem ao que está acontecendo com o ouro o "fim do mundo".

    "É possível compreender seus pontos de vista sob certas circunstâncias, embora o cenário mais rigoroso ainda não tenha sido implementado", diz o colunista da Sputnik, Ivan Danilov. "No entanto, a crise causada pela pandemia do coronavírus ainda não terminou, e muito provavelmente não terminará em breve."

    É um cenário verdadeiramente apocalíptico, realça Danilov, e no derradeiro mercado de preparação do dia do Juízo Final se instalou uma confusão.

    A confusão se instala nos mercados

    "À medida que a pandemia do coronavírus se instala, investidores e banqueiros se deparam com uma grave escassez de barras e moedas de ouro. Negociantes estão esgotados ou fechados durante toda a hora. O Credit Suisse Group AG, que cunha suas próprias barras desde 1856, disse aos clientes esta semana que não valia a pena perguntar."

    O caos também está se espalhando para outras capitais.

    "Em Londres, os banqueiros estão fretando jatos particulares e tentando fretar aviões de carga militares para levar seu ouro para as bolsas de Nova York", diz o WSJ. "[A situação] está ficando tão má que os banqueiros de Wall Street estão pedindo ajuda ao Canadá."

    "A Casa da Moeda Real Canadense tem sido inundada com pedidos para aumentar a produção de barras de ouro que poderiam ser levadas para Nova York."

    Na semana passada, os preços do ouro subiram cerca de nove por cento (em dólares) e, como os jornalistas norte-americanos corretamente assinalam, a valorização do metal amarelo é muito semelhante à de 2008-2009, ou seja, a época em que um dos principais bancos do sistema financeiro norte-americano, o Lehman Brothers, declarou falência.

    De fato, foi nesta falência que começou a "contagem decrescente oficial" da crise financeira, que antes era interessante sobretudo apenas pelos profissionais das bolsas de valores, escreve o colunista.

    Barras de ouro comercializadas no mercado internacional
    © Sputnik / Aleksandr Kondratyuk
    Barras de ouro comercializadas no mercado internacional

    A compra em massa de ouro é um sinal tradicional e bastante justificado de pânico. Ao contrário do caso do Lehman Brothers, uma moeda de ouro em um cofre não pode simplesmente desaparecer. Em condições de nervosismo geral, isso se torna uma vantagem indubitável, e fonte de uma calma tão importante para investidores e economistas, diz Danilov.

    Caracterização do ouro

    Há um conjunto de razões pelas quais os jornalistas financeiros norte-americanos e muitos dos principais economistas não gostam muito de investidores com ativos em ouro.

    Em primeiro lugar, muitos dos que preferem manter parte das suas economias em metais preciosos têm – em parte merecida – reputação de conspiracionistas, bem como de adeptos de preparação – às vezes demasiada – para crises que podem não vir.

    A segunda razão é menos óbvia, mas provavelmente não menos importante: o ouro é a antiga base do sistema financeiro internacional, relembra Danilov. Em termos históricos, o ouro tinha há pouco tempo o lugar que o dólar norte-americano agora ocupa, com grandes benefícios para os EUA.

    A valorização do ouro e o aumento do investimento no metal precioso demonstram que o dólar não tem lugar de topo assegurado, o que deve levar todo jornalista americano a dizer que o ouro é mau e o dólar é bom.

    Como resultado, vemos declarações como estas de jornalistas norte-americanos: "O ouro é popular entre os sobrevivencionistas e os conspiracionistas, mas é também uma adição sensata às carteiras de investimento porque seu preço costuma ser relativamente estável."

    "Ele é especialmente procurado durante crises econômicas como escudo contra a inflação. Quando a Reserva Federal inunda a economia com dinheiro, como está fazendo agora, os dólares podem ficar menos valiosos."

    No contexto dos sinais da mídia vindos de Pequim, onde há uma clara preocupação com uma eventual desvalorização da moeda norte-americana, dificilmente pode ser considerado irracional o desejo dos investidores ricos e dos bancos centrais de se protegerem de tais desenvolvimentos.

    Não é por acaso que a mídia ocidental e publicações especializadas notam o déficit de ouro "físico", ou seja, uma promessa de algum banco suíço ou americano de fornecer ouro (ou pagar algum dinheiro relacionado às mudanças no preço oficial do ouro), porque é fácil de comprar, afirma o colunista.

    A corrida pelo ouro

    Mais difícil seria mesmo obter uma grande quantidade de barras de ouro.

    "Você quer comprar barras ou moedas de ouro? Boa sorte em encontrá-las", ironiza amargamente a emissora CNN norte-americana, relatando que os investidores estão comprando ambos, "procurando garantir a segurança oferecida pelo metal precioso, pois a pandemia do coronavírus está destruindo a economia e forçando os bancos centrais a imprimir trilhões de novos dólares".

    Os investidores estão pegando barras e moedas de ouro, buscando a segurança oferecida pelo metal precioso, já que a pandemia do coronavírus destrói as economias e força os bancos centrais a imprimir trilhões de dólares em dinheiro novo.

    Mas com as principais refinarias de ouro em toda a Europa fechadas por causa de bloqueios ordenados pelos governos, lojas on-line fora de estoque e muitos dos aviões comerciais que movimentam o ouro em terra, o ouro físico está se tornando mais difícil de ser rastreado, nota Ivan Danilov.

    Moedas de ouro (imagem referencial)
    © AP Photo / Kin Cheung
    Moedas de ouro (imagem referencial)

    O atual consultor econômico de Donald Trump, Larry Kudlow, disse em entrevista ao jornal The Spectator em 2001: "Eu não quero que o ouro seja um investimento quente. Assim que for, sei que o resto da história se desmoronará."

    Os problemas atuais do mercado de ouro provavelmente não são o caso onde "o resto da história", pelo qual Kudlow pode ter entendido a economia e os mercados financeiros americanos, vai realmente "cair aos pedaços". As casas da moeda sairão da quarentena, e pode se instalar um pouco de pânico nos mercados financeiros.

    Em geral, fazer previsões de que o "fim do mundo" já chegou, ou está prestes a chegar, é uma tarefa ingrata.

    Mas a situação atual demonstra muito bem quão frágil é o atual mundo financeiro dolarizado e globalizado, e quão facilmente um problema um pouco mais sério do que o coronavírus pode desfazê-lo em pedaços.

    Neste contexto, as constantes compras de ouro pelo Banco Central da Rússia (com o qual alguns comentaristas gostam de ironizar) já não parecem ser uma precaução desnecessária, mas, sim, uma prudência bem-fundamentada, indica o colunista. Mais cedo ou mais tarde, todos os bônus desta previsão irão certamente se manifestar da forma mais óbvia.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Larry Kudlow, Banco Central da Rússia, The Wall Street Journal, EUA
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